Inflação desacelera, mas alimentos e transportes pressionam os preços

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), considerado a prévia da inflação oficial, registrou alta de 0,11% em janeiro de 2025, uma desaceleração em relação à taxa de 0,34% observada em dezembro de 2024. O resultado reflete uma combinação de altas expressivas em grupos como Alimentação e bebidas (1,06%) e Transportes (1,01%) e uma queda significativa no grupo Habitação (-3,43%), que ajudou a conter o índice geral.

Em 12 meses, o IPCA-15 acumula uma alta de 4,5%, abaixo dos 4,71% registrados no período imediatamente anterior. Os dados foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira (24/1).

O grupo Alimentação e bebidas foi o principal responsável pelo aumento no IPCA-15 de janeiro, contribuindo com 0,23 ponto percentual (p.p.) para o índice geral. A alimentação no domicílio registrou alta de 1,10%, puxada por aumentos expressivos em itens como o tomate, que subiu 17,12%, e o café moído, com variação de 7,07%. Por outro lado, produtos como a batata-inglesa (-14,16%) e o leite longa vida (-2,81%) ajudaram a aliviar a pressão no grupo.

A alimentação fora do domicílio também desacelerou, variando 0,93% em janeiro, abaixo da alta de 1,23% registrada em dezembro. Lanches (0,98%) e refeições (0,96%) também apresentaram aumento mais moderado.

O grupo Transportes foi o segundo maior impacto no índice, com uma contribuição de 0,21 p.p. O destaque ficou para as passagens aéreas, que subiram 10,25% e registraram o maior impacto individual do mês (0,08 p.p.).

Nos combustíveis, os preços também subiram: etanol (1,56%), óleo diesel (1,10%), gás veicular (1,04%) e gasolina (0,53%). Além disso, houve variações nos preços do transporte público em diversas capitais brasileiras.

Em São Paulo, também houve reajustes de 4,00% nas passagens de trem e metrô, que registraram alta de 1,00%. Por outro lado, a integração do transporte público apresentou uma variação de -1,78%, reflexo das gratuidades e dos reajustes aplicados.

O único grupo a apresentar taxa negativa foi Habitação, com uma queda significativa de -3,43%, impactando o índice geral em -0,52 p.p. Essa redução foi fundamental para conter a inflação em janeiro, mesmo diante das altas em outros grupos.

Com a desaceleração da prévia da inflação em janeiro, a tendência para os próximos meses dependerá do comportamento de itens como alimentos e transportes, que continuam sendo os principais vilões para o bolso dos brasileiros. O acumulado de 12 meses, em 4,50%, ainda está abaixo do teto da meta de inflação perseguida pelo Banco Central, mas pressões persistentes em itens essenciais podem impactar o poder de compra das famílias.

“Não podemos esperar uma melhora internacional”, diz presidente da Febraban

Zurique – O presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Isaac Sidney, foi um dos painelistas do primeiro painel do Forum Econômico Brasileiro do LIDE, em Zurique, nesta quinta-feira (23/1). Em sua fala, Sidney afirmou que “não podemos esperar uma melhora internacional para mitigar nossos problemas”.

De acordo com ele, diante do cenário de incertezas, o Brasil precisa trabalhar para “evitar impactos relevantes nas expectativas sobre a nossa economia” e o país “tem que acertar a mão” no contexto externo adverso.

“Internamente, já estamos em um momento delicado e fragilizado pelo aumento da inflação e pela desconfiança, ainda presente, sobre a política fiscal brasileira. Isso tem contaminado as expectativas dos agentes econômicos e tem comprometido o comportamento do câmbio e dos juros nos últimos meses”, indagou.

“Ou seja, não podemos esperar que haja uma melhora do cenário internacional para mitigar os nossos problemas, nós temos de fechar as brechas das nossas vulnerabilidades. Temos de continuar firmes fazendo o nosso dever de casa. O Brasil deve mirar uma posição com tolerância zero para erros na economia”, disse o presidente da Febraban.

Sidney defendeu a união dos setores públicos e privados para promover uma agenda dura no setor econômico e superar choques internos e externos. Ele reconheceu os passos dados pelo Congresso Nacional e destacou que “o Brasil precisa voltar a ter o selo do grau de investimento, buscar a confiança dos investidores” para que o país atraia investidores e facilite a condução do Banco Central.

Ainda sobre o cenário econômico brasileiro, o presidente da Febraban deu sugestões como: reduzir fortemente as regras de indexação das despesas no Brasil, descontinuar políticas públicas que são ineficientes e avançar em outras reformas administrativas.

O mundo

O presidente começou analisando o cenário mundial e afirmou que o Brasil não pode entrar no caos vivido hoje. “Temos visto um aumento do populismo, uma instabilidade política em democracias maduras, e esse é um cenário que tem gerado mais insatisfação social, parece que isso ganhou força após pandemia, com a inflação subindo mundo afora”, disse. Sidney ainda continuou afirmando que “todo cuidado com inflação é pouco”.

O banqueiro alertou sobre o nacionalismo e o populismo juntos e como essa combinação inspira cuidados, como visto no Canadá, Alemanha e França. Já no viés econômico, ele ressaltou o grande endividamento dos países, inflação e juros altos, o que pode ocasionar em protecionismo comercial, que segundo o palestrante, pode vir disfarçado de política de segurança nacional. Sidney mencionou ainda o crescimento da tensão entre Estados Unidos e China, além das políticas anti-imigratórias.

Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular

INSS: novos valores de benefícios estão disponíveis para consulta no extrato de janeiro

Os novos valores dos benefícios pagos pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) já podem ser consultados no extrato de pagamento do mês de janeiro. No início deste ano, as quantias depositadas por meio de benefícios previdenciários e assistenciais foram reajustadas.

Benefício garantido? Mesmo sem orçamento aprovado, governo diz que vai manter auxílio-gás em 2025 Fraudes: Força-tarefa preveniu prejuízo de R$ 393,8 bilhões para a Previdência Social em 2024

O grupo de 28,5 milhões de aposentados, pensionistas e beneficiários de auxílios do INSS, que já recebiam o salário mínimo, passou a ganhar o novo piso de R$ 1.518.

Para aproximadamente 12,2 milhões de beneficiários com pagamentos acima do mínimo, o reajuste é de 4,77%, conforme a variação acumulada do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) entre janeiro e dezembro do ano passado. Nos últimos anos, esse grupo tem recebido apenas a reposição da inflação, sem direito a ganho real. Dessa forma, o teto dos benefícios previdenciários, pago a 10,6 mil pessoas, passou de R$ 7.786,02 para R$ 8.157,41.

Ajuste escalonado para novos beneficiários

Já aqueles que tiveram benefícios acima do salário mínimo concedidos há menos de um ano terão direito a um reajuste proporcional ao número de meses em que receberam seus pagamentos em 2024.

A tabela de reajuste tem percentuais escalonados de acordo com os meses de concessão, uma vez que esses beneficiários não foram impactados integralmente pela inflação do ano anterior por terem começado a receber a menos de 12 meses.

Tabela de correção proporcional

Data de início do benefício Reajuste

Até janeiro de 2024 4,77%

Até fevereiro de 2024 4,17%

Até março de 2024 3,34%

Até abril de 2024 3,14%

Até maio de 2024 2,76%

Até junho de 2024 2,29%

Até julho de 2024 2,04%

Até agosto de 2024 1,77%

Até setembro de 2024 1,91%

Até outubro de 2024 1,43%

Até novembro de 2024 0,81%

Até dezembro de 2024 0,48%

Fonte: Ministério da Previdência Social

deslize para ver o conteúdo

Como consultar os valores?

Os novos valores podem ser consultados por meio do aplicativo – compatível em aparelhos com sistema Android e iOS – e site Meu INSS. Após fazer o login, na tela inicial, clique no serviço de “Extrato de Pagamento”. É possível ter acesso ao extrato e todos os detalhes sobre o pagamento do benefício.

Para quem não tem acesso à internet, basta ligar para a Central 135. Ao ligar, informe o número do CPF e confirme algumas informações cadastrais, de forma a evitar fraudes. O atendimento está disponível de segunda-feira a sábado, das 7h às 22h.

Datas de pagamentos do INSS

A partir da próxima segunda-feira (27) até o dia 7 de fevereiro será feito os pagamentos de quem recebe um salário mínimo, de acordo com o número final do cartão de benefício, sem considerar o último dígito verificador, que aparece depois do traço. Veja o calendário a seguir:

Tabela de pagamento para beneficiários que ganham até um salário mínimo em 2025

Dígito final do cartão dezembro de 2024 janeiro de 2025 fevereiro de 2025 março de 2025 abril de 2025 maio de 2025 junho de 2025 julho de 2025 agosto de 2025 setembro de 2025 outubro de 2025 novembro de 2025 dezembro de 2025

1 20 de dezembro/2024 27 de janeiro 24 de fevereiro 25 de março 24 de abril 26 de maio 24 de junho 25 de julho 25 de agosto 24 de setembro 27 de outubro 24 de novembro 22 de dezembro

2 23 de dezembro/2024 28 de janeiro 25 de fevereiro 26 de março 25 de abril 27 de maio 25 de junho 28 de julho 26 de agosto 25 de setembro 28 de outubro 25 de novembro 23 de dezembro

3 26 de dezembro/2024 29 de janeiro 26 de fevereiro 27 de março 28 de abril 28 de maio 26 de junho 29 de julho 27 de agosto 26 de setembro 29 de outubro 26 de novembro 26 de dezembro

4 27 de dezembro/2024 30 de janeiro 27 de fevereiro 28 de março 29 de abril 29 de maio 27 de junho 30 de julho 28 de agosto 29 de setembro 30 de outubro 27 de novembro 29 de dezembro

5 30 de dezembro/2024 31 de janeiro 28 de fevereiro 31 de março 30 de abril 30 de maio 30 de junho 31 de julho 29 de agosto 30 de setembro 31 de outubro 28 de novembro 30 de dezembro

6 02 de janeiro 3 de fevereiro 6 de março 1 de abril 2 de maio 2 de junho 1 de julho 1 de agosto 1 de setembro 1 de outubro 3 de novembro 1 de dezembro 2 de janeiro/2026

7 03 de janeiro 4 de fevereiro 7 de março 2 de abril 5 de maio 3 de junho 2 de julho 4 de agosto 2 de setembro 2 de outubro 4 de novembro 2 de dezembro 5 de janeiro/2026

8 06 de janeiro 5 de fevereiro 10 de março 3 de abril 6 de maio 4 de junho 3 de julho 5 de agosto 3 de setembro 3 de outubro 5 de novembro 3 de dezembro 6 de janeiro/2026

9 07 de janeiro 6 de fevereiro 11 de março 4 de abril 7 de maio 5 de junho 4 de julho 6 de agosto 4 de setembro 6 de outubro 6 de novembro 4 de dezembro 7 de janeiro/2026

0 08 de janeiro 7 de fevereiro 12 de março 7 de abril 8 de maio 6 de junho 7 de julho 7 de agosto 5 de setembro 7 de outubro 7 de novembro 5 de dezembro 8 de janeiro/2026

Fonte: INSS

deslize para ver o conteúdo

Os depósitos de quem ganha acima do piso serão feitos de 3 a 7 de fevereiro. As datas também são determinadas de acordo com a numeração final do cartão.

