Entre o pedestal e o purgatório: ministros se dividem entre defesa e crítica a Haddad junto a Lula

Em meio à queda de popularidade do governo, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tem sido alvo de críticas que são levadas diretamente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva por colegas de Esplanada.

Como resposta, um grupo de ministros se uniu para contra-atacar e tentar fortalecer o titular da pasta responsável pelos rumos da economia do país. E integrantes do governo afirmam que Lula tem consciência de que Haddad é praticamente insubstituível na Fazenda.

As queixas vêm do chefe da Casa Civil, Rui Costa, e de aliados dele, que veem em medidas da Fazenda algumas das maiores crises vividas pelo governo. Procuradas, as pastas da Fazenda e da Casa Civil não comentaram.

O grupo de ministros que tem atuado para fortalecer Haddad dentro do governo é composto, em sua maioria, por representantes de partidos de centro. A ideia é dar impulso à bandeira da responsabilidade fiscal, defendida pelo titular da Fazenda.

Apoio do setor produtivo

Esse grupo decidiu se unir no fim do ano passado. Um dos que assumiu a missão foi o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, filiado ao partido de Gilberto Kassab, o PSD. O cacique político chegou a chamar Haddad de “fraco” em janeiro — Lula respondeu elogiando o ministro da Fazenda e dizendo que Kassab havia sido injusto.

Também faz parte desse grupo o titular da pasta de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, do Republicanos — legenda do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, apontado como possível adversário de Lula em 2026.

A lista conta ainda com os ministros dos Transportes, Renan Filho, do MDB; da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias; e Alexandre Padilha, que está saindo da pasta de Relações Institucionais para assumir a Saúde.

Padilha é filiado ao PT, e Messias tem vínculos com a legenda, apesar de não ser filiado. Parte da equipe pró-Haddad mantém contato, no dia a dia de suas pastas, com empresários e com o mercado financeiro.

Segundo um dos integrantes do grupo, os ministros têm procurado aproveitar os despachos com Lula para relatar o apoio que Haddad tem no setor produtivo. Pontuam que ações como o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e o Minha Casa, Minha Vida não terão sucesso se o ministro da Fazenda não estiver fortalecido para garantir a estabilidade econômica.

A ala crítica a Haddad, que conta ainda com o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, vincula a queda de popularidade do governo a duas iniciativas do Ministério da Fazenda: a “taxa das blusinhas”, que prevê a aplicação do Imposto de Importação de 20% nas compras de até US$ 50 feitas em plataformas on-line; e a crise a partir do monitoramento de transações financeiras, como o Pix, pela Receita Federal.

Esses cenários foram levados a Lula em uma reunião sem a presença de Haddad na semana passada. Naquela mesma semana, em entrevista ao site Metrópoles, Rui Costa foi questionado se as medidas da Fazenda impactaram a popularidade do governo. Ele respondeu:

— As pesquisas públicas que todos conhecem, que a imprensa divulgou, sinalizam a questão da taxa daqueles aplicativos das plataformas de venda (“a taxa das blusinhas”). A questão da fake news do Pix afetou fortemente. Criou um ambiente de desconfiança.

Na defensiva

No dia a dia, o ministro Fernando Haddad tem alertado o presidente sobre as possíveis consequências quando suas opiniões não são seguidas. Foi o que aconteceu na época do anúncio do pacote fiscal em novembro.

Além de defender um leque mais amplo de medidas, o ministro da Fazenda não queria que os cortes de despesas fossem anunciados junto com a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, como determinou Lula.

‘Grata surpresa’

Em janeiro, Haddad sofreu uma derrota em uma disputa com um novo integrante do governo. Poucos dias depois de assumir o comando da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira convenceu Lula a editar uma MP para revogar a norma da Receita Federal que havia instituído a fiscalização de transações via Pix. Haddad era contra o recuo.

O último ponto de críticas a Haddad no governo foi por causa da suspensão de operações do Plano Safra, na semana passada, já resolvida por medida provisória (MP). Integrantes do Palácio do Planalto avaliam que o episódio evidenciou mais uma falha de comunicação do Ministério da Fazenda.

Mas não é só no governo que Haddad tem aliados. Em entrevista ao GLOBO após assumir como presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB) classificou o ministro da Fazenda de “grata surpresa”:

— A agenda que ele defende é positiva, mas muitas vezes ele fica vencido na decisão política tomada pelos ministros que estão no Palácio e, claro, pelo presidente da República.

Confiança de empresários da indústria tem leve recuperação em fevereiro

Após um fim de ano turbulento no cenário econômico, com a inflação subindo acima das expectativas e dólar se valorizando, a percepção dos empresários da indústria voltou a subir em alguns segmentos em fevereiro. A distensão provocada pelo adiamento da imposição de algumas tarifas por parte dos Estados Unidos, além do cenário interno menos conturbado, são alguns dos fatores que contribuem para a retomada desse ritmo.

De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), em 10 dos 29 segmentos da indústria analisados pela entidade registraram nível de confiança positivo no mês, enquanto que os outros 18 setores seguem pessimistas. Os dados constam do Índice de Confiança do Empresário Industrial (Icei) Setorial de fevereiro e a pontuação varia entre 0 a 100 pontos, sendo 50 o nível considerado neutro.

Na comparação com o mês anterior, o número de segmentos com percepção otimista sobre o cenário atual aumentou o dobro – de 5 a 10 setores. Para a especialista em Políticas e Indústria da CNI, Cláudia Perdigão, a pesquisa mostra uma recuperação disseminada da confiança industrial.

“Contudo, ainda existe, na percepção do empresário, um cenário de dificuldade. A maior parte dos setores continua abaixo da linha dos 50 pontos, sinalizando que há sinais de receio em relação ao ambiente econômico”, avalia a especialista.

Os setores que passaram de um nível de pessimismo para confiança em fevereiro foram couros e artefatos de couro, calçados e suas partes, impressão e reprodução, biocombustíveis, produtos químicos, veículos automotores e manutenção e reparação.

Ainda de acordo com a pesquisa, o índice de confiança se recuperou entre as empresas de todos os portes. No caso dos empresários de grandes empresas, o nível passou de um estado de neutralidade, em janeiro, para um estado de confiança, em fevereiro. Apesar disso, as pequenas e médias empresas continuam abaixo de 50 pontos, o que indica que ainda há falta de confiança.

“A alta da confiança das grandes empresas pode provocar um efeito positivo no sistema econômico, porque elas têm capacidade de estimular as cadeias produtivas por meio da compra de insumos e na movimentação do investimento, beneficiando as pequenas e médias indústrias”, acrescenta Perdigão.

O Icei também registrou avanço em todas as regiões do país. A maior recuperação ocorreu entre as indústrias do Norte, onde o índice cresceu 1,5 ponto. Na sequência, vêm as empresas do Centro-Oeste (1,2 ponto) e do Nordeste (0,8 ponto). A confiança também aumentou nas fábricas do Sul e do Sudeste, embora de forma mais moderada: 0,6 e 0,2 ponto, respectivamente.

