7 livros para expandir sua visão de mundo

Os livros não apenas entretêm, como também podem trazer informações técnicas e fatos curiosos. Seja por meio da ficção, relatos pessoais ou dados científicos e históricos, eles são uma janela para realidades desconhecidas e novas visões sobre a humanidade.

De gêneros e assuntos variados, os títulos abaixo possuem uma característica em comum: convidam o leitor a perceber que o mundo é sempre um pouco maior do que parece ser. Confira!

1. O Preço da Vida: seu trabalho, sua energia, o verdadeiro motor da economia mundial

“O Preço da Vida” oferece uma perspectiva transformadora sobre o papel da humanidade no capitalismo (Imagem: Divulgação | João Carlos Orquiza)

Esta obra explora um elemento invisível, mas essencial, que impulsiona a economia global: a energia humana. Com contextualização histórica e insights envolventes, João Carlos Orquiza conecta ciência e economia, e oferece uma perspectiva transformadora sobre o papel da humanidade no capitalismo. Os leitores são convidados a repensar o poder de suas contribuições, redefinindo a energia que realmente move o mundo.

2. A pérola no mar da alma

“A pérola no mar da alma” acompanha Genta, um jovem japonês que recusa o caminho dos campos de batalha para seguir um caminho espiritual e filosófico (Imagem: Divulgação | Lura Editorial)

O filósofo Matheus Moori Batista leva o leitor a uma jornada profunda e reflexiva por meio de uma viagem ao Japão feudal do século XVII, um período de intensas transformações políticas e sociais, marcado pela instabilidade dos clãs samurais e pela iminente chegada da influência ocidental. O romance acompanha Genta, um jovem japonês que recusa o caminho dos campos de batalha para seguir um caminho espiritual e filosófico, em busca do significado da vida e do próprio propósito.

3. Sangue neon

“Sangue neon” recria a ascensão da AIDS no Brasil entre 1970 e 1990, período crítico da epidemia marcada pela desinformação e preconceito (Imagem: Divulgação | Editora: Faria e Silva)

Esse romance histórico de Marcelo Henrique Silva recria a ascensão da AIDS no Brasil entre 1970 e 1990, período crítico da epidemia marcada pela desinformação e preconceito. A obra, inspirada em fatos, tem uma narrativa que expõe as dificuldades da época, como o contrabando de medicamentos por comissários da Varig e a falácia de que apenas homossexuais eram vulneráveis à doença.

O livro trata ainda da crise sanitária que afetou os mais vulneráveis e, ao mesmo tempo, destaca a luta por políticas públicas, que tornaram o Brasil referência mundial no controle da AIDS. “Sangue neon” humaniza as experiências dos afetados, desafia mitos e traz à tona lições de resiliência e solidariedade.

4. Jamais conheceremos Deus

“Jamais conheceremos Deus” reflete sobre a conexão com o divino, o poder da divindade, o sentido da morte e se há continuidade após o fim da vida (Imagem: Divulgação | Editora: Viseu)

Com base em estudos apoiados em ciência e filosofia, o escritor Luiz Fernando Maia apresenta nos 20 capítulos do livro conceitos de religiões monoteístas e politeístas, de modo a construir um panorama diversificado sobre a relação do ser humano com a fé. Por meio da imersão em diferentes simbologias, o autor reflete sobre a conexão com o divino, o poder da divindade, o sentido da morte e se há continuidade após o fim da vida.

5. Verde, amarelo e outras cores

“Verde, amarelo e outras cores” narra a trajetória de personagens que transmitem reflexões profundas sobre os impactos do colonialismo (Imagem: Divulgação | Editora: Labrador)

Os princípios de liberdade, igualdade e fraternidade, assim como conceitos de ciência, filosofia e religião, serviram de inspiração para que o escritor Antonio Carlos Brandão criasse a cidade utópica de Nova Ilusão, local que mostrou ao Brasil a possibilidade de uma vida mais justa. Por meio do olhar do único sobrevivente, Frei Barbudo, o livro narra a trajetória de personagens que transmitem reflexões profundas sobre os impactos do colonialismo e a importância de buscar um mundo mais pacífico.

6. Sob o mesmo sol

“Sob o mesmo sol” reflete sobre as contradições sociais do período colonial brasileiro (Imagem: Divulgação | Editora: Appris)

Ambientado no Brasil escravocrata do início do século XIX, o livro de Diego Moreira da Silva Ribeiro reflete sobre as contradições sociais do período colonial. Na trama, o patriarca João Andrades traça o destino dos três filhos: João Filho, o primogênito, herda a Fazenda Ouro Preto; Francisco, o segundo, é obrigado a ver sua amada ser prometida para o mais velho; já o caçula Benedito foge de casa para escapar do seminário e desencadeia uma série de conflitos na família. Por meio das escolhas e reflexões dos personagens, a obra oferece uma valiosa análise sobre poder e liberdade.