Tabela de pagamento para beneficiários que ganham acima do salário mínimo em 2025

Dígito final do cartão Dezembro de 2024 Janeiro de 2025 Fevereiro de 2025 Março de 2025 Abril de 2025 Maio de 2025 Junho de 2025 Julho de 2025 Agosto de 2025 Setembro de 2025 Outubro de 2025 Novembro de 2025 Dezembro de 2025

1 e 6 2 de janeiro 3 de fevereiro 6 de março 1 de abril 2 de maio 2 de junho 1 de julho 1 de agosto 1 de setembro 1 de outubro 3 de novembro 1 de dezembro 2 de janeiro/2026

2 e 7 3 de janeiro 4 de fevereiro 7 de março 2 de abril 5 de maio 3 de junho 2 de julho 4 de agosto 2 de setembro 2 de outubro 4 de novembro 2 de dezembro 5 de janeiro/2026

3 e 8 6 de janeiro 5 de fevereiro 10 de março 3 de abril 6 de maio 4 de junho 3 de julho 5 de agosto 3 de setembro 3 de outubro 5 de novembro 3 de dezembro 6 de janeiro/2026

4 e 9 7 de janeiro 6 de fevereiro 11 de março 4 de abril 7 de maio 5 de junho 4 de julho 6 de agosto 4 de setembro 6 de outubro 6 de novembro 4 de dezembro 7 de janeiro/2026

5 e 0 8 de janeiro 7 de fevereiro 12 de março 7 de abril 8 de maio 6 de junho 7 de julho 7 de agosto 5 de setembro 7 de outubro 7 de novembro 5 de dezembro 8 de janeiro/2026

Fonte: INSS

deslize para ver o conteúdo

Mais recente Próxima Semana da Beleza Guanabara começa nesta quinta-feira

Europa em crise está preparada para um novo governo Trump?

“É maluquice! Estamos caminhando para uma eleição geral. O país parece estar quebrado. Nossa economia está estagnada… e a maior parte da imprensa alemã simplesmente parece estar obcecada por Trump, Trump, Trump!”

A professora de engenharia Iris Mühler, do nordeste da Alemanha, é uma dentre uma série de eleitores com quem conversei sobre a expectativa ante as eleições antecipadas do seu país, em fevereiro. E ela não é a única a ter a mesma percepção.

A Europa enfrenta toda uma série de dificuldades domésticas, especialmente nos principais países da União Europeia, a Alemanha e a França. Mas o continente se mostra muito mais preocupado com Donald Trump, desde que ele venceu as eleições presidenciais americanas, em novembro.

Na última vez em que Trump ocupou a Casa Branca, a Europa enfrentou sérias turbulências. E muitos receiam que o Trump 2.0 possa ser muito pior.

Isso sem falar que as tradicionais potências europeias já enfrentam seus próprios problemas.

A França e a Alemanha estão atoladas em suas dificuldades políticas e econômicas. A União Europeia, como um todo, perde espaço em relação à China e aos Estados Unidos, em termos de competitividade. E, no Reino Unido, o estado dos serviços públicos é lamentável.

Com tudo isso, será que o Velho Continente está preparado para Donald Trump ou foi pego cochilando na direção (de novo)?

Rejeitando alianças

Quando o assunto é comércio e defesa, Trump age mais como um homem de negócios do que como um chefe de Estado americano que valorize as alianças transatlânticas que datam da Segunda Guerra Mundial.

“Ele simplesmente não acredita em parcerias onde todos ganham”, declarou à BBC a ex-chanceler alemã Angela Merkel. Ela conviveu com Trump durante seu primeiro mandato e concluiu que ele observa o mundo com a premissa de que existem vencedores e vencidos.

Trump está convencido de que a Europa se aproveita dos Estados Unidos há anos e que isso precisa ter um fim.

Os líderes europeus observaram boquiabertos as últimas semanas, desde que Trump venceu pela segunda vez as eleições presidenciais americanas.

Em vez de concentrar sua ira nos países que ele reconhece como ameaças estratégicas, como a China, ele preferiu criticar publicamente os aliados dos Estados Unidos na Europa e o Canadá.

Trump acena com a possibilidade de abandonar a Otan, a aliança militar transatlântica que garante a segurança da Europa há décadas. Ele declarou que “incentivaria” a Rússia a fazer “tudo o que quisesse” com seus aliados europeus se eles “não pagarem” muito mais e ampliarem seus gastos com a defesa.

Em relação ao comércio, Trump claramente está mais furioso com a União Europeia do que durante seu primeiro mandato.

O bloco vende muito mais para os Estados Unidos do que importa. Em janeiro de 2022, o superávit comercial era de 15,4 bilhões de euros (cerca de R$ 96,7 bilhões).

Qual foi a resposta de Donald Trump? Ele disse que irá impor tarifas generalizadas de 10% a 20% sobre todas as importações e impostos ainda mais altos sobre certos produtos, como automóveis.

Este cenário é desastroso para a Alemanha, que depende das exportações e da indústria automobilística em particular. Sua economia já está trepidando — no ano passado, ela encolheu em 0,2%.

E, por se tratar da maior economia da zona do euro, as dificuldades financeiras da Alemanha ameaçam prejudicar a moeda como um todo.

Com Donald Trump, a Otan passa a se preocupar com a possível saída dos Estados Unidos da aliança

Alemanha ‘no topo da lista’

Para Merkel, quando ele foi presidente da última vez, Trump parecia determinado a prejudicar a Alemanha.

O vice-diretor do Centro para a Reforma da Europa, Ian Bond, acredita que o país irá permanecer no “topo da lista de prioridades de Trump [no continente]”.

“Ele disse no passado que não quer ver carros Mercedes-Benz nas ruas de Nova York”, relembra ele. “Mas isso é meio maluco, já que, na verdade, a maior parte dos Mercedes-Benz que você vê nas ruas de Nova York é fabricada no Alabama [EUA], onde a Mercedes possui uma grande fábrica.”

“Muitas vezes, ele foi mais hostil com a Alemanha do que com qualquer outro país da Europa. Talvez fique um pouco mais fácil para a Alemanha, com um novo governo mais conservador [após as próximas eleições gerais], mas eu não contaria com isso.”

O primeiro-ministro da Alemanha, Olaf Scholz, pediu “cabeças frias” após as primeiras horas de Trump como presidente,

O líder alemão disse que as movimentações nas redes sociais sugerem “um mundo à beira de um ataque de nervos”, mas que “nem toda entrevista coletiva em Washington, nem todo tuíte, deveria nos levar a debates existenciais”.

O apelo de Scholz, ao qual muitos podem simpatizar, é por calma, mas seus críticos podem argumentar que sob sua liderança a Alemanha foi calma demais diante de um mundo em mudança radical.

Uma das críticas mais comuns contra o governo alemão é de que a maior economia europeia não conseguiu se fortalecer, sem gerar crescimento econômico ou aumentar suficientemente seus gastos em defesa.

Já o Reino Unido espera evitar as tarifas de Trump porque não detém esse desequilíbrio comercial com os Estados Unidos. Mas o país pode muito bem ser atingido pela onda de choque, no caso de uma guerra comercial entre os EUA e a União Europeia.

A preparação real da Europa

O estilo enérgico de Trump pode não surpreender seus aliados, após seu primeiro mandato na Casa Branca.

Mas o verdadeiro enigma para a Europa, agora, é sua imprevisibilidade. Quanto de Donald Trump é fanfarronice e intimidação e quanto é promessa de ação?

O vice-presidente do think tank (centro de pesquisa e debates) Fundo Marshall Alemão dos Estados Unidos, Ian Lesser, acredita que as ameaças de tarifas de Trump são reais e que a Europa está longe de estar preparada para elas.

“Eles não estão preparados — ninguém está, na verdade”, explica ele. “Esta abordagem muito diferente do comércio global abala muitos alicerces da economia internacional, que passaram décadas evoluindo.”

A Comissão Europeia afirma que está pronta para qualquer medida de Trump no seu retorno à Casa Branca. Afinal, trata-se de uma imensa potência comercial no cenário mundial.

Mas Lesser afirma que o maior impacto à Europa pode sobrevir se Trump lançar uma guerra comercial agressiva contra a China. Esta medida poderia resultar em interrupções de cadeias de fornecimento para a Europa e Pequim poderia descarregar uma quantidade ainda maior de produtos baratos nos mercados europeus, em detrimento das empresas locais.

“Para a Europa, a ameaça é dupla: o que os Estados Unidos poderão fazer e o que a China irá fazer em resposta.”

Comércio, defesa e o fator Musk

Uma pesquisa recente indicou que Donald Trump e Elon Musk despertam muita desconfiança na Europa

O que complica ainda mais as coisas é que o comércio e a defesa não são questões separadas para Donald Trump e seu governo.

O novo presidente americano se negou recentemente a descartar ações militares e/ou econômicas contra a Dinamarca, membro da União Europeia e da Otan, se o país não entregasse a Groenlândia, seu território autônomo, aos Estados Unidos.

E o vice-presidente de Trump, J. D. Vance, defendeu condicionar a defesa americana da Europa à não interferência dos órgãos reguladores europeus sobre a plataforma de rede social X, antigo Twitter.

Vance alertou que os Estados Unidos poderão retirar seu apoio à Otan se a União Europeia der prosseguimento à sua longa investigação do X, de propriedade do Menino de Ouro de Trump, Elon Musk.

Musk também demonstrou recentemente sua disposição de assumir lados na política europeia.

Ele lançou repetidos ataques online contra os líderes europeus de centro-esquerda Keir Starmer, do Reino Unido, e Olaf Scholz, o chanceler alemão que está deixando o governo do país. Musk também postou no X que o partido extremista anti-imigração AfD seria a única esperança da Alemanha.

Suas manifestações deixaram muitos chocados na Europa, mas as pesquisas indicam que, na verdade, as controversas postagens de Musk exercem pouca influência sobre a opinião pública europeia.

Trump e Musk despertam ampla desconfiança na Europa, como ilustra uma nova pesquisa encomendada pelo Conselho Europeu de Relações Exteriores, intitulada “A UE e a opinião pública global após as eleições americanas”.

Massagear o ego ou acenar com dinheiro?

O presidente francês, Emmanuel Macron, foi um dos primeiros a felicitar Trump nas redes sociais pela sua vitória nas eleições presidenciais americanas pela segunda vez

O fato é que os diferentes líderes europeus detêm técnicas diversas para “domar o Trump”, como são chamadas estas tentativas. Alguns deles massageiam o ego nada pequeno do presidente americano.