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“O movimento foi suficiente para que as indústrias do Norte e do Centro-Oeste saíssem de um estado de pessimismo para um estado de neutralidade. As empresas do Nordeste continuam confiantes, enquanto as do Sul e do Sudeste seguem sem confiança”, destaca, em nota, a entidade.

Grau de urbanização aumenta no Oeste Paulista e pesquisadores avaliam cenário de transformações econômicas e sociais

O Brasil vivenciou um dos mais intensos e acelerados processos de urbanização do mundo desde 1980, explicou o pesquisador Bruno Leonardo Barcella Silva, doutor em geografia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e em pós-doutorado na Universidade Federal do ABC (UFABC) e . Diante desse cenário, a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade) divulgou um estudo que revela que houve uma redução, como consequência desse fenômeno, de 1,3 milhão de habitantes residindo em área rural no Estado de São Paulo entre os anos de 1980 e 2022, com queda intensificada a partir dos anos 2000. Na Região Administrativa de Presidente Prudente (SP), formada por 53 municípios do Oeste Paulista, o grau de urbanização chegou a 89,5% em 2022, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tabulados por um estudo da Fundação Seade.

Conforme Silva, a região de Presidente Prudente não deixou se estar articulada ao grau de urbanização, uma vez que está situada no Estado de São Paulo, “o principal impulsinador desse processo”.

“Grau de urbanização é o percentual da população residente em áreas urbanas, em determinado espaço geográfico, em determinado ano considerado. Indica a proporção da população total que reside em áreas urbanas, segundo a divisão político-administrativa estabelecida pelas administrações municipais”.

— Paulo Borlina Maia, analista de projetos da Gerência de Demografia da Fundação Seade

Além disso, os dados apresentados no estudo mostram um processo de “certa estabilização” quando comparado aos dados do Censo do IBGE de 2010 e 2022.

O geófrago explicou que demonstram que, em 2010, dois municípios do Oeste Paulista possuíam uma taxa de urbanização acima dos 95%, o estrato superior do mapa, sendo:

Presidente Prudente, com 97,91% da população vivendo na zona urbana, ou seja, já naquele momento acima da taxa média do Estado, e

Já em 2022, Silva detalhou que, o mapa apresentado pela Fundação Seade mostrou que apenas o município de Presidente Prudente continua com mais de 95% da população residindo em áreas urbanas.

Ele também ressaltou que dois pontos podem ser destacados nesta nova análise:

primeiro, “os municípios com grau intermediário passaram de 423 para 402”, embora a concentração continue a se situar no Oeste Paulista, onde está localizada a região de Presidente Prudente; e

segundo, “apenas 46 municípios (7%) apresentaram proporção inferior a 65%”, alguns deles também situados na região de Presidente Prudente, especialmente no Pontal do Paranapanema.

Grau de urbanização de Presidente Prudente 🏙

Segundo Silva, o grau de urbanização é a proporção de pessoas de uma determinada região ou município que vivem em áreas urbanas, ou seja, nas cidades.

Já em relação aos motivos que fazem com que o grau de urbanização tenha se mostrado elevado nos últimos anos, o especialista explicou que esse fenômeno é uma tendência mundial, especialmente em países industrializados e/ou desenvolvidos.

“A idade média da população urbana é menor do que a rural devido ao êxodo rural e à dinâmica demográfica das cidades. A migração de jovens para os centros urbanos, impulsionada pela maior oferta de trabalho e emprego e pela concentração de instituições de ensino, resulta em uma maior presença da população economicamente ativa nas cidades, reduzindo sua média de idade”, pontuou ao g1.

“A idade média da população urbana é menor do que a rural devido ao êxodo rural e à dinâmica demográfica das cidades. A migração de jovens para os centros urbanos, impulsionada pela maior oferta de trabalho e emprego e pela concentração de instituições de ensino, resulta em uma maior presença da população economicamente ativa nas cidades, reduzindo sua média de idade”, pontuou ao g1.

O pós-doutorado ainda contextualizou que, no meio rural, a concentração fundiária dificulta a permanência do pequeno produtor, tornando a sucessão geracional cada vez mais rara.

“Filhos de produtores e trabalhadores rurais, que antes dariam continuidade às atividades familiares, agora migram para as cidades, acentuando o envelhecimento da população rural e influenciando a mudança etária demonstrada na pesquisa. Na região de Presidente Prudente, esse fenômeno não é diferente. Pelo contrário, manifesta-se de forma evidente, com a cidade de Presidente Prudente concentrando a oferta de serviços, educação e saúde, reafirmando sua importância como polo regional”, destacou Silva.

Ao analisar a região de Presidente Prudente, a maior parte dos municípios está no estrato que possui entre 65% e 94,99% de grau de urbanização.

O geógrafo detalhou que, no estudo apresentado pela Fundação Seade, referente ao Censo Demográfico do IBGE de 2010, é registrado que na ocasião, a região de Presidente Prudente apresentava um grau de urbanização de 88,8%, inferior à média estadual de 95,9%.

Nesse período, o município de Caiuá (SP) registrava a menor taxa de urbanização da região, com apenas 38,3% de sua população residindo em áreas urbanas e Presidente Prudente apresentando o maior grau com praticamente 98%.

Ele pontuou que, segundo o último Censo de 2022, os dados indicam que, em 2022, a Região Geográfica Imediata de Presidente Prudente, composta por 28 municípios, possuía uma população total de 833.530 habitantes.

“Observa-se que, entre 2010 e 2022, a população do município de Presidente Prudente cresceu de 207.610 mil para 225.668 mil habitantes, indicando um aumento na urbanização local visto que o aumento dessa população se deu majoritariamente nas áreas urbanas. Embora não disponhamos de dados precisos sobre o grau de urbanização atual da região, é possível inferir que a tendência de crescimento urbano se manteve, acompanhando o aumento populacional e a expansão das áreas urbanizadas nos últimos anos”, afirmou ao g1.

“Na região de Presidente Prudente, a alta taxa de urbanização também está ligada ao crescimento e à importância do próprio município de Presidente Prudente, que concentra os principais serviços e oportunidades na região. Dessa forma, o fenômeno da migração rural-urbana é uma consequência direta da centralização de serviços e da mudança de perfil socioeconômico da região, alinhando-se a uma tendência observada em outras partes do Estado de São Paulo e do país. Esse processo é também reflexo de uma transformação social e econômica, com a crescente valorização das áreas urbanas em detrimento das áreas rurais”.

— Bruno Leonardo Barcella Silva, pesquisador em pós-doutorado na Universidade Federal do ABC (UFABC) e doutor em geografia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp)

Aumento da população urbana x redução da população rural 🌆

De acordo com o analista de projetos da Gerência de Demografia da Fundação Seade, Paulo Borlina Maia, as mudanças demográficas do Estado de São Paulo, no que se refere ao urbano e rural, são devidas a uma série de fatores interligados, tais como:

Industrialização e modernização econômica;

Migração rural-urbana e êxodo do campo;

Concentração de serviços e infraestrutura urbana; e

Políticas públicas e transformações sociais.