7. As repúblicas marítimas italianas: de Roma a Veneza

“As repúblicas marítimas italianas: de Roma a Veneza” ajuda a entender a ascensão, o auge e o declínio das cidades litorâneas da Itália (Imagem: Divulgação | Editora: EDUCS)

Uma obra para entender a ascensão, o auge e o declínio das cidades litorâneas da Itália que dominaram o comércio mediterrâneo entre os séculos XI e XVIII, e foram pioneiras na transição do feudalismo para o capitalismo. A partir de uma extensa pesquisa histórica, o autor Roberto Chacon de Albuquerque resgata nomes da história mundial – Marco Polo, Cristóvão Colombo e Fibonacci – e analisa como as inovações em finanças, diplomacia, navegação e artes influenciaram a construção do mundo moderno.

Por Luísa Lacombe

‘2025 pode ser como 1968 e 1989: um ano em que a história do mundo muda e nada mais é mais como antes’

Há anos em que o mundo passa por alguma mudança fundamental e convulsiva.

Um deles foi 1968, marcado pela invasão da União Soviética à Tchecoslováquia, a revolta estudantil em Paris, e protestos contra a Guerra do Vietnã nos Estados Unidos.

Outro foi 1989, ano do massacre da Praça da Paz Celestial, da queda do Muro de Berlim e da implosão do império soviético.

Eu vivenciei cada um destes acontecimentos e, a partir desta perspectiva, me parece que, após apenas algumas semanas, 2025 pode ser um ano deste tipo: um momento em que os pressupostos básicos sobre a maneira como nosso mundo funciona são colocados no triturador.

Os protestos globais contra a Guerra do Vietnã começaram em 1968

A principal razão, é claro, é Donald Trump.

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, cada um dos 13 presidentes americanos anteriores a este segundo mandato de Trump defendeu, pelo menos da boca para fora, um conjunto de princípios geopolíticos fundamentais. Entre eles, que a própria segurança dos Estados Unidos dependia de proteger a Europa da Rússia, e os países não comunistas da Ásia, da China.

Trump mudou essa abordagem. Ele diz que está colocando os interesses dos Estados Unidos em primeiro lugar, antes de qualquer outra coisa. Na maioria das vezes, isso se resume à questão de quanto custa para os Estados Unidos proteger a Europa e a Ásia da Rússia e da China, respectivamente.

A queda do muro de Berlim em 1989 repercutiu no mundo todo

Isso, por si só, é muito difícil para os países aliados dos EUA, especialmente na Europa. Mas se torna muito mais difícil devido à própria personalidade de Trump. Nenhum presidente dos EUA nos tempos modernos, nem sequer Richard Nixon, deixou suas características pessoais influenciarem suas políticas como Trump faz.

“Ele é como Luís 14”, me disse um diplomata americano aposentado, referindo-se ao pretensioso rei Sol da França.

Críticos como este acreditam que Trump é incrivelmente vaidoso e, ao mesmo tempo, incrivelmente sensível. Como resultado, os indicados para cargos que o cercam, pessoas como Elon Musk e J.D. Vance, talvez pensem que sua posição depende inteiramente do quanto eles o elogiam e apoiam suas opiniões.

Quando o presidente Trump afirma, sem nenhuma evidência, que o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, é corrupto e tem um baixo índice de aprovação, Musk vai mais além: ele acrescenta que Zelensky é desprezado pelo povo ucraniano, e está se alimentando dos cadáveres dos soldados ucranianos.

Ninguém no círculo de Trump hoje, ao que parece, vai tossir discretamente e dizer: “Presidente, talvez o senhor devesse considerar voltar atrás nessa declaração”.

A julgar por seu mandato anterior, podemos ter certeza de que cada uma das pessoas ao seu redor sabe como ele detesta que discordem dele. Elas também sabem que muitos eleitores apoiam incondicionalmente a abordagem de Trump, e sentem que estão financiando a segurança em um continente distante.

Ele se comprometeu a acabar com a guerra na Ucrânia até a Páscoa. E tem toda razão quando diz que o presidente russo, Vladimir Putin, está interessado nisso.

Embora as tropas russas estejam avançando lentamente no leste da Ucrânia, graças ao seu enorme número, suas perdas humanas são imensas.

Se a guerra continuar, a Rússia pode ter que recorrer ao recrutamento obrigatório, o que seria perigosamente impopular, e poderia até desestabilizar o regime de Putin. Tudo o que Trump diz sobre alcançar a paz é música para seus ouvidos.

John Bolton, o nada subserviente conselheiro de segurança nacional de Trump durante seu primeiro mandato, disse outro dia que o Kremlin deve ter estourado um champanhe quando ouviu sobre o plano de paz do governo Trump. Sem dúvida, pareceu um momento histórico — não apenas em Moscou, mas em todo o mundo.

Putin apoiou claramente a ideia de que Trump realmente venceu a eleição de 2020. Pode não ser verdade, mas Putin sabe que Trump favorece qualquer um que apoie sua visão das coisas.

Por que, em contrapartida, Trump e as pessoas que o cercam pegaram tão pesado com Zelensky? Em parte, deve ser porque Zelensky não faz obedientemente o que pedem a ele, como voltar à mesa de negociações e fechar um acordo para que os Estados Unidos possam ter acesso a minerais essenciais da Ucrânia.