Neste quesito, o especialista é o presidente da França, Emmanuel Macron. Ele foi um dos primeiros líderes mundiais a felicitar Donald Trump nas redes sociais após sua nova eleição em novembro — e o convidou rapidamente a comparecer à resplandecente reabertura da Catedral de Notre Dame, na capital francesa, repleta de autoridades.

Durante o primeiro mandato de Trump na Casa Branca, Macron recebeu Trump como convidado de honra na exibição anual de pompa e poderio militar do dia da Queda da Bastilha, em Paris.

Já o Reino Unido sabe que Trump tem uma queda pela Escócia, de onde veio sua mãe, e pela Família Real Britânica. Em 2019, ele apreciou visivelmente um banquete de Estado com a rainha Elizabeth 2ª (1926-2022) e fez vários elogios ao príncipe William, depois de se reunir com ele no ano passado.

Mas outras autoridades europeias preferem acenar com dinheiro.

A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, aconselhou os líderes da Europa a adotar uma “estratégia de talão de cheques”, negociando com Trump em vez de retaliar suas possíveis tarifas de importação.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, fala em comprar mais gás natural liquefeito dos Estados Unidos (a preços mais altos), como parte dos esforços da Europa para diversificar suas fontes de energia. O continente vem abandonando sua dependência do gás russo, mais barato, desde a invasão da Ucrânia pelo Kremlin, em 2022.

Fontes da Comissão também falam na possível compra de mais produtos agrícolas e armas dos Estados Unidos.

A Europa também deve ser autossuficiente?

O retorno de Donald Trump à Casa Branca vem fazendo os líderes europeus examinarem as fraquezas do continente.

Macron defende, há muito tempo, o que ele chama de “autonomia estratégica” — essencialmente, que a Europa aprenda a ser mais autossuficiente, para poder sobreviver.

“A Europa… pode morrer e isso depende inteiramente das nossas escolhas”, declarou ele no ano passado.

A pandemia de covid-19 mostrou como a Europa é dependente dos produtos importados da China, como remédios. E a invasão da Ucrânia por Vladimir Putin expôs a dependência excessiva da energia russa por parte da Europa.

Macron, agora, soa o alarme em relação aos Estados Unidos.

“Os Estados Unidos da América têm duas prioridades”, segundo o presidente francês.

“Primeiro, os Estados Unidos, e isso é legítimo. Em segundo lugar, a questão da China. A questão europeia não é uma prioridade geopolítica para os próximos anos e décadas.”

A grande questão da defesa

Quando o assunto é a defesa, a insistência de Trump para que a Europa aumente seus gastos é geralmente bem aceita — embora o valor desse aumento seja um acalorado tema de debate.

Mas, enquanto Trump fala em aumentar o gasto em percentual do PIB, os europeus discutem como gastar seus orçamentos de forma mais inteligente e conjunta, para fortalecer a segurança do continente.

Emmanuel Macron deseja uma política europeia para a indústria da defesa como um todo. Ele afirma que a guerra na Ucrânia demonstrou que “nossa fragmentação é uma fraqueza”.

“Às vezes, nós descobrimos, como europeus, que nossas armas não são do mesmo calibre, que nossos mísseis não são compatíveis.”

A preocupação da Europa é que Trump não queira continuar sendo o principal financiador da ajuda militar à Ucrânia, como ocorreu no governo Biden.

Em fevereiro, os líderes da União Europeia convidaram o Reino Unido — uma das duas grandes potências militares da Europa — para uma cúpula informal. A intenção é discutir como trabalhar melhor em conjunto sobre questões de defesa e segurança.

A chefe da defesa da União Europeia e ex-primeira-ministra da Estônia, Kaja Kallas, acredita que seja necessária uma unidade de propósito na Europa.

“Precisamos agir de forma unificada”, declarou ela. “Com isso, somos fortes. Com isso, também mantemos seriedade no cenário mundial.”

Europa mais fraca e dividida?

Alguns acreditam que a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, pode priorizar o fortalecimento dos laços com Donald Trump e não a união na Europa

Alguns analistas afirmam que a Europa está muito mais fraca e dividida para lidar com Trump 2.0 do que em 2016, quando ele foi eleito pela primeira vez.

Eu diria que a resposta é sim, mas também não.

Sim porque, como dissemos, o crescimento econômico é lento e a política é volátil. Os partidos nacionalistas, populistas e eurocéticos estão ganhando força em muitos países europeus.

Alguns desses partidos, como a AfD alemã, são flexíveis com Moscou. Outros, como o da primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, podem estar mais dispostos a priorizar os laços transatlânticos com Trump, em detrimento da unidade europeia.

Mas é preciso ter cuidado ao olhar com lentes cor-de-rosa para a Europa da época em que Trump foi eleito presidente pela primeira vez.

Financeiramente, o norte da Europa certamente estava melhor do que agora. Mas, em termos de unidade, o continente estava profundamente dividido após a crise dos migrantes de 2015.

Os partidos populistas eurocéticos já estavam em crescimento e, após a votação do Brexit, em junho de 2016, surgiram previsões generalizadas de que a União Europeia logo perderia outros países membros e se desintegraria.

Avançando para 2025, a União Europeia superou o Brexit, a pandemia de covid, a crise da migração e o primeiro mandato de Donald Trump. E os países ficaram bastante unidos após a invasão da Ucrânia pela Rússia.

O Velho Continente mais cambaleou do que navegou durante essas crises sucessivas, mas a União Europeia segue de pé e as feridas do Brexit, por exemplo, foram curadas com o passar do tempo.

A União Europeia considera o Reino Unido pós-Brexit como um aliado próximo, que compartilha os mesmos valores em um mundo ameaçado pela ambição chinesa, pelo expansionismo russo e por um novo presidente americano, enérgico e imprevisível.

Já a Otan, ainda que esteja preocupada com o comprometimento de Trump junto à aliança, vem se ampliando militar e estrategicamente com a entrada da Suécia e da Finlândia, vizinha da Rússia, após a invasão da Ucrânia pelo Kremlin.

Talvez, apenas talvez, Trump observe menos diferenças e frustrações que o antagonizem com a Europa desta vez.

Esta é uma Europa que reconhece a necessidade de gastar mais com a defesa, como ele exige; que é muito mais cautelosa com a China, como ele espera; e está muito mais voltada para a direita, como ele prefere.

Mas seria esta uma Europa cujos líderes também irão enfrentar Trump, com todas as suas ameaças e fanfarronice, se ele vier a cruzar um limite — seja sobre direitos humanos, liberdade de expressão ou perda de tempo com ditadores?

Está por ser escrito um novo capítulo nas relações entre os amigos rivais dos dois lados do Atlântico.

* Com colaboração de Jessica Parker, correspondente da BBC News em Berlim

Dólar: o que esperar com o retorno de Donald Trump à Casa Branca?

Boa parte dos economistas aposta em um dólar forte em 2025. O mais recente boletim Focus do Banco Central, que reúne as estimativas de dezenas de instituições financeiras para uma série de indicadores macroeconômicos, aponta para um dólar a R$ 6 até o fim do ano.

A moeda americana cruzou esse patamar em novembro do ano passado, poucos dias depois da eleição americana, e praticamente não voltou mais.

Uma das razões é a expectativa em torno da política econômica do segundo mandato de Donald Trump à frente da Presidência dos Estados Unidos.

Para entender exatamente como o retorno do republicano vai impactar o dólar é preciso aguardar o anúncio formal das medidas econômicas, observar os efeitos que elas vão produzir na prática e a reação dos países afetados.

A agenda que ele vendeu na campanha e sinalizações recentes dadas por ele e por sua equipe, contudo, têm sedimentado a ideia de que o cenário é de dólar fortalecido.

Uma das medidas apontadas por economistas com maior potencial nesse sentido são as tarifas que Trump prometeu impor sobre praticamente todos os produtos que os Estados Unidos importam, especialmente os chineses.

Elas não vieram em enxurrada logo depois da posse nesta segunda-feira (20/1), como temiam alguns especialistas, o que pode sinalizar maior gradualismo.

Em vez disso, Trump assinou um decreto que prevê que as agências federais do governo façam uma ampla revisão da política comercial americana, buscando práticas comerciais desleais de parceiros dos EUA.

Os relatórios devem começar a chegar à mesa do presidente em 1º de abril e podem municiar sua agenda tarifária neste segundo mandato.

Na segunda, ele disse a repórteres estar considerando taxar o México e o Canadá em 25% em 1º de fevereiro porque esses países, segundo ele, vinham permitindo que “um número massivo de pessoas entrassem e que o fentanil entrasse” pelas fronteiras com os EUA.

Também declarou que “poderia” impor uma tarifa universal a todos os importados que entrassem no país, argumentando que “essencialmente todos os países tiram proveito dos EUA”.

Cotação do dólar é resultado de uma série de fatores, externos e internos

Efeito cascata

O impacto do protecionismo tarifário sobre o dólar ocorre por conta de um movimento em cadeia.

Em um primeiro momento, a elevação de tarifas tende a ser repassada pelo menos em parte pelas empresas aos consumidores, elevando o nível geral de preços.

Diante da inflação mais alta, entra em cena o Federal Reserve (FED), o Banco Central americano, que eleva juros em uma tentativa de conter a trajetória de alta dos preços.

O aumento de juros, por sua vez, além de esfriar a atividade econômica, também aumenta o retorno dos títulos americanos, o que leva investidores a deixar mercados considerados menos seguros, como o Brasil, e migrar para os EUA, em um movimento que fortalece o dólar.

Em um estudo publicado em outubro de 2024, o The Budget Lab, centro de pesquisa da Universidade de Yale focado na análise de políticas públicas com impacto na economia, calculou que a inflação poderia subir em algo entre 1,4% a 5,1%, levando em consideração diferentes cenários.

Por exemplo: tarifa ampla de 10% para todos os produtos que os americanos importam, como Trump já chegou a aventar, e de 60% para produtos chineses, em situações com e sem retaliação dos países afetados.

“Tarifas causam uma mudança de nível nos preços ao consumidor no ano em que são implementadas semelhante a um choque único na inflação”, argumentam as economistas Kimberly Clausing e Mary Lovely, do centro de pesquisa Peterson Institute for International Economics, em um relatório em que detalham o impacto potencial do tarifaço sobre o consumidor americano.

“O fardo econômico é semelhante a um imposto sobre vendas no varejo ou um imposto sobre valor agregado: um aumento no preço pago pelos consumidores. No entanto, as tarifas são um imposto sobre consumo mais distorcivo, uma vez que causam uma realocação ineficiente da produção, além de um aumento de preço ao consumidor”, concluem.

Um dos economistas que têm sido vocais sobre os alertas em relação aos potenciais efeitos inflacionários do aumento generalizado de tarifas tem sido Larry Summers, que foi secretário do Tesouro dos Estados Unidos durante o governo Bill Clinton (1999 – 2001).

“Se ele cumprir o que prometeu na campanha, vai haver um choque inflacionário significativamente maior do que o afetou o país em 2021”, opinou, em uma entrevista à CNN, fazendo referência à pandemia de covid-19.