“Ou seja, o aumento da população urbana e a diminuição da população rural em São Paulo foram motivados principalmente pela industrialização e modernização econômica, que geraram um forte êxodo rural, aliado à melhoria e concentração de serviços e infraestrutura nas cidades. Esse conjunto de fatores transformou o perfil demográfico do Estado”, detalhou Maia ao g1.

“Ou seja, o aumento da população urbana e a diminuição da população rural em São Paulo foram motivados principalmente pela industrialização e modernização econômica, que geraram um forte êxodo rural, aliado à melhoria e concentração de serviços e infraestrutura nas cidades. Esse conjunto de fatores transformou o perfil demográfico do Estado”, detalhou Maia ao g1.

Pensando nos motivos que resultaram essas mudanças, Silva ressaltou que se trata de um processo histórico que vem se desenhando há décadas de forma ampla no contexto nacional.

“O chamado ‘êxodo rural’ se tornou uma expressão comum nos livros de história e geografia do ensino médio devido a esse processo. No caso da região de Presidente Prudente, essas mudanças refletem processos socioeconômicos e espaciais mais amplos, como a redução da necessidade de mão de obra no campo, resultante da mecanização e das mudanças produtivas”, contextualizou ao g1.

População residente por situação do domicílio urbano e rural na Região Administrativa de Presidente Prudente

Total Urbana Rural Grau de urbanização (%)

Estado de São Paulo 44.411.238 42.997.899 1.413.339 96,8

Região Administrativa de Presidente Prudente 859.711 769.277 90.434 89,5

Município de Presidente Prudente 225.668 220.299 5.369 97,6

Fonte: Fundação Seade

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O geógrafo explicou que a concentração fundiária, característica sintomática da região, torna a permanência do pequeno produtor no campo cada vez mais difícil, e a sucessão geracional é cada vez mais rara.

“Trata-se do movimento em que os filhos dos produtores rurais, que outrora continuariam o ‘negócio’ da família, agora, mudam para a cidade em busca de outras oportunidades, assim como os filhos dos trabalhadores rurais. Esse fenômeno também influencia na mudança etária demonstrada pela pesquisa. Tais fatores estão articulados à capacidade de atração que os centros urbanos possuem em relação às atividades econômicas”, pontuou o pesquisador em pós-doutorado.

“Trata-se do movimento em que os filhos dos produtores rurais, que outrora continuariam o ‘negócio’ da família, agora, mudam para a cidade em busca de outras oportunidades, assim como os filhos dos trabalhadores rurais. Esse fenômeno também influencia na mudança etária demonstrada pela pesquisa. Tais fatores estão articulados à capacidade de atração que os centros urbanos possuem em relação às atividades econômicas”, pontuou o pesquisador em pós-doutorado.

Segundo ele, a urbanização na região de Presidente Prudente reflete tanto a expulsão da população do campo devido à modernização agrícola e à concentração fundiária, quanto a atração exercida pelas cidades, que, em tese, “ofereceriam melhores condições de trabalho, moradia e acesso a serviços”.

“A mecanização agrícola reduziu a necessidade de mão de obra no campo, fazendo com que muitas famílias rurais migrassem para as cidades. Esse fenômeno refletiu tanto a busca por melhores oportunidades econômicas, quanto a escassez de empregos no meio rural. Assim, o êxodo do campo foi uma consequência direta do desenvolvimento industrial e da transformação dos métodos agrícolas”, completou Maia.

Silva também pontuou que esse processo é comum em diversas regiões do interior paulista e do Brasil.

“Presidente Prudente, o principal município da região, possui uma concentração de mais de 75% do PIB [Produto Interno Bruto] no setor de serviços e mais de 13% no setor industrial. Ou seja, 88% do PIB está concentrado em setores típicos do mundo urbano”, completou.

“Presidente Prudente, o principal município da região, possui uma concentração de mais de 75% do PIB [Produto Interno Bruto] no setor de serviços e mais de 13% no setor industrial. Ou seja, 88% do PIB está concentrado em setores típicos do mundo urbano”, completou.

Assim, o pesquisador explicou que a redução da população residente em áreas rurais pode ser explicada por uma série de fatores interligados, que envolvem transformações econômicas, mudanças sociais e demográficas.

Além disso, ele destacou que tal característica reflete diretamente no mercado de trabalho, em que a maior concentração da oferta de empregos está em setores com “atividades típicas do mundo urbano”, como:

comércio varejista,

educação,

saúde, atividades administrativas públicas, e

transporte.

“Portanto, dos vários fatores que podem ser destacados como motivadores da alta taxa de população urbana na região de Presidente Prudente, os fatores socioeconômicos talvez sejam os principais”.

— Bruno Leonardo Barcella Silva, pesquisador em pós-doutorado na Universidade Federal do ABC (UFABC) e doutor em geografia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp)

O pesquisador em pós-doutorado explicou que a mecanização da agricultura diminuiu a necessidade de mão de obra no campo e a concentração fundiária, o que favoreceu grandes propriedades voltadas para o agronegócio e reduziu as oportunidades para pequenos agricultores.

Paralelamente, as cidades se tornaram mais atrativas devido à oferta de empregos na indústria e no setor de serviços, além de melhores condições de vida, infraestrutura, saúde e educação.

“O êxodo rural foi intensificado pelo envelhecimento da população no campo, pela informalidade do trabalho agrícola e por políticas públicas que incentivaram a migração urbana, como programas habitacionais e investimentos em transporte e saneamento. Além disso, a expansão das cidades incorporou antigas áreas rurais, diminuindo a quantidade de território considerado não urbano. Esses fatores combinados explicam a queda expressiva da população rural ao longo das últimas décadas”, detalhou ao g1.

“O êxodo rural foi intensificado pelo envelhecimento da população no campo, pela informalidade do trabalho agrícola e por políticas públicas que incentivaram a migração urbana, como programas habitacionais e investimentos em transporte e saneamento. Além disso, a expansão das cidades incorporou antigas áreas rurais, diminuindo a quantidade de território considerado não urbano. Esses fatores combinados explicam a queda expressiva da população rural ao longo das últimas décadas”, detalhou ao g1.

O pesquisador completou que o movimento de “migração rural-urbana” na região de Presidente Prudente ocorre de maneira articulada a processos macroestruturais e conjunturais que marcam o acelerado e diversificado processo de urbanização que o Brasil passou a experimentar desde o final do século XX, com uma intensificação a partir do início do século XXI.

“O país, que assistiu a um dos maiores processos de urbanização no mundo, se transformou em uma verdadeira máquina de produzir cidades, com um crescimento urbano exponencial e um padrão de urbanização caracterizado por grandes transformações sociais e econômicas. Esse fenômeno resultou em uma urbanidade cada vez mais complexa e diversificada, refletindo as profundas mudanças no perfil da população e nas dinâmicas territoriais, tanto no Estado de São Paulo quanto em diversas outras regiões do Brasil”, pontou.

“O país, que assistiu a um dos maiores processos de urbanização no mundo, se transformou em uma verdadeira máquina de produzir cidades, com um crescimento urbano exponencial e um padrão de urbanização caracterizado por grandes transformações sociais e econômicas. Esse fenômeno resultou em uma urbanidade cada vez mais complexa e diversificada, refletindo as profundas mudanças no perfil da população e nas dinâmicas territoriais, tanto no Estado de São Paulo quanto em diversas outras regiões do Brasil”, pontou.