Ao mesmo tempo, Trump entende que Zelensky é o elo mais fraco do trio formado por Estados Unidos, Rússia e Ucrânia — e pode ser pressionado de uma forma que Putin não pode. Quanto mais pressão for exercida sobre Zelensky, mais rápido será o acordo de paz.

Tudo o que Trump diz sobre alcançar a paz é música para os ouvidos de Vladimir Putin

Trump nunca parece, pelo menos em público, demonstrar muito interesse nos detalhes de qualquer acordo. O que importa para ele é o acordo em si, mesmo que a Ucrânia e seus aliados acreditem que seja claramente injusto, e permita que a Rússia volte em uma data futura e recomece a guerra.

Diplomatas britânicos e alemães que eu conheço ficaram furiosos com a forma como Trump agiu para levar a Rússia à mesa de negociações. “Ele tinha duas cartas importantes na mão”, afirmou um deles. “A primeira era o isolamento da Rússia. Putin teria feito muitas concessões para poder participar das negociações com os Estados Unidos — só que Trump não insistiu em nenhuma concessão. Ele simplesmente o deixou sentar (na mesa de negociações) e começar a falar.”

A outra carta, segundo o diplomata, era insistir que a Ucrânia deveria ter permissão para aderir à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). “Trump poderia ter discutido sobre isso, e extorquido todos os tipos de acordos de Putin, antes de finalmente dizer: OK, a Ucrânia não vai entrar para a Otan neste caso.” Nas capitais europeias, há a sensação de que ele jogou fora estas duas cartas essenciais antes mesmo de as negociações começarem, sem nenhuma condição prévia.

No entanto, alguns diplomatas europeus com experiência em política americana já estão advertindo seus governos de que esse período monárquico na presidência de Trump, em que seus assessores acatam suas opiniões (ele literalmente se referiu a si mesmo como um “rei” na semana passada), não vai durar muito.

Atualmente, Trump tem o controle de um Congresso maleável e de uma Suprema Corte conservadora — mas daqui a apenas 20 meses, em novembro de 2026, haverá eleições de meio de mandato nos Estados Unidos.

Trump se comprometeu a acabar com a guerra na Ucrânia até a Páscoa

Há sinais de que a inflação está começando a subir no país, e é bem possível que haja gente suficiente afetada para querer punir o partido Republicano de Trump nas urnas.

Se ele perder o controle de uma ou de ambas as casas do Congresso, o poder que ele tem no momento de fazer aprovar todos os planos e políticas, por mais controversos que sejam, vai diminuir.

Mas muita coisa pode acontecer nos próximos 20 meses. O expansionismo de Trump pode encorajar a China. Uma grande guerra comercial internacional, desencadeada pelas tarifas de Trump, pode começar. E parece provável que a União Europeia se torne política e economicamente mais fraca do que nunca.

Fechar um acordo de paz na Ucrânia nos termos da Rússia será algo totalmente novo para os Estados Unidos. Na grande maioria das negociações desde 1945, a Rússia teve dificuldades para conseguir o que queria devido à força econômica e militar americana.

Agora, Putin, que tomou a decisão onerosa de invadir a Ucrânia há três anos, parece que vai se safar, e prosperar.

Se isso acontecer, então 2025 será de fato lembrado como um ano chave: um momento em que a história do mundo mudou, e nada mais foi como antes.

Juros altos acendem a luz amarela para o crédito, dizem especialistas

Em instituições bancárias e financeiras, conseguir um empréstimo ficou ainda mais difícil neste ano, devido ao alto nível dos juros aplicados para a concessão de crédito. A política monetária mais restritiva implementada pelo Banco Central desde o final do ano passado, somada à grande quantidade de inadimplentes no Brasil, faz com que os bancos fiquem ainda mais receosos em oferecer crédito à população.

Diante disso, é necessário avaliar a real necessidade e as melhores opções antes de tomar um empréstimo, na opinião de especialistas. Em janeiro, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central elevou a taxa básica de juros (Selic) para 13,25% ao ano (a.a.), seguindo a tendência apontada, pelo próprio grupo, de promover altas mais fortes da Selic no início do ano. Em comunicado publicado na última reunião de 2024, o Copom justificou a elevação de um ponto percentual da taxa às incertezas externas e aos ruídos provocados pelo pacote fiscal do governo federal, apresentado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, em novembro, e aprovado pelo Congresso Nacional no mês seguinte.

Além de apontar as principais causas para o aumento da Selic, o comitê adiantou que haveria mais duas elevações de 1 ponto percentual nas primeiras duas reuniões de 2025. Uma já foi, e agora se espera que o BC mantenha a previsão para o encontro dos próximos dias 18 e 19 de março. De acordo com o último Boletim Focus, publicado no dia 24 de fevereiro, o mercado previa uma Selic de 15% ao final deste ano.

Além disso, as análises levantadas pelo Banco Central, responsável pela publicação do relatório, apontam que a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deve encerrar o ano acumulada em 5% nos 12 meses de 2025. Se a previsão se tornar realidade, o Brasil atingirá uma taxa de juros real — que desconta a inflação — de dois dígitos, em 10%, ao final de dezembro, consolidando-se na primeira colocação entre as nações com a maior taxa real do mundo.