A óptica de Trump, contudo, é de que as tarifas podem ser uma fonte de arrecadação para os cofres do governo.

Em seu discurso de posse, ele mencionou inclusive o External Revenue Service, um órgão que ele propôs que seja criado especificamente para recolher as tarifas, cuja arrecadação recai hoje sobre o Serviço de Alfândega e Proteção de Fronteiras (Customs and Border Protection).

O presidente também já comentou que enxerga no protecionismo um mecanismo de correção para o que entende como injustiças na forma como o comércio global funciona, associando o déficit que os EUA têm na balança comercial com determinados países com situações em que outras nações estariam se aproveitando dos americanos.

Essa é uma visão de mundo que se aproxima do mercantilismo, modelo que vigorou na Europa antes da Revolução Industrial, disse em entrevista à BBC News Brasil pouco antes das eleições americanas Luciano Sobral, economista-chefe da Neo Investimentos.

Bessent durante sabatina no Senado: indicado para liderar Departamento do Tesouro já sinalizou endossar política tarifária

Equipe econômica pró-tarifas

Ainda não se sabe exatamente como vai ser o tarifaço do Trump, mas uma sinalização importante veio na semana passada, durante a sabatina no Senado do indicado do presidente para secretário do Tesouro, Scott Bessent.

Bessent, um gestor de fundos veterano do mercado financeiro, que vai ser responsável por implementar a política econômica dos EUA nos próximos quatro anos, reforçou que deve adotar uma política tarifária mais agressiva e refutou que a medida seja inflacionária.

Outro nome chave é Howard Lutnick, indicado para secretário de Comércio, um cargo com influência direta na política industrial e tarifária.

Além de bilionário veterano de Wall Street, Lutnick é conhecido por ser entusiasta da política de tarifas de importação. Ele ainda precisa passar pela audiência de confirmação no Senado – e existe uma expectativa grande sobre como vai responder aos questionamentos dos parlamentares.

Ele estava ao lado de Trump quando, recentemente, o agora presidente mencionou o Brasil ao falar sobre tarifas: “A Índia cobra muito, o Brasil cobra muito. Se eles quiserem nos taxar, tudo bem, mas nós vamos taxar de volta”, afirmou na ocasião.

Trump prometeu tarifas de 60% para produtos chineses

Brasil alvo das tarifas?

Nesse sentido, os especialistas também ressaltam que ainda é difícil prever o impacto das tarifas propriamente ditas sobre o Brasil.

De um lado, argumenta-se que o país não deve ser alvo preferencial do tarifaço, porque não tem acordo de livre comércio com os Estados Unidos e tem déficit na balança comercial com o país – ou seja, compra mais produtos dos americanos do que vende pra eles.

Por outro lado, o Brasil é membro do Brics, bloco que Trump ameaçou com tarifas de 100% caso apoiem qualquer iniciativa de uso de moedas alternativas ao dólar.

Não há planos de adotar uma moeda única entre membros do Brics, mas os países do bloco têm criado instrumentos para fazer transações comerciais em moeda chinesa e o banco do Brics tem concedido empréstimos em moedas alternativas ao dólar.

No primeiro governo Trump, quando o republicano colocou em prática uma versão menor do que aparenta planejar fazer desta vez, o Brasil foi afetado com tarifas impostas sobre as importações de aço e de alumínio.

Trump assinou uma série de decretos após a posse

O mosaico da cotação do dólar

A política monetária americana não é, claro, o único fator que influencia o preço do dólar. A cotação de uma moeda em relação a outra é resultado de uma combinação de diversos fatores, internos e externos.

No último ano, por exemplo, a política de gastos públicos do governo Lula foi apontada como um dos fatores que contribuíram para a saída de investidores do país e desvalorização do real.

No ano passado, a saída de dólares do país pela via financeira foi recorde, US$ 87,2 bilhões, maior valor da série histórica do Banco Central que começa em 1982.

Parte do déficit foi compensada por outra conta do balanço de pagamentos que registra o fluxo cambial do país, a conta comercial, que teve superávit de US$ 69,2 bilhões.

Em relatório enviado a clientes nesta terça (21/1), os economistas Mauricio Une e Renan Alves, do Rabobank, avaliam que “o real brasileiro permanece à mercê das incertezas globais”.

Ressaltam a depreciação de 27,2% no ano passado, a segunda maior em uma cesta com as 24 principais moedas emergentes, e estimam a cotação para o fim de 2025 em R$ 5,94.

Nova classe trabalhadora não está satisfeita com governo Lula. É um fenômeno de classe, diz cientista político André Singer

O alinhamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com uma parcela importante da camada mais pobre da população continua fiel, passados mais de 20 anos de seu primeiro governo. São pessoas com renda familiar mensal de até dois salários mínimos e reúnem a maioria dos brasileiros que apoia o governo petista.

Quem cita o panorama é André Singer, professor titular do Departamento de Ciência Política da USP, para afirmar que “ainda está de pé” o “lulismo”, o termo cunhado por ele para descrever essa conexão entre Lula e base da sociedade, para além do próprio Partido dos Trabalhadores (PT).

No entanto, à medida que a renda sobe, o governo Lula começa a encontrar dificuldades. São obstáculos atribuídos por Singer às transformações mais recentes do capitalismo e estão ligados nos últimos anos ao aumento do custo de vida e às mudanças no mercado de trabalho, e não apenas no Brasil.

Em entrevista à BBC News Brasil, Singer, que foi porta-voz do primeiro governo Lula (2003-2007), analisa esse momento atual e aponta alguns dos principais desafios para o PT, que sua família ajudou a fundar.

“O PT é herdeiro da tradição da classe trabalhadora organizada. E ele tem dificuldades diante de uma classe trabalhadora profundamente desorganizada, eu diria até estruturalmente desorganizada”, diz ele, autor de Os sentidos do lulismo (2012) e O lulismo em crise (2018).

Poucos dias após esta entrevista concedida em São Paulo, a chamada crise do Pix se instaurou, pressionando o Planalto.

Em meio a fake news e boatos de que o Pix seria taxado ou que o monitoramento levaria a uma maior tributação, o governo precisou recuar da medida tomada, que aumentava a fiscalização das transações.

Algo acrescentar sobre o tema?, perguntou a reportagem a Singer logo depois. Ele disse que ainda era cedo para uma posição mais substantiva sobre a crise, mas frisou: “A polêmica mostra como o tema do trabalho informal por parte de pequenos empreendedores ganhou relevância no Brasil de hoje.”

Na conversa, além dos destinos de Lula e seu partido, Singer também falou das perspectivas da direita e da direita radical para 2026.

Confira os principais trechos da entrevista:

BBC News Brasil – Somente cerca de um terço dos brasileiros aprova o governo Lula, segundo o Datafolha, e ele não consegue subir esse percentual, apesar de indicadores econômicos, como o baixo desemprego. Por quê?

André Singer – Se olharmos os resultados de apoio ao governo por renda, a gente observa que, entre os que ganham até dois salários mínimos de renda familiar mensal, que é a base da pirâmide social, o apoio [ao governo] vai para 46%. Portanto, poderíamos dizer que se a sociedade brasileira fosse só composta desse setor, que é quase a metade da população, as condições de governo estariam bem melhores. Porque a partir de 50% [de aprovação] você começa a considerar que um governo está indo para as condições de reeleição, e 46% está bastante perto de 50%. Portanto, eu diria que isso mostra que o realinhamento eleitoral de 2006, que diz respeito ao lulismo, está funcionando.

Houve um realinhamento por meio do qual a base da sociedade brasileira colocou o Lula como seu representante. E o Lula, por sua vez, se tornou o representante desse setor. É isso que eu chamo de lulismo. Isso está de pé.

Porém, daí para a frente, ele cai abruptamente pra cerca de 27% [de aprovação]. Perde 20 pontos percentuais quando você passa dos eleitores que ganham até dois salários mínimos de renda familiar mensal, para os que ganham de dois a cinco salários mínimos. Isso é impressionante.

E o que acontece, a meu ver, é um fenômeno de classe. Você está transitando do subproletariado para o proletariado. Esse setor que está mais integrado, que é, vamos dizer, o proletariado, não está satisfeito.

BBC News Brasil – Por quê?

Singer – Acho que um dos elementos da insatisfação tem a ver com o custo de vida, que esteve significativamente alto o tempo todo, e não baixa. Agora, com o que aconteceu nos Estados Unidos, ou seja, a derrota do Biden, dá para ver que esse é um fenômeno mundial. Tem um problema mundial de aumento do custo de vida, que está pegando, provavelmente, as cadeias produtivas desde a Covid, que foram desorganizadas e, possivelmente, essa desorganização foi potencializada pela guerra na Ucrânia, que aumentou o preço dos combustíveis.

Tem uma onda, não só inflacionária, mas especificamente do aumento do custo de vida para as pessoas de baixa renda.

O outro fator tem a ver com a mudança do mercado de trabalho no Brasil. Depois do impeachment da presidente Dilma, tivemos a reforma trabalhista com perda acentuada de direitos e praticamente dez anos de intensa transformação tecnológica, em que o trabalho por plataformas entrou com uma força que não existia até então. E com isso você tem uma fragmentação da antiga classe trabalhadora que ganha agora uma forma nova. Você tem levas de trabalhadores, em boa parte jovens, mas não só, que não têm a experiência do trabalho em fábrica, do trabalho sindicalizado ou sindicalizável. Você tem essa nova modalidade que se usa chamar de empreendedorismo, mas que na prática é uma inserção precária no mercado do trabalho, marcada pela superexploração.

O problema é que isso tem um efeito perverso. As pessoas que não passaram pela experiência anterior acham que o mundo é assim e que, portanto, é preciso se virar por conta própria. Essas pessoas se tornam razoavelmente vulneráveis a uma ideologia de extrema direita que vai na direção de eliminação do Estado.

Daí para frente, você tem um terceiro fenômeno, que é a oposição ao governo. Sempre existiu, e se não houver oposição, não tem democracia. E [neste caso] é a oposição da classe média, que não enxerga nesse governo o seu governo. Historicamente, era assim quando o PSDB era forte, mas vai se radicalizando até chegar ao ponto de eleger o [ex-presidente Jair] Bolsonaro. Essa base, que era uma base do PSDB, se deslocou para a extrema direita. E, em parte, ainda está lá.

Para Singer, se for necessário em 2026, o PT repetirá a criação de “uma grande frente de todos os que quiserem salvar a democracia”

BBC News Brasil – Não é um paradoxo o Partido dos Trabalhadores não conseguir dialogar com essa classe trabalhadora que está crescendo cada vez mais?

Singer – Eu não acho que seja um paradoxo. Eu preferiria chamar de um efeito perverso, da maneira pela qual o capitalismo está se desenvolvendo no mundo. Essas coisas nunca são deliberadas, porque não existe uma pessoa orientando o capitalismo. O que existe é o resultado, como diria [Karl] Marx, do desenvolvimento das forças produtivas.