Números populacionais 👥

Segundo Silva, em 2022, a região de Presidente Prudente alcançou uma população total de 882.764 mil habitantes.

Especificamente, o município de Presidente Prudente registrou 225.668 habitantes nesse mesmo ano, segundo o Censo Demográfico do IBGE.

“É possível inferir que a maioria dos habitantes reside em áreas urbanas, dado o alto grau de urbanização observado. Por exemplo, em 2021, o município de Presidente Prudente apresentava um grau de urbanização de praticamente 98% segundo o índice de efetividade da gestão municipal de 2022 apresentado ao TCE-SP [Tribunal de Contas do Estado de São Paulo], indicando que essa porcentagem da população vivia em áreas urbanas”, explicou o geógrafo e pesquisador ao g1.

“É possível inferir que a maioria dos habitantes reside em áreas urbanas, dado o alto grau de urbanização observado. Por exemplo, em 2021, o município de Presidente Prudente apresentava um grau de urbanização de praticamente 98% segundo o índice de efetividade da gestão municipal de 2022 apresentado ao TCE-SP [Tribunal de Contas do Estado de São Paulo], indicando que essa porcentagem da população vivia em áreas urbanas”, explicou o geógrafo e pesquisador ao g1.

Portanto, considerando a tendência de alta urbanização na região, é razoável estimar que a população urbana na região de Presidente Prudente seja predominantemente superior. Com isso, é possível observar que a maior parte da população reside em áreas urbanas.

Quanto aos números da população rural, Silva acrescentou que é possível observar uma tendência de redução desse contingente ao longo dos anos, como ocorre em muitas outras regiões com alto índice de urbanização, que aponta essa redução como uma tendência para todo o Estado de São Paulo.

Mudança etária 👶

Conforme Maia salientou, as diferenças entre as idades são muito pequenas, sendo apenas de 1 a 3 anos. Contudo, algumas hipóteses podem ser levantadas para esta diferença.

“Jovens migram para as cidades em busca de melhores oportunidades de emprego, educação e lazer, enquanto o meio rural fica com uma população com idades mais elevadas. Por outro lado, a concentração de atividades econômicas e a modernização dos centros urbanos tornam as cidades mais atrativas para a população ativa, contribuindo para uma menor idade média nessas áreas”, destacou ao g1.

“Jovens migram para as cidades em busca de melhores oportunidades de emprego, educação e lazer, enquanto o meio rural fica com uma população com idades mais elevadas. Por outro lado, a concentração de atividades econômicas e a modernização dos centros urbanos tornam as cidades mais atrativas para a população ativa, contribuindo para uma menor idade média nessas áreas”, destacou ao g1.

Já Silva explicou que a idade média da população urbana é menor do que a rural devido a fatores relacionados ao êxodo rural e à dinâmica demográfica das cidades.

“A migração de jovens em busca de melhores oportunidades de emprego, educação e qualidade de vida concentra a população economicamente ativa nos centros urbanos, reduzindo sua média de idade. Enquanto isso, no meio rural, a saída dos mais jovens e a permanência de uma população mais velha elevaram a idade média”, pontuou o pesquisador.

“A migração de jovens em busca de melhores oportunidades de emprego, educação e qualidade de vida concentra a população economicamente ativa nos centros urbanos, reduzindo sua média de idade. Enquanto isso, no meio rural, a saída dos mais jovens e a permanência de uma população mais velha elevaram a idade média”, pontuou o pesquisador.

Além disso, ele salientou que áreas urbanas, geralmente, apresentam maiores taxas de natalidade e melhor acesso a serviços de saúde, contribuindo para uma estrutura etária mais equilibrada em comparação ao envelhecimento acelerado da população rural.

“Tais explicações ajudam a explicar o cenário exposto no estudo da Fundação Seade que demonstra que entre 2010 e 2022, a idade média dos moradores da zona rural aumentou em 6 anos, passando de 32,9 para 38,9 anos. Já na área urbana, esse crescimento foi de 4 anos, subindo de 33,5 para 37,6 anos. Em 2010, a população rural era, em média, cerca de seis meses mais jovem do que a urbana. No entanto, essa situação se inverteu em 2022, quando os moradores do campo passaram a ser, em média, um ano mais velhos que os das cidades”, destacou Silva ao g1.

Tendências futuras 📈

Segundo Maia, o aumento da população urbana e a redução da população rural podem resultar em desafios como sobrecarga de infraestrutura nas cidades, crescimento de habitações irregulares, desemprego e desigualdades sociais.

No campo, ocorre diminuição da mão de obra, afetando a produção agrícola e levando ao despovoamento de áreas rurais.

“Essas mudanças exigem políticas públicas adequadas para promover um desenvolvimento equilibrado entre áreas urbanas e rurais”, pontuou o analista de projetos.

“Essas mudanças exigem políticas públicas adequadas para promover um desenvolvimento equilibrado entre áreas urbanas e rurais”, pontuou o analista de projetos.

Silva explicou que as tendências para os próximos anos, em relação ao processo de urbanização na região de Presidente Prudente e no Brasil, como um todo, podem ser entendidas à luz de vários fatores sociais, econômicos e ambientais, dentre eles podemos elencar algumas possíveis tendências, como:

Crescimento da população urbana: a tendência de aumento da população urbana, observada de forma geral no Brasil, não se reflete de maneira proporcional na Região de Presidente Prudente, como já foi possível observar entre 2010 e 2022 em que foi constatada uma certa “estabilização”. Porém, é possível que observemos uma crescente concentração de serviços, comércio e emprego nas áreas urbanas mais dinâmicas como a cidade de Presidente Prudente, é esperado que a maior parte da população continue a migrar das áreas rurais para os centros urbanos. Mesmo com uma maior digitalização e a ampliação de trabalhos remotos, a concentração urbana deve permanecer alta, visto que as cidades continuam a se expandir e a diversificação do mercado de trabalho é maior nos centros urbanos;

Crescimento das cidades médias e expansão periurbana: embora as grandes metrópoles concentrem uma maior parte da população, cidades médias como Presidente Prudente devem continuar a crescer, atraindo novos habitantes devido a uma oferta maior de serviços, educação e infraestrutura, além da descentralização de processos industriais e administrativos. A urbanização das áreas de expansão do tecido urbano também deverá aumentar como resultado da produção e especulação imobiliária e habitacional que no Brasil se perpetua como um dos grandes negócios econômicos historicamente;

Expansão dos tecidos urbanos: a urbanização da região não se restringe apenas ao centro da cidade de Presidente Prudente, mas também às áreas periféricas que apresentam uma dinâmica imobiliária intensa, estudos demonstram como o mercado imobiliário na região apresenta tendências crescentes de apropriação de áreas periféricas das cidades para construção de novas formas de habitar relacionados de um lado aos espaços residenciais fechados e de outro a produção massiva de habitação voltado a políticas habitacionais. A produção imobiliária alargando o tecido urbano das cidades continuará como uma tendência crescente, o que exigirá adaptações nas políticas públicas para garantir a infraestrutura e os serviços necessários nessas áreas em crescimento;