A alta de juros e a inflação têm um impacto significativo na tomada de crédito, afetando tanto consumidores quanto empresas, ressalta o CEO do Mêntore Bank, Vanderson Aquino. “Com a alta dos juros, as taxas de empréstimos e financiamentos aumentam. Isso torna o crédito mais caro, o que pode desestimular as pessoas a tomarem empréstimos ou financiamentos”, explica. Já no caso das empresas, o executivo destaca que há uma valorização no custo de capital também, o que pode levar a uma redução nos investimentos e expansão. “Consequentemente, a diminuição na demanda por crédito faz com que taxas de juros subam e a capacidade de pagamento das pessoas e empresas diminua, o que pode reduzir a demanda na procura por crédito.

Além disso, com a inflação, os consumidores podem priorizar o consumo de bens essenciais, deixando de lado compras financiadas”, acrescenta Aquino. O aumento da inflação e dos juros também deve resultar em um perfil de crédito mais rigoroso por parte das instituições financeiras. Diante disso, pessoas com renda instável ou empresas em setores mais vulneráveis podem ter mais dificuldade em obter empréstimos. “Resumindo, tanto a alta de juros quanto a inflação tornam o crédito mais caro e difícil de acessar, o que afeta negativamente o consumo e os investimentos, podendo desacelerar a economia”, conclui Aquino.

A adoção de critérios mais rigorosos por parte dos bancos faz parte do chamado “Custo Brasil”. O termo é amplo e se refere a ineficiências na legislação e na regulamentação brasileira que dificultam o avanço da atividade econômica. Nesse contexto, o coordenador dos cursos de Economia, Gestão Pública e Gestão Financeira do Iesb, Riezo Almeida, avalia que este cenário intensifica a inadimplência e, consequentemente, os custos para a obtenção de crédito. “Poucos cidadãos, que não possuem educação financeira, deixam de honrar seus empréstimos e prejudicam os bons pagadores, portanto o aumento dos juros não é justificável por parte dos bancos, mas é uma praxe”, avalia.

O coordenador ainda acredita na possibilidade de negociação entre as instituições e a população, por meio de programas de crédito direcionados a setores estratégicos ou políticas públicas que incentivem investimentos. Diante disso, as propostas poderiam ser benéficas às empresas, que são um dos segmentos mais afetados com a queda da atividade econômica.

Almeida lembra que o cenário de juros altos pode resultar em aumento nos custos de financiamento e redução na demanda por produtos e serviços, devido ao menor poder de compra dos consumidores. “Investir na economia criativa, ou seja, ofertar alternativas de empréstimos com juros menores em um prazo menor, por exemplo, beneficiaria a todos”, considera. Por outro lado, o advogado e doutor em Economia Humberto Veiga, acredita que há possibilidades para os empresários que buscam formas de financiamento sem correr sérios riscos de inadimplência.

“Haverá dificuldades. Mas são dificuldades pelas quais as pessoas já passaram e elas sabem navegar. Então, eu creio em um futuro melhor. Eu creio que a economia brasileira está em processo de melhora, ela não está em processo de piora”, avalia. Veiga ressalta que o país já conviveu com cenário de taxas reais de juros muito elevadas, como nos anos 1980 e 1990, quando a taxa Selic chegou a ficar acima de 50%, durante o governo do ex -presidente Fernando Henrique Cardoso. “Acho que se a gente olhar o que o Brasil já passou, nós viemos de taxa de inflação de 80% ao mês para uma taxa de inflação que o pessoal está fazendo um escândalo e nós estamos em 5% ao ano”, pontua.

Diante disso, o advogado considera que aproveitar as oportunidades, quando surgirem, é um passo importante para evitar o pessimismo e levar à frente o próprio negócio. “O empresário é um guerreiro. Ele está procurando sobreviver em uma selva diária. Então todo dia aparecem desafios, aparece a concorrência, tem uma série de coisas, mas também, é outro que, se sobrevive, é um vencedor””, conclui Veiga.

Para o consumidor que planeja obter créditos para fins mais específicos, o consultor econômico da Leroy Group, Felipe Diniz Leroy, reconhece que, com uma Selic elevada, os bancos provavelmente irão continuar ajustando suas taxas de juros internas, especialmente no crédito pessoal e em financiamentos voltados a pessoas jurídicas.

Consequentemente, isso resulta em juros mais altos em cartões de crédito, empréstimos pessoais e financiamentos, tornando o crédito menos acessível. Para quem não quer deixar de contratar empréstimos para mais tarde, priorizar formas de crédito mais baratas, como crédito consignado, é opção para quem tem um vínculo formal de trabalho — avalia o consultor — por ser uma das opções mais acessíveis, com parcelas descontadas diretamente da folha de pagamento, resultando em taxas de juros menores.