O capitalismo contemporâneo está dissolvendo a antiga classe trabalhadora, à medida que vai havendo a desindustrialização. O PT é um partido herdeiro da tradição da classe trabalhadora organizada. E ele tem dificuldades diante de uma classe trabalhadora profundamente desorganizada, eu diria até estruturalmente desorganizada. Porque é isso que o capitalismo contemporâneo está fazendo.

Em uma perspectiva de futuro longínqua, é possível imaginar que ela vai acabar se organizando, mas vai demorar muito tempo. Porque as condições são totalmente adversas. Vamos imaginar o tempo em que o Marx escreveu. Não é o sindicato que organiza os trabalhadores. O sindicato serve de veículo para uma organização que já existe. É o próprio capitalismo que organiza o trabalhador na fábrica. É por isso que o Marx diz que o capitalismo produz os seus coveiros.

Só que agora não tem mais isso. O sujeito que trabalha por plataforma compete com o colega. Primeiro que ele não sabe quem são os competidores, eles não se encontram, eles não dividem o trabalho, cada um faz o seu. Não há uma linha de produção dividida, não há como fazer automaticamente uma greve.

BBC News Brasil – Nesse sentido, existe uma crítica de que o PT não abraçou necessariamente a pauta do fim da escala 6 por 1, um tema caro aos trabalhadores.

Singer – De fato, é uma questão sobre a qual o partido devia se aplicar mais, porque eu acho que ele justamente fala para esse setor, de dois a cinco salários mínimos de renda familiar mensal. Da mesma maneira como me parece que a proposta de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até 5 mil reais de renda familiar mensal, fala para esse setor também.

O PT não pode aderir a uma ideologia do empreendedorismo do salve-se quem puder. Isso é contra os seus próprios princípios. É contra aquilo que ele veio para propor para a sociedade brasileira.

BBC News Brasil – Mas isso está na mesa?

Singer – Eu noto que há uma certa perplexidade, em particular com o que aconteceu em São Paulo, onde isso foi muito nítido, o apelo do Pablo Marçal [o ex-coach que foi candidato à Prefeitura de São Paulo em 2024 pelo PRTB] em relação, por exemplo, aos moto-entregadores. E dentro dessa perplexidade, por vezes eu vejo inclinações a querer adotar certas propostas, ideias que não fazem sentido para um partido de esquerda. Como se fosse possível simplesmente trazer essas propostas. Há um limite que é dado pela própria razão de ser do partido.

BBC News Brasil – A ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda e da contribuição para quem tem renda superior a R$ 50 mil por mês foram, ao seu ver, medidas bem comunicadas? Acha que as pessoas estão sabendo?

Singer – É… Acho que as pessoas não estão… Talvez não estejam sabendo. Mas eu não sei se o problema aí é de comunicação. O projeto de lei não foi ainda enviado ao Congresso. E estamos diante de um Congresso em que a maioria conservadora é nítida. Portanto, uma medida como essa não vai ter vida fácil. O eleitorado, de modo geral, não está muito interessado no processo, mas sim no resultado.

BBC News Brasil – A direita radical se comunica muito bem. Bolsonaro fazia lives toda semana para falar com seus eleitores e dizer o que estava fazendo, e usa bem as redes sociais…

Singer – Acho que há uma confusão nessa formulação. Não é que o Bolsonaro se comunica bem. É que a internet é muito favorável, como o rádio foi na época do fascismo histórico, para um tipo de comunicação muito direta e muito altissonante. Porque isso chama muito a atenção.

Vou dar o exemplo de novo do Trump, que por ser distante é mais fácil. Ele fala coisas absurdas. E uma parte das coisas que ele fala tem só a função de chamar atenção. Porque chamar atenção é o próprio objetivo.

BBC News Brasil – O Bolsonaro fazia o mesmo…

Singer – Acontece que a esquerda não pode fazer isso. É contra, digamos, a missão da esquerda. A esquerda quer um passo além do capitalismo e da civilização capitalista. Se você começa a comunicar coisas absurdas, você está jogando tudo para trás, o que a extrema direita faz. É regressivo. Se a esquerda adotar esse tipo de conduta, ela se nega enquanto esquerda. Ela não pode fazer isso. É uma questão de para quê ela existe. Aí o problema não é de comunicação.

A extrema direita encontrou um espaço neste mundo porque o capitalismo fez as condições regredirem a um tal ponto que propostas absurdas têm um lugar. Porque, de certa forma, o capitalismo contemporâneo transformou a realidade em uma situação absurda. Então, propostas absurdas têm lugar, mas se a esquerda cede a isso, ela deixa de existir enquanto esquerda.

BBC News Brasil – Falando em Pablo Marçal, os chamados outsiders da política estão ventilando uma possível candidatura em 2026 novamente, incluindo o candidato à Prefeitura de São Paulo e até o cantor sertanejo Gusttavo Lima (ainda sem partido). Na visão do senhor, o PT tem se preparado para esse tipo de embate?

Singer – A candidatura do Pablo Marçal em São Paulo mostrou duas coisas: a primeira é que a extrema direita tem apelo eleitoral. Ainda que São Paulo não seja o Brasil, em alguma medida as eleições em São Paulo são algo nacionalizadas e, feitas uma série de mediações, expressam um pouco o que acontece no Brasil.

Dado esse contexto, eu diria que a candidatura do Marçal mostrou a vitalidade da extrema direita, porque ele praticamente chegou ao segundo turno sem apoio partidário nenhum, tempo no horário eleitoral gratuito zero, só com base numa presença anterior na internet e numa articulação cênica, digamos assim, de altíssima competência. Não é tanto, digamos, a habilidade pessoal dele, e sim, a meu ver, a expressão de um espaço político que existe.

Ao mesmo tempo, a eleição mostrou que, isoladamente, a extrema direita não está em condição de vencer hoje. É claro que daqui a dois anos as coisas podem mudar, não estou fazendo uma previsão. Mas não só o Pablo Marçal acabou não indo para o segundo turno: em várias capitais em que fenômenos do tipo Marçal, só que aí no caso, apoiados pelo Bolsonaro, como foi Goiânia [com Fred Rodrigues, do PL], Fortaleza [com o deputado federal André Fernandes, PL] Curitiba [com Cristina Graeml, do PMB] e Belo Horizonte [com o deputado estadual Bruno Engler, do PL], em todos esses casos você teve fenômenos tipo Marçal, que chegaram ao segundo turno, praticamente empatando com políticos com grande apoio de máquinas. Mas todos perderam. Ou seja, a extrema direita tem chance, desde que ela se una à direita.

Essa minha conclusão está respaldada pelas declarações que foram dadas logo após a eleição por duas lideranças do campo da direita, que foram o Gilberto Kassab (PSD) e o Valdemar Costa Neto (PL), posicionados, neste momento, em campos distintos, porque o Kassab está no campo da direita e o Valdemar Costa Neto está no campo da extrema direita. Os dois viram que, sozinha, a direita não ganha e a extrema direita também não. Há então um problema aí de unidade. Eu diria que, diante disso, especificamente, o PT não tem muito o que fazer, porque é um problema do outro campo.

O que você poderia dizer é em que medida o PT está lidando com o problema da extrema direita, que é o caso do Marçal. Eu diria que a saída para isso já foi dada em 2022 e, se a situação se mostrar parecida, eu acho que ela vai ser colocada novamente como saída: uma grande frente de todos os que quiserem salvar a democracia. Isso já foi feito em 2022 e não me parece que haja nenhuma dúvida dentro do PT que, se houver a mesma situação, isso vai voltar a se colocar.

BBC News Brasil – Marçal veio de um partido pequeno, sem tempo na TV, repetindo o que já havíamos visto em 2018 com a candidatura de Bolsonaro, que não se aliou a ninguém e mesmo assim venceu…

Singer – Em 2018, o que aconteceu foi que a extrema direita arrastou a direita. O eleitorado de direita foi arrastado para o voto no Bolsonaro. Isso foi uma onda, que se configurou enquanto onda quando ele sofreu o atentado. Até então, as chances do [Geraldo] Alckmin [então candidato à presidência pelo PSDB] eram razoáveis. Bolsonaro estava em uma ligeira queda e o Alckmin numa ligeira ascensão.

Eu não estou atribuindo tudo ao atentado, mas é que essas circunstâncias, por vezes, potencializam tendências. Não foi o que se viu em 2022, quando houve a formação de um bloco político-social novo, em que o bolsonarismo se apresentou como uma alternativa, não foi uma onda.

Onda é quando uma parte do eleitorado é tomada por um impulso de campanha. Tanto é assim que, em 2018, muita gente que fez campanha na periferia relatava que as pessoas diziam: “Eu sei que o Bolsonaro tem esses problemas, mas se ele der errado, a gente tira.” Isso é uma forma de pensar que a pessoa está tomada por um impulso momentâneo. Os estudos eleitorais captam isso.

Já em 2022 foi diferente, foi uma opção mais organizada pelo Bolsonaro, que quase empatou a eleição.

Estamos diante de um outro tipo de cenário, que é: sozinha, a extrema direita não vence. E queria acrescentar um elemento. O Bolsonaro está inelegível. E, estando inelegível, isso cria um grande problema para a extrema direita, porque ele é o candidato da extrema direita.

Bolsonaro é um homem que tem carisma, dialoga com os setores populares no Brasil. Isso não é pouca coisa. Eu diria que o único outro político que tem um diálogo com os setores populares intenso é o presidente Lula.

Agora, ao ser posto de lado, ele se transforma de uma vantagem em um problema. Primeiro porque ele não podendo ser candidato, cria um vácuo. E ele, por razões táticas dele, não quer e não vai deixar esse vácuo ser preenchido facilmente. Então ele está criando, e, a meu ver, vai continuar criando, problemas para que esse vácuo seja preenchido. Isso leva a extrema direita para uma situação difícil em 2026.

André Singer: ‘O PT tem interesses enquanto partido, que não são exatamente iguais aos interesses do presidente, porque o presidente está apoiado numa vastíssima coalizão’

BBC News Brasil – Lula apareceu pouco nas eleições municipais de 2022. Houve uma questão relacionada à saúde, mas é só isso? Ou pode ter sido uma opção política também?

Singer – Eu não sei qual foi a estratégia que ele desenhou especificamente em relação a alguns locais. Mas eu entendi que ele decidiu concentrar o esforço dele em São Paulo. A meu ver, o fez. Os resultados acabaram não sendo os esperados, porque ele não conseguiu transferir a base de [quem tem] até dois salários mínimos de renda familiar mensal para o [Guilherme] Boulos [candidato do PSOL na chapa com o PT], que acabou ficando mais com o Ricardo Nunes. Em outros locais, ele tomou uma decisão que é a seguinte: em locais em que havia disputa dentro da base do governo, ele preferiu ficar afastado. Por razões que, do ponto de vista do presidente, são compreensíveis.