Desafios na mobilidade urbana: com o aumento da população urbana, a mobilidade na região de Presidente Prudente se tornará um desafio. A necessidade de melhorar a infraestrutura de transporte, a integração do transporte público com as áreas periféricas e a melhoria nas vias urbanas e intermunicipais será cada vez mais urgente para atender a esse crescimento;

Mudanças demográficas e envelhecimento populacional: O aumento da idade média tanto nas áreas urbanas quanto rurais indica um processo de envelhecimento populacional. Isso pode trazer desafios para a prestação de serviços de saúde e a necessidade de adaptação das cidades para pessoas idosas. A falta de mão de obra jovem nas áreas rurais pode impactar a economia local, o que deve acelerar a mudança de atividades econômicas nessas regiões;

Aumento das desigualdades e busca por inclusão social: com a maior urbanização, surgem desafios em relação às desigualdades sociais. A concentração de populações em áreas periféricas e a carência de serviços e infraestrutura em regiões mais distantes do centro urbano podem gerar um aumento nas disparidades sociais. A promoção de políticas públicas focadas na inclusão social, com o acesso a moradia de qualidade e serviços essenciais, será fundamental para mitigar essas desigualdades;

Sustentabilidade e mudanças climáticas: o avanço da urbanização deverá ser acompanhado de uma crescente necessidade de integrar práticas de sustentabilidade no planejamento urbano, como no uso de tecnologias para a redução de impactos ambientais, aumento da eficiência energética e promoção da mobilidade urbana sustentável. O foco em áreas como planejamento urbano para mitigar os efeitos das mudanças climáticas e garantir a resiliência das cidades pode se tornar uma tendência crescente, assim como já assistido em outros países; e

Digitalização e novas formas de trabalho: a revolução digital também impactará a urbanização nas próximas décadas. O aumento do trabalho remoto e a digitalização de diversos setores podem reduzir a dependência de grandes centros urbanos, incentivando ainda mais um processo de urbanização cada vez mais dinâmico, complexo e diversificado, com mais flexibilidade entre a vida urbana e rural. Porém, sem que as cidades percam seu papel de centros de inovação e serviços.

“A tendência é de que a urbanização continue a crescer, embora a um ritmo progressivamente mais lento, até atingir uma estabilização, enquanto a população rural apresenta uma redução gradual”, destacou Maia.

“Essas tendências, combinadas com as transformações estruturais em curso, como mudanças profundas na economia e no mundo do trabalho, mudanças climáticas impõem uma agenda impossível de serem ignoradas e apresentam de forma cada vez mais aceleradas os efeitos potencialmente desastrosos, desenham um cenário de urbanização dinâmica e desafiadora no Brasil. A região de Presidente Prudente não fica alheia a este cenário macro”, finalizou ao g1 o doutor em geografia.

“Essas tendências, combinadas com as transformações estruturais em curso, como mudanças profundas na economia e no mundo do trabalho, mudanças climáticas impõem uma agenda impossível de serem ignoradas e apresentam de forma cada vez mais aceleradas os efeitos potencialmente desastrosos, desenham um cenário de urbanização dinâmica e desafiadora no Brasil. A região de Presidente Prudente não fica alheia a este cenário macro”, finalizou ao g1 o doutor em geografia.

VÍDEOS: Tudo sobre a região de Presidente Prudente

Alimentos: veja o que deve ficar mais em conta e o que ainda vai subir

Os preços dos alimentos devem subir menos este ano. É o que projeta Luiz Roberto Cunha, professor da PUC-Rio. No ano passado, a alta chegou a 8,23%, mais que o dobro do que é esperado para este ano, cujo patamar é de 3,91%. Segundo o especialista, alguns produtos que aumentaram muito em 2024 vão dar uma trégua em 2025.

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— A alimentação não será a vilã neste ano como foi em 2024 — afirma o economista.

O óleo de soja, que subiu 29,2% em 2024, deve ficar mais barato. A queda estimada é de 6,56%. A parte de laticínios, outro grupo vilão da inflação no ano passado, também vai baratear. A expectativa é que o preço do leite longa vida caia 4,62%, e o queijo, 0,29%.

Feijão preto

O feijão preto, um dos alimentos que ficaram mais baratos no ano passado, vai continuar em queda. Pelos números de Cunha, a redução será de 4,62%. O feijão carioca cairá mais ainda: 21,4%.

As farinhas serão outros alimentos que ficarão mais em conta para o consumidor. O preço da farinha de trigo vai diminuir 2,48% enquanto a de mandioca deve cair 4,04%

O grupo de tubérculos, legumes e raízes terá queda de 1,62% nas feiras e supermercados.

Na contramão, alimentos importantes ainda sobem em 2025. O café lidera com alta de 30,1% depois de já ter subido mais de 50% em 2024.

Chocolate, com a alta mundial de cacau, vai ficar 8,71% mais caro, e o sorvete, 6,52%.

Alimentos vão dar alívio ao bolso? Veja o que deve ficar mais barato ou ainda vai subir em 2025

Os preços dos alimentos devem subir menos este ano, pelas previsões do professor da PUC-Rio Luiz Roberto Cunha.

No ano passado, a alta chegou a 8,23%, mais que o dobro do que é esperado para 2025, de 3,91%. E alguns produtos que aumentaram muito no ano passado vão dar uma trégua.

— A alimentação não será a vilã neste ano como foi em 2024 — afirma o economista.

O óleo de soja, que subiu 29,2% em 2024, deve ficar mais barato. A queda estimada é de 6,56%. A parte de laticínios, outro grupo vilão da inflação no ano passado, também vai baratear. A expectativa é que o preço do leite longa vida caia 4,62%, e o queijo, 0,29%.

O feijão preto, um dos alimentos que ficaram mais baratos no ano passado, vai continuar em queda. Pelos números de Cunha, a redução será de 4,62%. O feijão carioca cairá mais ainda: 21,4%.

As farinhas serão outros alimentos que ficarão mais em conta para o consumidor. O preço da farinha de trigo vai diminuir 2,48% enquanto a de mandioca deve cair 4,04%

O grupo de tubérculos, legumes e raízes terá queda de 1,62% nas feiras e supermercados.

Na contramão, alimentos importantes ainda sobem em 2025. O café lidera com alta de 30,1% depois de já ter subido mais de 50% em 2024.

Chocolate, com a alta mundial de cacau, vai ficar 8,71% mais caro, e o sorvete, 6,52%.

Plano Safra abre nova crise no governo

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciou ontem que o governo vai editar Medida Provisória (MP) na semana que vem para permitir a retomada das linhas de financiamento com juros subsidiados do Plano Safra, após a suspensão dos empréstimos irritar o agronegócio e abrir nova crise na gestão de Luiz Inácio Lula da Silva.

Auxiliares do Palácio do Planalto avaliam que o episódio evidenciou mais uma falha de comunicação do Ministério da Fazenda, como no caso da medida da Receita Federal que afetou a credibilidade do Pix.