“Outra forma é o financiamento com taxas controladas, como os oferecidos por cooperativas de crédito ou algumas fintechs, que podem ter taxas de juros mais baixas que os bancos tradicionais”, acrescenta. Leroy elenca, ainda, três dicas para evitar os juros abusivos: ter planejamento financeiro, evitar o cartão de crédito, quando possível, e negociar dívidas existentes. “Caso já haja algum tipo de débito, vale a pena tentar uma renegociação com os credores. Muitas vezes, bancos e instituições financeiras oferecem condições melhores, especialmente em tempos de crise, se o cliente estiver disposto a buscar alternativas”, explica o consultor.

‘EUA estão virando cada vez mais uma oligarquia, com Trump e Musk no centro’

Cena 1: Donald Trump assume a presidência dos Estados Unidos, rodeado por magnatas do setor tecnológico, como Elon Musk, Mark Zuckerberg e Jeff Bezos. Ao lado deles, diversos bilionários são escolhidos para ocupar postos-chave no governo.

Cena 2: Musk, o homem mais rico do mundo, aparece de pé no Salão Oval da Casa Branca, com o presidente sentado ao seu lado. Ele explica sua missão de reduzir e reformar o governo americano, em meio a relatos de que seu poder e patrimônio aumentaram depois da eleição de Trump.

Cena 3: surge o anúncio de que a rede social X (antigo Twitter), de propriedade de Musk, concordou em pagar cerca de US$ 10 milhões (cerca de R$ 57,5 milhões) para firmar um acordo sobre uma ação judicial movida por Trump, relativa à suspensão da sua conta na plataforma, em 2021.

Uma sequência de fatos entrelaçando poder e dinheiro vem marcando os Estados Unidos, desde que Trump voltou à Casa Branca, no último dia 20 de janeiro. E, segundo o economista Robert Reich, esta situação vem transformando cada vez mais o país em “uma oligarquia”.

“Estamos perdendo nossa democracia”, alerta Reich, em entrevista à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC. Ele foi secretário do Trabalho dos Estados Unidos, durante o primeiro mandato do presidente democrata Bill Clinton (1993-1997).

O ex-presidente americano Joe Biden lançou uma advertência similar, no seu discurso de despedida da Casa Branca em janeiro. Mas Biden evitou mencionar pessoas específicas na sua mensagem.

Reich afirma que Trump e Musk representam “o centro” dessa oligarquia que, para ele, está assumindo o controle dos Estados Unidos.

“Musk é o veículo que serve para a realização deste golpe oligárquico”, explica Reich. “Ele detém a riqueza e o conhecimento tecnológico, com as pessoas que ele trouxe para fazer o que Trump não poderia fazer com facilidade.”

Muitas pessoas levam a sério os avisos de Reich. Além de economista, ele é professor emérito de políticas públicas da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos.

Reich também foi assessor da transição do governo de Barack Obama e é autor de diversos livros, como O Trabalho das Nações (Ed. Educator, 1994), que foi traduzido para 22 idiomas. Ele é o protagonista do documentário Salvando o Capitalismo (2017), disponível na Netflix.

Em 1994, Reich já alertava que a sociedade americana era separada em dois níveis, “com alguns poucos ganhadores e um grupo mais amplo de americanos que ficam para trás – e sua ira e desilusão podem ser facilmente manipuladas”.

A BBC News Mundo preparou uma síntese do diálogo telefônico com Reich. Confira abaixo.

Para o economista Robert Reich, em Washington, ‘o dinheiro flui’ e ‘se poderia dizer que os conflitos de interesses [hoje] são maiores do que nunca’

BBC News Mundo: No seu discurso de despedida, Biden afirmou que “está tomando forma nos Estados Unidos uma oligarquia de extrema riqueza, poder e influência, que realmente é uma ameaça” à democracia. O sr. concorda?

Robert Reich: Os Estados Unidos estão se tornando cada vez mais uma oligarquia. Estamos perdendo nossa democracia.

O governo Trump rejeitou a autoridade do Congresso sobre as nomeações, sobre os gastos, e destacou que já não se sente obrigado a cumprir as ordens dos tribunais federais.

Se um presidente já não presta atenção aos outros poderes – que são iguais, segundo a Constituição americana –, isso equivale a um golpe: uma tomada de poder de todo o governo por parte do presidente. Isso é inconstitucional.

BBC: A que o sr. se refere quando fala em oligarquia?

Reich: A oligarquia é um pequeno grupo de pessoas que, com sua riqueza e poder, governam toda uma nação.

Elon Musk, por exemplo, é a pessoa mais rica de todo o mundo. Donald Trump, no momento, é a pessoa mais poderosa de todo o mundo. Juntos, eles representam o centro da oligarquia americana.

Eles estão planejando um grande corte de impostos, cujos benefícios irão principalmente para as pessoas muito ricas dos Estados Unidos.

Eles começaram a desregulamentar o país, o que significa que as proteções de saúde, segurança e meio ambiente, que são muito importantes para evitar a espoliação das grandes corporações, não irão mais proteger o cidadão comum.

Isso é uma grande vantagem para a oligarquia, que fica ainda mais rica. Suas corporações terão resultados ainda melhores e serão mais rentáveis.

BBC: É possível argumentar que a política e o dinheiro estão entrelaçados há muito tempo nos Estados Unidos, tanto nos governos republicanos como democratas. Qual é a diferença, agora?