É preciso fazer uma distinção. Os interesses do presidente e do PT não são idênticos. O PT tem interesses enquanto partido, que não são exatamente iguais aos interesses do presidente, porque o presidente está apoiado numa vastíssima coalizão. E ele está, a meu ver, olhando para 2026 com uma análise de que se ele não levar essa coalizão para 2026, ele pode ter dificuldade.

BBC News Brasil – Mas existe uma certa resistência da ala mais à esquerda do PT de se aliar a partidos do centrão.

Singer – Você tem que distinguir duas coisas. Uma, é a frente democrática para derrotar uma opção autoritária. Eu acho que isso ninguém questionou dentro do PT. A outra coisa é, vamos dizer, uma frente mais orgânica que envolva uma mudança de posição do próprio partido.

Aqui eu acho importante recolocar as coisas numa perspectiva histórica. O PT é um partido que tem o socialismo no seu programa. Se o PT continua sendo efetivamente socialista, é uma discussão. Mas isso está no programa e na origem do PT, um partido de esquerda no seu programa. O que está em debate, e não é um debate significativo, é uma eventual mudança da identidade do PT.

Uma coisa é um partido de esquerda entender que é preciso fazer uma frente tática para derrotar um inimigo maior e comum. Isso faz parte da tradição histórica da esquerda. Por isso que eu digo que não vejo nenhuma dificuldade dentro do PT em relação a isso. O que há divergência é sobre a mudança da identidade do PT. O que eu chamaria aqui de uma aliança mais orgânica com o centro e até mesmo com o campo da direita. Tem partidos de direita, como, por exemplo, o Republicanos e o PP, que estão no governo.

BBC News Brasil – O PT vai passar por eleições em julho para definir seu novo presidente. Até o momento, Edinho Silva, ex-prefeito de Araraquara, está sendo ventilado como o favorito de Lula para assumir o posto de Gleisi Hoffmann. Isso pode mudar os rumos do partido em 2026?

Singer – Eu não gostaria de me referir a nomes nesse momento, mas acho que talvez possa haver uma alteração. Não é muito claro, porque acho que as candidaturas não foram ainda apresentadas com clareza. Mas eu percebo dentro do partido um debate por vezes subliminar que vai nessa direção, de em que medida o partido deveria fazer um deslocamento mais ao centro com vistas, digamos, a ter supostamente maior sucesso eleitoral.

Pode ser que essa sucessão partidária coincida com um debate que acabe tendo algum resultado maior. Mas não dá para afirmar isso antes de entender como essa competição vai realmente se estruturar.

“O PT tem todas as condições de continuar sendo um partido muito importante no Brasil”, mesmo após a morte de Lula, afirma Singer.

BBC News Brasil – E como o partido está formando sucessores? O PT tem debatido sucessão?

Singer – O problema da sucessão de um líder carismático é sempre muito difícil. É aquilo que o [Max] Weber chamava de rotinização do carisma. Na verdade, quando isso acontece, você tem uma transição completa, de certa forma.

O Lula é um líder carismático que é excepcional e confirma, aliás, a própria definição conceitual do que é carisma. Qualquer que seja o resultado, ele vai ser difícil nessa sucessão. E não seria de se esperar que houvesse imediatamente um outro líder carismático que pudesse substituir esse líder.

Quando Lula não for mais candidato, vai se formar um vácuo. E como ele vai ser preenchido, eu não sei. O PT, eu tenho a impressão que seria natural que ele tivesse, e imagino que já tenha, uma série de quadros, porque é um partido grande, enraizado regionalmente, tem vários governadores e governadoras, prefeitos e prefeitas com experiência política, capacidade administrativa, visão de mundo.

O problema, e eu diria que acontece sempre que você tem a situação de uma liderança carismática, é a sucessão dessa liderança carismática. Sempre é, de certa forma, traumático.

BBC News Brasil – Existe um risco do PT perder relevância quando Lula morrer?

Singer – É impossível predizer o que aconteceria quando Lula sair da política. O PT tem todas as condições de continuar sendo um partido muito importante no Brasil. Não tem nenhum outro partido com o grau de apoio que o PT tem no Brasil. É claro que há muita rejeição também, mas isso faz parte do jogo, porque um partido da importância do PT também é natural que ele seja muito rejeitado. E o PT é o partido mais sólido que existe hoje no Brasil.

Então, em tese, o PT não deveria perder relevância. Aí a questão talvez seja de pensar não na sucessão do Lula enquanto liderança carismática, mas pensar na direção do partido. Lula também orienta o partido e ele tem uma visão da política. Para dirigir um partido como o PT, precisa ter muita sabedoria no sentido de achar o caminho.

A minha análise da política brasileira é que você tem, fundamentalmente, três grandes campos, que não se confundem com um partido, mas os partidos navegam nesses campos: um campo popular, um campo de classe média e aquilo que eu chamo de partido do interior, que é um conglomerado que, de modo geral, coincide com o centrão.

O PT é o principal partido do campo popular. Em condições democráticas, o campo popular não vai deixar de existir. Ele existe desde que o Brasil se democratizou, em 1945. E vai continuar existindo, se houver democracia.

O grande problema é que as tentativas de golpe, às vezes bem-sucedidas, às vezes malsucedidas, como aconteceu em 2022, são para que o campo popular seja excluído da política.

No Brasil, uma parte das classes dominantes preferiria, às vezes com mais intensidade, às vezes com menos, que não houvesse essa competição eleitoral. Mas, havendo, e o PT sabendo se colocar, acho que não haveria por que ele perder relevância.

5 grandes desafios que China tem pela frente neste ano

2024 foi um ano complicado para a China.

Enquanto seu governo enfrentava problemas econômicos internamente, internacionalmente teve que lidar com as complexidades de sua aliança com a Rússia.

E, embora a China tenha continuado a desempenhar um papel importante na economia global, cinco áreas podem inviabilizar seus planos até 2025.

1. Uma rivalidade renovada com os Estados Unidos

Donald Trump já ameaçou a China e outras nações com tarifas de 60%

A preocupação mais óbvia para Pequim será o ressurgimento de uma política ultra-agressiva dos EUA em relação à China depois que Donald Trump assumir o cargo em janeiro.

Trump já ameaçou a China e outras nações com tarifas de 60%, sugerindo uma continuação da guerra comercial em andamento que ele lançou durante sua presidência anterior.

Um relacionamento mais conflituoso com os EUA representará um grande desafio para a China, mas Pequim não está despreparada, pois aprendeu com a guerra comercial anterior dos EUA.

Isso pode ser observado no fato de empresas chinesas, como a Huawei, terem procurado reduzir sua dependência dos mercados e das tecnologias dos EUA, ao mesmo tempo em que se expandiram para outros campos.

Da mesma forma, a China tem se mostrado mais disposta a usar medidas punitivas contra os EUA, como demonstrado recentemente por sua restrição à exportação de elementos de terras raras (usadas em baterias e conversores catalíticos).

Como resultado, Pequim está mais bem posicionada para travar uma guerra comercial do que em 2017.

2. Guerras tecnológicas globais

A tecnologia tem se tornado um elemento cada vez mais crucial nos planos da China para o futuro

Embora as tarifas, sem dúvida, atraiam a maior parte da atenção, outra batalha pode ser travada em relação ao desenvolvimento tecnológico da China, que representa um desafio notável à supremacia comercial dos EUA.

A tecnologia tem se tornado um elemento cada vez mais crucial nos planos da China, já que Pequim busca aumentar o emprego e a produção nesse setor, em parte por meio do aumento de suas exportações.

Da mesma forma, restringir esse setor se tornou uma prioridade para os EUA, conforme demonstrado por seus esforços para restringir o acesso chinês à tecnologia de semicondutores, uma das principais frentes de batalha.

Além de ser uma competição para obter o domínio das principais tecnologias, é também uma competição para definir os padrões tecnológicos.

Isso é demonstrado pelo que foi chamado de “efeito Pequim”, em que a China pretende estabelecer padrões para a infraestrutura digital, da mesma forma que a União Europeia (UE) fez para o gerenciamento de dados e a privacidade por meio da legislação GDPR (General Data Protection Regulation).

Essa medida poderia dar à China uma liderança estratégica no mundo da tecnologia.

3. Tarifas da UE

A União Europeia impôs restrições à importação de veículos elétricos chineses

A China tem um conflito comercial igualmente complicado com a Europa, que assumiu a forma de uma série de tarifas retaliatórias: Pequim aplicou tarifas de importação sobre o conhaque francês, por exemplo, em resposta às restrições da UE sobre as importações de veículos elétricos chineses para os estados-membros do bloco. Essas tarifas surgem em um momento em que a China começou a fazer incursões em tecnologias que antes eram de domínio exclusivo de outras nações.

Uma guerra comercial com a UE, juntamente com as recentes discussões sobre a expansão do papel da OTAN na Ásia, pode representar uma dor de cabeça para Pequim, especialmente se levar a um maior alinhamento entre Bruxelas e Washington. Mas o antagonismo estabelecido por Trump em relação à UE pode funcionar a favor da China, se isso significar que o bloco europeu está procurando outros parceiros.

4. A aliança com a Rússia

A Rússia tem se tornado cada vez mais vital para a China

Aparentemente, a Rússia tem se tornado cada vez mais vital para a China como fonte de recursos naturais e mercados, enquanto a China é uma importante fonte de apoio econômico para Moscou.

Entretanto, esse apoio afetou negativamente as relações da China com os países europeus, alguns dos quais viram Pequim como um facilitador da guerra da Rússia na Ucrânia.

Da mesma forma, a invasão da Ucrânia pela Rússia e a guerra em andamento podem continuar sendo uma distração útil para Pequim, desviando a atenção dos EUA da China.

O plano de paz proposto por Trump para a guerra da Ucrânia, se for bem-sucedido, poderá permitir que os EUA voltem a se concentrar na China. A resolução desse conflito poderia até mesmo proporcionar um caminho para a reaproximação entre Washington e Moscou, o que funcionaria contra Pequim.

5. Conflitos no Oriente Médio

A instabilidade no Oriente Médio pode afetar os interesses da China

Uma fonte emergente de preocupação para a China é a grave instabilidade no Oriente Médio.

Assim como no caso da Rússia, a região se tornou uma fonte importante de recursos e mercados para Pequim, conforme demonstrado pelo evento aéreo de Zhuhai, em que as nações da região foram os principais clientes das armas chinesas.

Outra preocupação de Pequim tem sido a possibilidade de um conflito regional entre Irã e Israel, sendo o primeiro uma importante fonte de petróleo para a China.

Em caso de conflito armado, esses suprimentos podem ser interrompidos, se não forem completamente cortados, criando mais problemas econômicos para Pequim.

A retomada da guerra civil na Síria também destacou uma área de preocupação para o presidente Xi Jinping.

Os uigures chineses (um grupo étnico majoritariamente muçulmano) estiveram envolvidos nas forças que derrubaram o presidente Bashar al-Assad, especialmente como parte do Partido Islâmico do Turquestão (TIP).