O anúncio de Haddad de que a solução viria via MP ocorreu só oito horas após a própria Fazenda dizer que iria consultar o Tribunal de Contas da União (TCU) sobre alternativas para voltar a oferecer o crédito agropecuário.

A suspensão dos empréstimos com recursos equalizados (mecanismo de subvenção usado para garantir juros mais baratos do que os de mercado) foi anunciada pelo Tesouro Nacional anteontem em ofício a instituições financeiras. O motivo citado foi o atraso na aprovação do Orçamento de 2025 pelo Congresso.

Sem o aval dos parlamentares à peça orçamentária, os gastos do governo ficam limitados a 1/12 avos por mês. Ao mesmo tempo, o aumento da Selic exige mais recursos do Tesouro para equalizar as taxas do programa agropecuário — ou seja, cobrir o custo entre os juros de mercado e a taxa cobrada no Plano Safra.

Risco de pedalada

Em agosto de 2024, quando a proposta orçamentária foi enviada ao Congresso, a Selic estava em 10,75%. Hoje, está em 13,25% ao ano e deve subir. Nesse caso, o governo precisa ajustar a previsão de despesa com os juros subsidiados do programa no Orçamento.

Diante da repercussão negativa, a Fazenda divulgou nota às 7h19 de ontem em que dizia que o governo iria enviar ofício ao TCU para consultar como retomar o pagamento da subvenção sem a aprovação do Orçamento.

Por volta das 15h, Haddad deu nova versão e disse que o governo iria enviar ao Congresso a MP com crédito extraordinário de R$ 4 bilhões para evitar a descontinuidade do programa. O crédito, segundo Haddad, vai ficar dentro do limite de gastos do arcabouço fiscal — normalmente é uma exceção ao teto.

— O presidente (Lula) pediu uma solução imediata para o problema. O fato de não ter o Orçamento aprovado efetivamente coloca problemas na execução orçamentária. Isso poderia comprometer o andamento do Plano Safra, mas, em virtude de uma determinação do presidente da República, estamos editando uma MP abrindo crédito extraordinário para atender as linhas de crédito do Plano Safra — afirmou Haddad, em entrevista convocada de última hora no escritório do Ministério da Fazenda, em São Paulo.

A decisão de lançar a MP, segundo o ministro, foi adotada após conversa com o presidente da Corte de Contas, Vital do Rêgo. Segundo fontes, houve mal-estar na Corte com a consulta anunciada pela Fazenda, especialmente considerando que há poucos dias os ministros refutaram o pagamento do Pé-de-Meia fora do Orçamento.

Além disso, foi aberta auditoria no TCU para avaliar políticas públicas financiadas fora das regras orçamentárias.

Falha de comunicação

Análises preliminares de técnicos do TCU apontaram que pagar a equalização sem previsão orçamentária poderia ser enquadrado como uma espécie de pedalada. Um artigo da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) proíbe operação de crédito entre instituição financeira estatal e o ente da federação que a controla. A União tem 50% de participação no Banco do Brasil, que é líder em crédito rural.

— O ministro do TCU deixou claro que, efetivamente, sem essa solução que foi encontrada, não haveria possibilidade do Plano Safra. Então a solução é um crédito extraordinário em valor necessário para que não haja descontinuidade da linha de crédito, algo em torno de R$ 4 bilhões — disse Haddad.

No Palácio do Planalto, a decisão de suspender linhas de financiamento do Plano Safra foi comparada ao episódio da crise do Pix, que gerou desgastes na aprovação de Lula. A exemplo do caso do monitoramento de movimentações financeiras pela Receita, a pasta de Haddad só explicou a medida após repercussão negativa.

A avaliação de interlocutores de Lula é que a Fazenda deveria ter feito anúncio à imprensa antes de enviar o ofício aos bancos. O entendimento é que era preciso responsabilizar o Congresso por não ter votado o Orçamento e não deixar o ônus para o governo.

O ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, que assumiu em janeiro, tem pregado em reuniões que o governo deve se antecipar a medidas que possam ter repercussão negativa ou ser distorcidas pela oposição.

“O ministro do TCU deixou claro que, efetivamente, sem essa solução que foi encontrada, não haveria possibilidade do Plano Safra”, disse Fernando Haddad

Setores do governo entendem que a suspensão de linhas do Plano Safra tem potencial de desgaste, embora num grau menor do que o caso do Pix. A medida atinge produtores rurais, que já são majoritariamente opositores do PT.

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), principal representante do setor, criticou a suspensão e o planejamento fiscal do governo em nota. “O produtor rural não pode ser prejudicado pelos entraves na aprovação do Orçamento e pela falta de planejamento perante os desafios fiscais enfrentados atualmente. A CNA entende as dificuldades orçamentárias, porém sugere que o governo reveja a decisão e garanta os recursos”, diz a entidade.

A medida foi criticada na bancada ruralista do Congresso. A Frente Parlamentar Agropecuária (FPA) se manifestou, em nota, contra a paralisação das linhas: “Culpar o Congresso Nacional pela própria incapacidade de gestão dos gastos públicos não resolverá o problema. A má gestão impacta no aumento dos juros e impede a implementação total dos recursos necessários”.

Impacto na inflação

Para especialistas, a suspensão dos recursos poderia afetar a produção nas próximas safras, com impacto nos custos pagos pelo agricultor e nos preços ao consumidor. A curto prazo não há essa leitura, pois as áreas já foram plantadas.

— Poderia atrapalhar o plantio das próximas safras, principalmente pequenos e médios produtores, que são mais dependentes do crédito agrícola, e com isso diminuir a oferta de alimentos e provocar subida de preços — ressaltou José Carlos Hausknecht, da MB Agro.

Rodrigo Lima, diretor-geral do Agroícone, avalia que, a longo prazo, o congelamento de linhas de crédito subsidiadas do Plano Safra pode prejudicar investimentos em correção do solo, maquinários, plantios de lavouras permanentes, afetando a produtividade. Isso pode refletir na oferta e no preço dos alimentos.

Tiago Sbardelotto, economista da XP Investimentos, diz que a solução de abrir crédito extraordinário afasta o risco de “pedalada”, ou seja, de bancos financiarem uma política pública, o que corresponderia a uma operação de crédito, algo vedado pela LRF e que foi apontado como pedalada pelo TCU na época da ex-presidente Dilma Rousseff.

— Se o governo incluir o valor no Orçamento depois que for aprovado, ou seja, se não usar o crédito extraordinário para aumentar artificialmente o espaço disponível no limite de despesas, está blindado de questionamentos. Agora, se usar o crédito para reduzir a dotação referente ao Plano Safra no Orçamento, aí poderemos ter algum questionamento sobre desvirtuamento da finalidade do crédito.

Agro critica planejamento do governo: “Produtor não pode ser prejudicado”

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) criticou o planejamento fiscal do governo federal, após a suspensão de linhas de crédito subvencionadas do Plano Safra 2024/2025. Principal representante do setor no país, a entidade disse entender as dificuldades orçamentárias, mas sugeriu que a decisão seja revista para garantir os recursos prometidos.

“O produtor rural não pode ser prejudicado pelos entraves na aprovação do Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) e pela falta de planejamento perante os desafios fiscais enfrentados atualmente”, disse em nota divulgada nesta sexta-feira (21/2).