Reich: Você tem razão. O dinheiro vem entrando cada vez mais na política americana.

Até mesmo antes que a Suprema Corte o permitisse, tínhamos uma grande quantidade de dinheiro das corporações e indivíduos muito ricos corrompendo nossa política. Eles entravam na política americana, tanto na forma de contribuições para as campanhas, quanto de grupos de pressão e relações públicas.

Mas o que ocorreu é que as restrições que ainda permaneciam, agora, desapareceram por completo. Tudo está às claras.

As pessoas mais ricas dos Estados Unidos estão fornecendo dinheiro a Trump, Musk e seu governo de forma clara, óbvia e desafiadora.

Digo Trump e Musk quase indistintamente porque eles estão no centro desta nova oligarquia. O dinheiro flui. Seria possível dizer que os conflitos de interesse são maiores do que nunca.

Quero dizer que as pessoas que estão na alta administração, como Trump e Musk, tomam decisões que beneficiam financeiramente a eles próprios, mas não necessariamente ao público americano, quando é o caso.

BBC: O sr. pode dar exemplos?

Reich: Tenho muitos exemplos.

Donald Trump está emitindo suas próprias formas de tokens de transferência eletrônica de fundos. São instrumentos financeiros nos quais as pessoas podem investir.

Por que o presidente dos Estados Unidos não deveria emitir tokens nos quais as pessoas podem investir? Porque eles são o seu próprio negócio particular e, com ele, Trump está ganhando muito dinheiro.

Reich é uma referência nos Estados Unidos sobre temas de desigualdade e direitos dos trabalhadores

Elon Musk também está muito envolvido com as criptomoedas. E Musk e Trump são os encarregados de regulamentar as criptomoedas no futuro.

Eles têm um claro conflito de interesses, já que terão benefícios particulares se houver pouca ou nenhuma regulamentação das criptomoedas. Mas o público precisa de proteção contra isso.

Outro exemplo: Musk e Trump já transformaram o Escritório Nacional de Relações Trabalhistas [NLRB, na sigla em inglês] em um organismo ineficaz, demitindo seu presidente.

Isso permite que Musk e suas empresas tenham resultados financeiros ainda melhores. Mas potencialmente prejudica a saúde, a segurança e o meio ambiente dos americanos, bem como o direito dos trabalhadores de formar sindicatos.

Trump detém grande quantidade de interesses empresariais privados que também se beneficiam da sua desregulamentação, do congelamento dos gastos federais e da demissão possivelmente ilegal de pessoas que trabalham nos escritórios e comissões reguladoras e que, de outra forma, poderiam limitar estes benefícios.

Tudo isso é o que faz uma oligarquia. É oligarquia clássica.

BBC: O sr. atribui isso a um plano elaborado ou acredita que ocorra de forma improvisada?

Reich: Não acredito que seja improvisado.

Trump chegou ao poder com um plano muito detalhado, chamado Projeto 2025. Ele foi elaborado por muitas pessoas que haviam trabalhado no seu primeiro mandato ou que, agora, estão no segundo governo Trump. Um exemplo é o diretor do Escritório de Gestão e Orçamento.

O Projeto 2025 é um plano de ação para a tomada dos Estados Unidos pela oligarquia.

BBC: Isso é mais importante do que as outras medidas tomadas pelo governo Trump, como em relação à imigração, às mudanças das políticas de diversidade ou às tarifas de comércio exterior?

Reich: É muito importante que o público compreenda que a estratégia de Trump e Musk é fazer com que os americanos briguem entre si.

Ao se desfazer das políticas de diversidade, igualdade e inclusão, por exemplo, o governo Trump exacerba tensões dentro dos Estados Unidos. O mesmo acontece quando se vai contra os imigrantes sem documentação válida.

Ele está dividindo os Estados Unidos e causando muita dor às famílias.

Com estas estratégias de dividir as pessoas por raça, etnia e nacionalidade, a oligarquia quer que os americanos fiquem irritados uns contra os outros, para não olharmos para cima e vermos para onde realmente foi toda a riqueza e o poder.

Trata-se de uma estratégia oligárquica clássica.

BBC: De qualquer forma, uma maioria de americanos votou em Trump, sabendo que ele é muito rico e que gosta de ficar rodeado por multimilionários. E é possível que eles vejam esses multimilionários como homens de negócios bem sucedidos, que usaram sua experiência no setor privado para “fazer a América grande novamente”. Qual é o problema com isso?

Reich: O problema é que, nos últimos 40 anos, muitas das pessoas que são muito ricas nos Estados Unidos empregaram sua riqueza para ganhar poder político e mudar as regras do jogo, as regras do nosso sistema político e econômico, para que lhes dessem ainda mais riqueza e poder, mas prejudicando o trabalhador médio.

É por esta razão que, se você ajustar pela inflação, o trabalhador americano comum não teve aumento de receita ou riqueza. E também é por este motivo que os Estados Unidos se tornaram tão extraordinariamente desiguais, em termos de receita ou riqueza, nos últimos 40 anos.