Alguns membros do TIP ameaçaram usar armas adquiridas na Síria na prolongada batalha por um estado independente na região chinesa de Xinjiang, onde os uigures estão baseados.

Nos últimos anos, as forças de Xi detiveram cerca de um milhão de uigures, colocaram-nos em campos de detenção e adotaram uma política de reeducação e vigilância intensiva que atraiu críticas internacionais por suas táticas e autoritarismo.

Embora todos esses fatores sugiram que a China enfrenta um difícil 2025, também há sinais de que Pequim está se preparando para mitigá-los. Em particular, a China estudará o regime de sanções implementado pelo Ocidente contra a Rússia, que provavelmente seria usado contra a China no caso de um conflito sobre Taiwan.

Em última análise, o que acontecer em 2025 será crucial para Pequim decidir se precisa fazer novos aliados, desenvolver novos mercados e criar novos pontos fortes econômicos em tecnologia.

*Tom Harper é professor de Relações Internacionais da University of East London.

*Este artigo foi publicado no site The Conversation e é reproduzido sob a licença Creative Commons. Clique aqui para ler a versão original.

É possível viajar sem estourar o orçamento mesmo com o dólar em alta

É possível viajar sem estourar o orçamento mesmo com o dólar em alta (Com um planejamento financeiro bem elaborado e algumas estratégias inteligentes, é possível minimizar os impactos das oscilações cambiais e aproveitar ao máximo a experiência de viagem. (Foto: rjp85/Getty Images Signature))

Viajar para o exterior é um sonho para muitos brasileiros, mas a alta constante do dólar nos últimos anos tem tornado essa realidade mais desafiadora. Para quem já tem uma viagem marcada, as preocupações aumentam, já que os custos no destino — como hospedagem, alimentação e passeios — podem pesar ainda mais no orçamento. A boa notícia é que, com um planejamento financeiro bem elaborado e algumas estratégias inteligentes, é possível minimizar os impactos das oscilações cambiais e aproveitar ao máximo a experiência de viagem. Nesta análise, você encontrará orientações práticas para enfrentar a alta do dólar, manter o controle sobre os gastos e transformar sua viagem em uma experiência inesquecível que se ajusta ao seu orçamento.

LEIA TAMBÉM: Navegando com precisão: a importância de medir o desempenho em projetos

A alta do dólar e seus fatores

A valorização do dólar em relação ao real reflete um cenário menos favorável para a moeda brasileira devido a questões que estão ocorrendo tanto no Brasil quanto no exterior. Fatores como as incertezas fiscais internas e expectativas sobre a nova gestão nos Estados Unidos têm gerado instabilidade nos mercados, aumentando a percepção de risco entre investidores e contribuindo para a alta da moeda americana.

Historicamente, o dólar tem demonstrado uma trajetória de alta em relação ao real. A taxa de câmbio nominal, que representa o valor de uma moeda em relação a outra sem considerar os efeitos da inflação, é um dado que pode ilustrar essa dinâmica. Por exemplo, de acordo com dados do Banco Central, a taxa de câmbio nominal era de R$ 1,86 em dezembro de 2011 e alcançou R$ 6,18 em dezembro de 2024. Essa elevação evidencia a valorização do dólar frente ao real ao longo dos anos.

No entanto, com algumas estratégias práticas, é possível contornar esses desafios e aliviar o impacto no bolso. A seguir, você encontrará dicas essenciais para driblar a alta do dólar e aproveitar sua experiência internacional sem comprometer o orçamento.

Estratégias para mitigar o impacto da alta do dólar

Para quem já está com a viagem marcada ou pretende viajar em breve, há diversas estratégias para mitigar os efeitos da desvalorização da nossa moeda no orçamento da viagem. Confira a seguir as 6 dicas práticas para driblar a alta do dólar:

O primeiro passo para organizar sua viagem internacional, especialmente em tempos de alta do dólar, é revisar cuidadosamente o orçamento.

LEIA TAMBÉM: Prefeitura de Socorro garante que caso de febre amarela no município não afeta o turismo

Separe suas despesas em categorias, como transporte, hospedagem, alimentação, passeios e compras. Identifique as prioridades e elimine ou substitua gastos que não são essenciais. Por exemplo, você pode optar por passeios gratuitos ou com descontos e explorar restaurantes menos turísticos, que oferecem boa comida a preços mais acessíveis.

Além disso, avalie quanto você pode gastar na viagem. Estime os custos diários no destino, incluindo transporte, alimentação, passeios e compras. Esse cuidado ajuda a evitar surpresas e mantém o controle financeiro.

Antecipar gastos pode ser outra estratégia inteligente. Comprar ingressos para atrações e reservar serviços com antecedência protege contra futuras oscilações cambiais e facilita o planejamento financeiro.

Utilizar ferramentas como planilhas é essencial para manter o controle sobre suas despesas e garantir que o planejamento esteja alinhado com seus objetivos.

A escolha da melhor forma de pagamento depende de diversos fatores, incluindo o destino, o perfil do viajante e o orçamento disponível. A seguir, analisamos os prós e contras das 4 principais opções disponíveis:

Dinheiro em espécie: É uma das opções mais acessíveis e práticas para pequenos gastos diários, como transporte, alimentação e lembranças. Ele possui a vantagem de um IOF reduzido (1,1% atualmente), sendo a modalidade com a menor tributação na conversão de moeda. Porém, é necessário cautela devido ao risco de perda ou roubo. Para evitar problemas, leve apenas o necessário para despesas menores e distribua o valor em diferentes locais na bagagem e na carteira, respeitando as regras de transporte de valores do país.

Cartão pré-pago: É uma excelente ferramenta para quem deseja maior previsibilidade nos gastos, pois permite travar a cotação do dólar no momento da recarga. Além disso, é mais seguro que o dinheiro em espécie, já que pode ser bloqueado em caso de perda ou roubo. Contudo, é fundamental estar atento às taxas de recarga e saques, que podem variar conforme a instituição emissora, além do IOF de 4,38% vigente atualmente o que significa que uma compra de R$ 100 geraria uma taxa de R$ 4,38.

Cartão de crédito: Oferece praticidade e segurança, sendo indispensável para emergências ou compras pontuais durante a viagem. Entretanto, apresenta um IOF de 4,38% e o câmbio aplicado é o da data de processamento da compra, o que pode gerar valores inesperados devido às oscilações da moeda. Por isso, seu uso deve ser moderado. Alguns cartões oferecem benefícios como seguro-viagem e programas de recompensas, que podem agregar valor ao planejamento.

LEIA TAMBÉM: Ecoturismo passa a ser visto como uma ferramenta para o combate às crises climáticas

Conta global: Essa modalidade tem se destacado como uma alternativa prática e econômica para lidar com a alta do dólar. Trata-se de contas correntes que podem ser abertas ainda no Brasil. Geralmente, o processo é simples, pode ser realizado pelo celular e, dependendo da instituição escolhida, é gratuito.

Com um IOF reduzido (1,1%) nas transferências, as contas globais permitem converter reais para dólares ou outras moedas com taxas mais competitivas. Além disso, possibilitam realizar conversões de forma gradual, o que ajuda a suavizar os impactos das flutuações cambiais. O saldo em moeda estrangeira pode ser acessado por meio de um cartão vinculado à conta, sendo ideal para compras e saques no exterior.

Antes de optar por essa modalidade, é importante verificar as tarifas de manutenção ou transferência cobradas pela instituição para garantir que seja uma escolha realmente vantajosa.

Entre os 4 meios de pagamento, o cartão pré-pago oferece maior controle financeiro ao travar a cotação no momento da recarga, enquanto o cartão de crédito é mais adequado para emergências ou compras pontuais, devido à sua praticidade, apesar da incerteza cambial. O dinheiro em espécie e contas globais têm a vantagem de garantir o câmbio no momento da compra, ao contrário do cartão de crédito, que depende da cotação no dia do processamento, adicionando incertezas.

Além disso, a troca em casas de câmbio reduz o IOF para 1,1%, representando uma economia em relação à alíquota de 4,38% aplicada aos cartões. Com o dólar em patamar elevado, adotar essa estratégia ajuda a equilibrar o orçamento durante a viagem.

A melhor abordagem é diversificar: leve uma pequena quantia em espécie para gastos menores, utilize o cartão pré-pago para despesas principais e mantenha o cartão de crédito como opção para imprevistos.

Agora vamos a uma dúvida comum entre os viajantes: é uma boa ideia comprar dólar mesmo em tempos de alta? Sim, a compra de moeda deve ser feita de forma gradual, aproveitando dias de cotações mais favoráveis. Essa estratégia ajuda a diluir o impacto das flutuações cambiais, construindo um preço médio mais vantajoso e reduzindo a exposição a picos de alta.

LEIA TAMBÉM: Atividade turística no Brasil cresce quase 10%, impulsionada pela alta no transporte de passageiros

Aqui está uma simulação que ilustra a compra mensal de 200 dólares entre dezembro de 2023 e dezembro de 2024. A simulação também calcula o preço médio ao longo do período, demonstrando os benefícios da disciplina nas compras mensais.

Para a simulação, consideramos os seguintes pontos:

– Compra mensal fixa de 200 dólares.

– Cotações simuladas baseadas na cotação do dólar em cada um dos períodos.

– Cálculo do preço médio acumulado ao longo do tempo.

Mês Cotação do Dólar (R$) Valor Pago (R$) Acumulado em US$ Acumulado em R$ Preço Médio (R$/US$)

Dez/2023 5.30 1,060.00 200 1,060.00 5.30

Jan/2024 5.35 1,070.00 400 2,130.00 5.33

Fev/2024 5.40 1,080.00 600 3,210.00 5.35

Mar/2024 5.50 1,100.00 800 4,310.00 5.39

Abr/2024 5.60 1,120.00 1,000 5,430.00 5.43

Mai/2024 5.55 1,110.00 1,200 6,540.00 5.45

Jun/2024 5.70 1,140.00 1,400 7,680.00 5.49

Jul/2024 5.65 1,130.00 1,600 8,810.00 5.51

Ago/2024 5.80 1,160.00 1,800 9,970.00 5.54

Set/2024 5.75 1,150.00 2,000 11,120.00 5.56

Out/2024 6.00 1,200.00 2,200 12,320.00 5.60

Nov/2024 6.10 1,220.00 2,400 13,540.00 5.65

Dez/2024 6.20 1,240.00 2,600 14,780.00 5.68

Resultado da simulação:

– Total em dólares acumulado: 2.600 dólares.

– Total pago em reais: R$ 14.780,00.

– Preço médio final: R$ 5,68 por dólar.

Nessa simulação, conclui-se que o preço médio do dólar foi menor do que as cotações mais altas registradas no final do período. Isso ocorre porque o investidor aproveitou os meses iniciais, quando as cotações estavam mais baixas, diluindo o impacto das altas posteriores.