A suspensão, anunciada pelo Tesouro Nacional, foi atribuída à elevação da taxa básica de juros, a Selic, que provocou aumento de gastos para equalizar operações de crédito, e a não aprovação do PLOA de 2025 pelo Congresso.

As linhas subsidiadas do Safra oferecem uma taxa de juros de 8% para o custo de venda e um percentual de 7% a 12% para investimentos na produção. Atualmente, a Selic está em 13,25% ao ano, com expectativa de chegar a 14,25% na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em março.

Conforme a taxa de juro básica sobe, são necessários mais recursos orçamentários para esta operação. De acordo com a entidade, estima-se que os recursos necessários sejam de, ao menos, R$ 22 bilhões para equalizar os juros durante 2025 — que deve enfrentar uma Selic de 15% ao ano, segundo previsões do mercado.

“A decisão compromete o acesso ao crédito rural, essencial para o desenvolvimento do setor, produção de alimentos e crescimento econômico do país. Essa interrupção repentina prejudica os produtores rurais, principalmente aqueles pequenos e médios, que lançam mão dos recursos do Plano Safra para financiar suas atividades”, argumentou a CNA.

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A medida não atinge operações de custeio do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), que continuará disponível. A suspensão pode afetar o acesso ao crédito rural, elevando custos para os agricultores.

“A situação que já era preocupante se agravou ainda mais com a medida anunciada pelo Tesouro Nacional, sobretudo em um momento em que os produtores se preparam para financiar a safra de inverno e já haviam adquirido parte dos insumos necessários”, destacou a confederação.

Popularidade de Lula e denúncia contra Bolsonaro devem impactar mercado financeiro

A queda na popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e as denúncias contra o ex-presidente Jair Bolsonaro configuram um cenário de incerteza política que pode ter impacto direto no mercado financeiro. Analistas avaliam que essa conjuntura pode acabar pressionando ainda mais a inflação no país, e consequentemente os juros. Além disso, é esperada uma maior volatilidade no câmbio e na Bolsa.

A mais recente pesquisa realizada pelo Datafolha, divulgada na última sexta-feira, aponta que só 24% dos eleitores brasileiros aprovam o governo Lula, enquanto 41% reprovam a gestão. Esse é o pior nível de aprovação em todos os três mandatos do petista como presidente, e a reprovação também é recorde. Dos entrevistados, 32% avaliam o governo como regular, e 2% não souberam ou não responderam.

A inflação de alimentos, sobretudo dos itens de primeira necessidade, é a protagonista de um início de ano desafiador para o governo. De acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o grupo alimentação e bebidas subiu 0,96% só no mês de janeiro, representando assim impacto de 0,21 ponto porcentual na inflação do mês.

“O ponto é que atualmente, mediante falas equivocadas e decisões, digamos, não bem tomadas, a credibilidade do governo Lula está abalada”, destaca o educador financeiro João Victorino. “E é óbvio que o aumento do dólar piora toda a situação de perda de poder de compra para a população, onde os juros e taxas estão altas. Esse cenário aumenta a inflação e o povo acaba sendo o maior prejudicado, tendo que lidar com preços exorbitantes em áreas tão essenciais como a alimentação”, complementou.

A polarização política também ganhou uma variável com a recente denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o ex-presidente Jair Bolsonaro no inquérito que investiga a tentativa de golpe de Estado. “A queda na popularidade do presidente Lula, somada às denúncias contra Bolsonaro e sua inelegibilidade, adiciona um fator de incerteza relevante ao cenário político e econômico brasileiro”, destaca Pedro Ros, CEO da Referência Capital.

Segundo ele, essa combinação adiciona um fator de incerteza relevante ao cenário político e econômico brasileiro. “O mercado precifica com antecedência os riscos políticos, e essa instabilidade pode gerar volatilidade cambial, ajustes nas taxas de juros e mudanças na percepção de risco sobre o Brasil”, alerta.

No curto prazo, Ros avalia que a indefinição política pode levar a um comportamento mais conservador do setor produtivo, reduzindo investimentos e retardando decisões estratégicas. “No entanto, um ambiente de maior previsibilidade fiscal e política, independentemente do vencedor, será determinante para o crescimento econômico sustentável”, diz

De acordo com Carlos Braga Monteiro, CEO do Grupo Studio, as duas situações podem ter impacto no mercado, já que a redução do apoio popular dificulta a articulação política do governo, afetando a aprovação de reformas e políticas econômicas. A ausência de Bolsonaro no cenário eleitoral de 2026, por sua vez, pode fragmentar a base conservadora aumentando a volatilidade eleitoral. “Esse contexto gera cautela nos investidores, refletindo-se em oscilações cambiais e prêmios de risco elevados”, avalia.

Para Volnei Eyng, CEO da gestora Multiplike, a queda na popularidade do presidente Lula pode dar espaço a um aumento de medidas populistas para tentar reverter esse cenário, que podem resultar em um “desajuste fiscal mais significativo”.

“No curto prazo, é possível que a economia apresente um desempenho positivo, com o PIB (Produto Interno Bruto) de 2026 projetado para crescer cerca de 2%, o que não é um resultado ruim. Além disso, no começo do ano, parece que a inflação começou a ser controlada, e os últimos dados indicam uma contração econômica”, destaca. “No entanto, a queda na popularidade de Lula pode levar a uma série de medidas populistas que priorizem o curto-prazismo, em detrimento da responsabilidade fiscal”, pondera.

A nova denúncia contra Bolsonaro, somada à sua inelegibilidade até 2030 e à queda de popularidade de Lula, redefine o cenário político para 2026, afirma Paulo Merotti, sócio da Equus Capital. “Cresce a incerteza sobre a continuidade da tradicional polarização política dos últimos anos, abrindo espaço para novos atores e protagonistas do cenário político nacional”, projeta. “Nos mercados, a instabilidade política tem aumentado a volatilidade no câmbio e na bolsa, com o real atingindo mínimas históricas diante do dólar, apesar da tímida recuperação nas últimas semanas”, acrescenta.

Lula minimiza queda de popularidade e se diz “satisfeito” com governo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva minimizou os resultados das pesquisas de popularidade do governo, que alcançaram o pior patamar de aprovação (24%) em três mandatos, na última semana, segundo o DataFolha. Ele também afastou a possibilidade de realizar uma reforma ministerial neste momento. As declarações ocorreram nesta quarta-feira (19/2), no Palácio do Planalto.

“Eu nunca levei definitivamente a sério qualquer pesquisa, em qualquer momento. Pesquisa serve para estudar, saber se tem que mudar de comportamento, isso que eu faço. Tenho mandato até 31 de dezembro de 2026 e quero entregar o país que prometi na campanha eleitoral. 2025 é o ano da colheita”, resumiu o presidente.

Lula ainda relembrou que, quando tomou posse, o país estava com 33 milhões de pessoas passando fome e prometeu terminar seu mandato “sem nenhuma pessoa passando fome”.

Perguntado sobre uma possível reforma ministerial, o chefe do Executivo disse que “essas palavras não existem na minha boca”.