Peter Thiel fundou o PayPal ao lado de Elon Musk. Para Reich, ele faz parte do movimento antidemocrático que vem ganhando poder e influência nos Estados Unidos

Em outras palavras, Trump procurava ser a voz do povo, do trabalhador médio. Mas, na realidade, esta oligarquia emergente conteve o trabalhador médio. E Trump encabeça esta oligarquia emergente.

BBC: E qual seria o papel de Elon Musk, o homem mais rico do mundo, e da autoridade que foi conferida a ele para cortar gastos e regulamentações?

Reich: Elon Musk está fazendo o que Donald Trump não consegue fazer.

Musk e as pessoas que ele trouxe para o chamado Departamento de Eficiência Governamental – que, na verdade, não é um departamento [ministério], já que o Congresso nunca o aprovou – estão fustigando os dados do governo americano, do Tesouro e de outros departamentos. Eles estão obtendo o código de informática que permite deter os gastos e transportá-los para outras finalidades.

Musk é o veículo que serve para a realização deste golpe oligárquico. Ele detém a riqueza e o conhecimento tecnológico com as pessoas que trouxe para fazer o que Trump não poderia fazer com facilidade.

BBC: O sr. também destacou, em um artigo recente, o papel do vice-presidente J. D. Vance neste contexto e a influência exercida por multimilionários como Peter Thiel, um dos fundadores do PayPal, ao lado de Musk. Como seria isso?

Reich: Peter Thiel se autodenomina libertário. Ele escreveu muito sobre sua visão de que a democracia seria incompatível com as liberdades pessoais.

Seu grupo no Vale do Silício e em outros lugares faz parte da oligarquia que pretende substituir a democracia americana pela sua própria riqueza e poder.

É muito importante entender que Peter Thiel e J. D. Vance são muito unidos. A campanha de Vance ao Senado em Ohio, em 2022, foi financiada, em grande parte, por Thiel. Ele investiu nela US$ 15 milhões [cerca de R$ 86 milhões].

Thiel também foi um dos principais investidores da campanha de Trump em 2016. Por isso, ele detém influência. E, quando Trump procurava um vice-presidente, Thiel defendeu que J. D. Vance seria perfeito e ele se tornou vice-presidente.

J. D. Vance já deixou muito claro que, para ele, o governo não está sujeito aos tribunais federais. Esta é uma ideia bastante revolucionária, pois, se o poder judiciário federal não tiver poder sobre o executivo, sobre o presidente e o vice-presidente, eles podem fazer o que quiserem.

Esta noção expressa por J. D. Vance faz parte da tomada de poder do governo federal por esta oligarquia.

BBC: Talvez Trump seja mais negociante do que outros presidentes, mas alguns especialistas defendem que ele detém o poder político em Washington e pessoas como Musk, Zuckerberg e Bezos obedecem a ele e não o contrário. Esta não é uma diferença em relação ao que geralmente se considera uma oligarquia clássica?

Reich: Se Trump é o centro do poder, se Musk é o centro ou se o centro é composto por Musk, Trump, Bezos, Zuckerberg e outros como Rupert Murdoch e Peter Thiel, não tem muita importância.

São todos eles. Eles estão juntos, são o centro da oligarquia e da tomada de controle da democracia americana.

BBC: Outros afirmam que a contribuição econômica das suas empresas, como a Tesla, Meta ou Amazon, é pequena em comparação com outros países frequentemente considerados oligarquias, como a Rússia. O que o sr. pensa a respeito?

Reich: Bem, podemos discutir a contribuição econômica.

Muitas pessoas, como eu, acreditam que essas empresas gigantes, como a Meta, Amazon e SpaceX, por exemplo, são monopólios. E, como monopólios, são ineficientes. Elas fazem com que a economia seja menos dinâmica do que deveria.

Reich testemunhou em comitês dos Estados Unidos sobre temas como a desigualdade de renda

Veja a inteligência artificial. Por que uma pequena empresa chinesa, sem gastar muito, consegue deixar para trás a Google, Meta e todos esses monopólios gigantescos dos Estados Unidos? Porque esses monopólios, na verdade, não são inovadores, pois são muito poderosos e são monopólios.

Esta é a posição adotada pela ex-presidente da Comissão Federal de Comércio, Lina Khan. E acredito que ela tenha razão.

BBC: É verdade que Biden também alertou sobre um crescente “complexo industrial tecnológico que poderia representar perigos reais” para os Estados Unidos. O sr. concorda?

Reich: Sim, pois estas gigantescas empresas tecnológicas são muito poderosas, não apenas como monopólios, mas também para coletar informações sobre os cidadãos americanos e pessoas do resto do mundo.

E este poder sobre os dados é muito perigoso, se estiver concentrado. Ele poderia potencialmente intimidar as pessoas e oferecer à oligarquia ainda mais poder sobre o cidadão comum.

A informação, atualmente, é um ingrediente fundamental em termos de poder e dominação global.

BBC: Qual o sr. considera que seja a raiz do problema para o sistema democrático americano? O financiamento das campanhas? A falta de regulamentação do papel do dinheiro na política? Ou ambos?

Reich: O principal problema do sistema, em primeiro lugar, são as enormes quantidades de dinheiro provenientes de grandes empresas e pessoas muito ricas que dominam a política.