Dessa forma, a compra gradual de moeda estrangeira ao longo do tempo é uma estratégia eficaz para suavizar as oscilações do câmbio e evitar picos desfavoráveis, proporcionando maior controle sobre os custos. Além disso, essa abordagem protege o investidor de que sua viagem se torne inviável em caso de uma alta do dólar nas vésperas da viagem.

Investir o valor destinado à viagem em aplicações seguras e rentáveis é uma estratégia eficiente para proteger seu orçamento e maximizar seus recursos. O rendimento obtido pode ser usado para cobrir gastos imprevistos, como uma alta inesperada no dólar, despesas médicas ou até mesmo para complementar despesas com passeios, compras ou melhorias na hospedagem.

O Tesouro Selic, por exemplo, é uma opção de investimento em renda fixa considerada de baixo risco, ideal para objetivos de curto prazo. Ele oferece liquidez diária e acompanha a taxa básica de juros da economia (a Selic). De acordo com a projeção dos nossos especialistas, a Taxa Selic, atualmente em 12,25%, deve continuar oferecendo uma rentabilidade atrativa para quem investe em produtos atrelados a ela, com expectativa de alcançar 15,5% em 2025.

LEIA TAMBÉM: Aproveite o aniversário de São Paulo para conhecer destinos próximos a capital

Para ilustrar, ao investir R$ 10.000,00 a uma taxa de 12,25% ao ano, equivalente a atual taxa Selic, o montante acumulado ao final de 12 meses seria de aproximadamente R$ 11.000,00 líquidos, ou seja, já considerando o desconto de impostos.

Essa rentabilidade representa quase 1% ao mês, um percentual muito atrativo quando pensamos em taxas de retorno de investimentos, ainda mais se levarmos em consideração que, investimentos da categoria renda fixa tem, por característica, menor risco, o que pode equilibrar os impactos da alta do dólar, proporcionando maior tranquilidade financeira e flexibilidade para sua viagem.

Por fim, com um planejamento financeiro cuidadoso e estratégias bem definidas, é possível minimizar os efeitos de um câmbio desfavorável e aproveitar a viagem internacional sem comprometer o orçamento. Adotar a estratégia de compra gradual de dólar, que permite construir um preço médio mais vantajoso, é uma excelente forma de suavizar as oscilações cambiais e reduzir os impactos financeiros.

Além disso, a diversificação dos meios de pagamento, o investimento em opções seguras e um orçamento bem ajustado oferecem a segurança necessária para transformar o sonho de viajar em realidade, com tranquilidade para aproveitar cada momento ao máximo.

Siga o @portaluaiturismo no Instagram e no TikTok @uai.turismo

Preço do aluguel residencial em Teresina sobe para quase o dobro da inflação; veja bairros mais caros e mais baratos

O preço dos aluguéis residenciais em Teresina subiu, em média, 8,47% em 2024, conforme dados do Índice FipeZAP divulgados nesta terça-feira (14). O aumento é quase o dobro da inflação oficial do país, que foi de 4,83% no mesmo período. Apesar disso, a capital, entre as cidades monitoradas, é a que tem o menor preço de locação do país (veja os bairros mais caros e mais baratos abaixo).

Isso porque a média de preço dos aluguéis residenciais em Teresina ainda é menor que a média nacional de 13,50%, calculada pelo Índice FipeZAP com base nos preços de locação de apartamentos prontos em 36 cidades brasileiras.

O levantamento revelou que, no geral, os novos contratos de aluguel ficaram 13,50% mais caros em 2024. Isso representa uma desaceleração em relação ao crescimento de 16,16% registrado em 2023.

A média nacional do preço de locação foi de R$ 48,12/m² em dezembro, o que significa que o aluguel de um apartamento de 50 m², por exemplo, custa, em média, R$ 2.406, um aumento de R$ 279,50 em relação ao ano anterior (R$ 2.126,50).

Menor preço de locação do país

Em Teresina, o preço médio dos novos contratos de aluguel foi de R$ 22,49/m², quase a metade da média nacional. Esse custo coloca a capital piauiense entre as cidades com os menores preços de locação do país.

O bairro com o aluguel mais caro na capital é o Jóquei, na Zona Leste, em que o preço pode chegar a R$ 32,8/m², seguido do Cristo Rei (R$ 27,5/m²) e São Cristóvão (R$ 27,0 /m²).

Entre os bairros mais baratos estão o Centro (R$ 15,7/m²), bairro Pedra Mole (R$ 16,8 /m²) e Morada do Sol (R$ 18,1 /m²).

Menor aumento no valor dos imóveis

Além dos aluguéis, Teresina também registrou o menor aumento no valor de imóveis residenciais em 2024, com um crescimento de apenas 2,80%, conforme o mesmo levantamento.

O preço médio de venda de imóveis residenciais em Teresina foi de R$ 5.628/m² em dezembro de 2024. Bairros como São Cristóvão, Jóquei, Fátima, Horto, Noivos, Ininga, São João, Uruguai, Planalto e Santa Isabel foram os mais representativos no cálculo do Índice FipeZAP para a capital.

*Estagiária sob supervisão de Lucas Marreiros.

📲 Confira as últimas notícias do g1 Piauí

📲 Acompanhe o g1 Piauí no Facebook e no Instagram e no X

Dólar e petróleo pressionam gasolina: Petrobras evita aumento, mas preço vai subir por outro motivo. Entenda

Este ano começa com diversas pressões em torno da Petrobras e dos preços dos combustíveis. Com o avanço do dólar e, mais recentemente, do preço do barril de petróleo no mercado internacional, a defasagem da gasolina e do diesel vendidos pela estatal atingiu o maior patamar desde julho do ano passado — de 13% e 22%, respectivamente, esta semana —, o que alimenta a cobrança do mercado por um reajuste nas bombas.

Enquanto a Petrobras não decide sobre um aumento, a partir de 1º de fevereiro o consumidor verá os preços mais altos nos postos, pois a alíquota do ICMS subirá em todo o país. No caso da gasolina, será uma alta de 7,1%, passando de R$ 1,3721 para R$ 1,4700 por litro. Já no diesel, o aumento será de 5,3%, de R$ 1,0635 para R$ 1,1200 por litro.

Isso vai pressionar ainda mais a inflação. Em 2024, a gasolina foi o que mais contribuiu para a alta de 4,83% do IPCA, usado na meta do Banco Central. Além disso, teme-se que os Estados Unidos, no novo governo de Donald Trump, enfrentem inflação e juros maiores, o que valorizaria ainda mais o dólar.

— Temos um aumento no ICMS, que é uma alíquota fixa por litro e igual para todo o país. Esse aumento vai direto para as bombas e será sentido por todos. Ao mesmo tempo, temos um aumento no dólar e no preço do petróleo, gerando mais tensão para os preços — explica o consultor de preços Dietmar Schupp.

De acordo com dados da Abicom, associação que reúne importadores de combustíveis no país, os preços praticados pela Petrobras atingiram o maior patamar de defasagem desde meados do ano passado. A diferença da gasolina chegou, nesta semana, a 13% — desde o início deste ano, o preço da estatal está ao menos 10% abaixo do mercado internacional.

No diesel, o preço praticado pela estatal está 22% abaixo do mercado externo — desde 11 de dezembro, essa diferença tem variado entre 10% e 18%.

— É necessário um reajuste, sim. Há uma defasagem muito elevada, o que inibe a atuação dos importadores. Está na hora de anunciar um reajuste. Desde o final de novembro, com a desvalorização do real, as diferenças aumentaram bastante por conta do câmbio. Já o preço do petróleo é uma incógnita, mas a cotação não deve cair e deve se manter nessa faixa. Ou seja, a defasagem não deve ser reduzida — afirma Sergio Araujo, presidente da Abicom.

Sem reajuste no radar

Por outro lado, diversas fontes na Petrobras afirmam que ainda não haverá aumento nos preços. Uma das fontes ouvidas pelo GLOBO destacou que a companhia “segue monitorando tendências” e mencionou o dólar, que atingiu R$ 6,26 em 18 de dezembro, mas ontem encerrou a R$ 6,09.

No caso do petróleo, embora o barril do tipo Brent tenha fechado ontem a US$ 81,01, a avaliação é que é preciso esperar mais um pouco, a fim de verificar se esse movimento reflete apenas “volatilidade ou um novo patamar”.

A última vez em que a Petrobras reajustou o preço da gasolina nas refinarias foi em 9 de julho do ano passado, de R$ 2,81 para R$ 3,01. Já a última alteração do diesel tem ainda mais tempo: foi em 27 de dezembro de 2023, quando caiu de R$ 3,78 para R$ 3,48 — o último aumento foi em outubro de 2023.

Para outra fonte do setor, a Petrobras está se aproximando de um momento em que, a depender da combinação do aumento da cotação do petróleo e da alta do dólar, ficará difícil justificar ao mercado a manutenção dos preços atuais.

Dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP) apontam que, nas duas últimas semanas, o preço médio da gasolina no Brasil caiu de R$ 6,15 para R$ 6,14. Movimento semelhante ocorreu com o diesel, cujo valor na bomba passou de R$ 6,06 para R$ 6,03 entre as semanas de 29 de dezembro e 5 de janeiro.

Segundo uma fonte na estatal, o cenário atual não indica qualquer tipo de alerta para aumento de preços. “Ainda não há discussão sobre reajuste, embora os preços estejam defasados”, admite outra fonte na companhia. A expectativa de especialistas é que o dólar e o petróleo continuem voláteis nas próximas semanas.

Trump, inverno e China

Um especialista lembra que, atualmente, há vários fatores que podem pressionar os preços dos combustíveis. Ele explica que o novo governo de Donald Trump nos EUA, a recuperação econômica da China e um inverno mais rigoroso no Hemisfério Norte são elementos que, combinados, “indicam que o preço do petróleo dificilmente cairá nas próximas semanas.”

Se Trump já prometeu liberar a exploração de petróleo em áreas hoje restritas, o que levaria ao aumento da produção e à queda na cotação do barril, por outro a adoção de sobretaxas, como ele vem ameaçando, tende a elevar a inflação e, consequentemente, valorizar o dólar. Ou seja, mais um fator de pressão sobre os preços dos combustíveis.

De acordo com o especialista, essa combinação de fatores torna necessário um reajuste por parte da Petrobras, sob o risco de afetar os resultados para os acionistas. “Politicamente, é uma decisão difícil, mas inevitável”, afirma ele.

Em meados de 2023, a Petrobras encerrou a política de paridade de importação (PPI). A estatal deixou de considerar apenas a cotação do dólar e do petróleo como parâmetros para o reajuste de seus preços, passando a incluir na fórmula fatores como volume da produção nacional, custos logísticos e participação de mercado.

A preocupação de parte do mercado é que a importação responde por 20% a 30% do consumo, conforme a época do ano. Com a Petrobras segurando os preços, a importação do diesel está muito reduzida, dizem executivos do setor. Mas, como neste período a demanda por diesel é menor, o tema não é visto como sensível pela estatal.