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“Mudar ou não mudar o governo pertence muito intimamente ao presidente da república. Eu estou contento com o meu governo, acho que todo mundo cumpriu o que tinha para fazer. E, ao longo do tempo, pode ser no meio do ano ou depois, eu posso trocar”, disse o presidente. “Eu mudo quando quiser, da mesma forma que coloquei quem eu queria, eu tiro quem eu quiser”, acrescentou.

“A economia vai continuar crescendo, a inflação vai continuar controlada, o povo vai ganhar mais, trabalhar mais e quando chegar a época da eleição, o povo vai exercer seu direito democrático de votar em quem quiser”, finalizou Lula.

Biodiesel: adiamento do aumento da mistura no diesel ajuda inflação, mas tem custo ambiental, dizem especialistas

Preocupado com a popularidade e com os impactos políticos da alta dos preços dos alimentos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu ontem adiar por tempo indeterminado o aumento de 14% para 15% da mistura obrigatória do biodiesel no óleo diesel.

O combustível mais verde poderia competir com a produção de alimentos no uso da soja e pressionar o preço de diversos produtos. A decisão foi do próprio presidente, pois havia uma divisão no governo quanto ao melhor caminho a seguir.

Na reunião do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) em que privilegiou o combate à inflação a medidas mais sustentáveis, o governo confirmou a adesão do Brasil a um fórum da Opep+.

O cronograma original do governo previa que a mistura subisse no próximo dia 1º. Analistas e o setor alertaram que, caso a porcentagem de mistura de biodiesel aumentasse para 15% (B15), o preço da soja subiria, o que, por sua vez, poderia causar alta nos preços de alimentos, como óleo de soja e proteínas.

O governo Lula está pressionado pela queda da avaliação positiva do presidente, e o comportamento dos preços é apontado como uma das causas. Agora, a ideia é monitorar o preço do óleo de soja na gôndola para decidir quando aumentará a mistura do biodiesel no diesel.

Outro impacto seria no preço do combustível em si. O biodiesel é mais caro que o diesel comum, o que poderia elevar o valor cobrado na bomba. Como a maior parte do transporte de produtos nacionais é feita pelo modal rodoviário, um aumento no diesel tem efeito cascata.

— O preço dos alimentos é a grande prioridade do nosso governo. Considerando a necessidade de buscarmos todos os mecanismos para que o preço seja mais barato na gôndola do supermercado, mantemos a mistura em B14 (14%) até que tenhamos resultados no preço dos alimentos da população, já que boa parte da produção do biodiesel vem da soja — disse o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira.

Compromisso ambiental

A lei do Combustível do Futuro estabelece que o percentual de mistura de etanol na gasolina deve ser de 27%, mas o Poder Executivo poderá reduzir para até 22% ou aumentar para até 35%. Atualmente, a mistura pode chegar a 27,5%, com um mínimo de 18% de etanol. Isso não muda.

Sobre a mistura do biodiesel no diesel, estabelecida em 14% desde março de 2024, a lei determina que pode ser acrescentado 1 ponto percentual de mistura anualmente a partir de março de 2025 até chegar a 20% em 2030.

Para Daniela Stump, especialista em Direito Ambiental, professora do Insper e sócia do DCLC Advogados, as duas decisões anunciadas ontem — manutenção da mistura do diesel e entrada no fórum da Opep+ — são um “sinal ruim”.

— Ampliar o uso de biocombustíveis na matriz energética brasileira está entre os pontos da nossa NDC (compromissos de cada país para reduzir emissões de gases de efeito estufa e cumprir o Acordo de Paris). Então, vai na direção contrária — afirma ela.

Daniela destaca que o grande tema da COP30, a conferência do clima da ONU que será realizada em Belém este ano, será o aumento da ambição climática dos países, considerando que existe hoje uma grande lacuna na mitigação do aquecimento global.

Na visão da especialista, não há como se opor à segurança alimentar, mas o país tem de trabalhar de forma a não se desviar do compromisso ambiental assumido.

Para Pedro Rodrigues, sócio do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), o biodiesel tem um custo maior em relação ao diesel fóssil.

Segundo especialistas, o biodiesel pode ter um preço quase 30% maior em relação ao diesel puro refinado pela Petrobras:

—A gente quer ser mais limpo? Mas tem de pagar por isso. Então, ao aumentar a composição do biodiesel no diesel vendido, automaticamente o preço fica mais elevado para o consumidor final. E o preço do combustível já está sob pressão, com a Petrobras elevando os preços na refinaria e o aumento do ICMS a partir deste mês. Ou seja, poderia haver ainda mais avanço na inflação.

Safra maior

Em 2024, a produção de biodiesel no Brasil foi de 9,07 bilhões de litros, alta de 20% em relação a 2023, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP).

—Ao obrigar o aumento do biodiesel, aumenta o preço da soja, pois é questão de oferta e demanda. E isso traz mais e novos impactos para a inflação. Os volumes são grandes, 1% de mistura é muito — afirmou Rodrigues, que estima que seria necessário elevar a produção de biodiesel em mais de 7% para cumprir o aumento previsto.

Matheus Dias, economista do FGV Ibre, avalia que o aumento do biodiesel na mistura do diesel poderia impactar a inflação duplamente: pelo impacto na soja, óleo de soja e outros alimentos, e no preço do transporte, já que o combustível é usado na movimentação da safra por rodovias.

— Se aumenta o percentual do biodiesel, consequentemente aumenta o preço do transporte, e isso tem um impacto não só nos alimentos, mas em todo produto que é transportado por caminhões. E, se aumenta o percentual de biodiesel, será necessário direcionar maior produção de soja para o combustível, e isso aumenta a demanda — diz Dias.

De outro lado, Alexandre Chaia, economista do Insper, avalia que o aumento da proporção de biodiesel teria efeito na melhoria da qualidade do produto, diminuindo o impacto no meio ambiente:

— A gente vai ter uma safra muito boa de soja esse ano. Talvez o governo possa ter adiado para esperar a colheita, que começa entre março e abril. Com isso, vai ter um excesso de produção e provavelmente o impacto no consumo de soja deve ser pequeno.

Chia pondera que o foco no momento é a tentativa de segurar o preço do diesel, que já subiu este mês.

Operação antifraudes

O CNPE aprovou a criação de operação conjunta entre órgãos do governo federal para combater fraudes na mistura obrigatória do biodiesel ao diesel. A operação, coordenada pelo Ministério de Minas e Energia (MME), busca aperfeiçoar os instrumentos regulatórios e de fiscalização para assegurar a concorrência justa quanto à oferta de preços.

— Há muitas denúncias e estamos trabalhando muito fortemente para que as distribuidoras, todas, absolutamente todas, façam a mistura de forma adequada. Há muitas denúncias, inclusive públicas, de que algumas não estão fazendo de forma adequada, por deficiência de fiscalização da ANP, outras não estão fazendo, estão colocando menos do que deve, outras não estão fazendo por fraude mesmo — disse Silveira.

A adição de biocombustíveis nos combustíveis fósseis é política de Estado coordenada pelo CNPE, órgão do governo presidido pelo MME.