Isso não é algo novo. Mas Donald Trump é o ápice, a consequência de anos deste sistema fora de controle, do grande capital infectando e enfraquecendo a democracia.

Em segundo lugar, vem o fato de que uma parte cada vez maior da economia dos Estados Unidos está nas mãos de menos pessoas, com corporações gigantescas, que se apoderam de diversos mercados e indústrias.

Estes dois fatores andam lado a lado, pois, quando você tem monopólios, existe uma grande quantidade de riqueza acumulada e concentrada em muito poucas mãos. Isso pode ser usado com fins políticos, em contribuições de campanha, para lobby e relações públicas.

Tudo isso, em conjunto, enfraquece a democracia e fortalece a oligarquia.

BBC: Como o sr. vê o papel do Partido Democrata e da oposição em geral nos Estados Unidos, neste início do segundo governo Trump?

Reich: O Partido Democrata não está unido. Não tem uma estratégia. Não tem uma voz clara.

Uma parte do partido está muito preocupada com isso. O ex-presidente Biden articulou muito bem a preocupação com a oligarquia.

Mas existem outros setores do Partido Democrata que querem se aproximar das grandes corporações e dos ricos, dizendo a eles: apoiem as nossas campanhas no futuro. Bem, não é possível ter as duas coisas.

Em sua mensagem de despedida da Casa Branca, Joe Biden alertou contra a oligarquia sendo formada nos Estados Unidos que, a seu ver, é uma ameaça à democracia.

O Partido Democrata precisa ser o partido contra a oligarquia, a favor da democracia, o partido que não depende do grande capital. Ele precisa voltar a ser o partido dos trabalhadores, como foi na década de 1930, com o ex-presidente americano Franklin D. Roosevelt [1882-1945].

BBC: A palavra “oligarquia” costumava ser usada nos Estados Unidos para descrever mais o que acontece na Rússia ou na Europa oriental, longe da realidade de Washington. Isso está mudando?

Reich: Sim. O uso com tanta clareza do termo “oligarquia” pelo ex-presidente Biden representou um grande avanço para que os americanos possam compreender o que está acontecendo.

A confluência de riqueza e poder nas mãos de muito poucos na cúpula dos Estados Unidos é extremamente perigosa para a democracia. É antiética à democracia.

Ela ocorre na Rússia, na China e em outros lugares. E, se não tiverem cuidado, os europeus também terão cada vez mais riqueza e poder nas mãos de menos pessoas.

Isso não é novidade. Na verdade, no final do século 19, tínhamos uma oligarquia nos Estados Unidos, com enorme riqueza e poder nas mãos de muito poucas pessoas.

Ela foi chamada de “Idade Dourada” e os detentores deste tipo de riqueza e poder eram chamados de “barões ladrões”.

No final deste período, na década de 1920, o grande jurista da Suprema Corte Louis Brandeis [1856-1941] declarou aos Estados Unidos, com muita clareza, algo que é igualmente relevante hoje em dia:

“Precisamos escolher. Podemos ter riqueza nas mãos de alguns poucos ou podemos ter democracia. Mas não podemos ter as duas coisas.”

Pix por aproximação facilita pagamentos e aquece a economia

Os brasileiros começaram a acessar, nesta sexta-feira (28), uma nova forma de pagamento digital: o Pix por aproximação. Regulamentada pelo Banco Central, essa funcionalidade permite que os consumidores realizem pagamentos apenas aproximando o celular da máquina do lojista, sem a necessidade de acessar o aplicativo do banco ou digitar dados manualmente.

O novo modelo de pagamento chega para oferecer mais praticidade e rapidez nas transações, funcionando de maneira semelhante aos cartões de crédito e débito com tecnologia NFC, que permite a dois dispositivos trocarem informações sem fio. O Pix por aproximação pode ser integrado a carteiras digitais, permitindo pagamentos diretos, sem a necessidade de abrir o aplicativo bancário.

Neste primeiro momento, a nova modalidade estará disponível apenas para dispositivos Android que possuam o aplicativo Google Pay, uma vez que as carteiras digitais da Apple Pay e Samsung Pay ainda não estão registradas no Banco Central. O Google Pay já recebeu autorização para intermediar pagamentos via Pix por aproximação, e há a expectativa de que, futuramente, o sistema seja expandido para os demais aplicativos.

Para ativar a funcionalidade, os usuários precisam vincular sua conta bancária à carteira digital, processo semelhante ao cadastro de cartões de crédito e débito nesses aplicativos. Atualmente, os pagamentos via Pix são feitos, principalmente, por QR Code, exigindo que o comerciante gere um código para que o cliente escaneie com a câmera do celular e confirme a transação.

Com a nova tecnologia, o processo se torna ainda mais ágil: basta abrir o aplicativo do banco, selecionar a opção de Pix por aproximação e encostar o celular na maquininha para concluir o pagamento. Quando vinculado a uma carteira digital, a transação pode ser feita diretamente pelo sistema do Google Pay.

O Banco Central definiu um limite padrão de R$ 500 para pagamentos via Pix por aproximação. No entanto, os usuários terão a opção de personalizar esse valor, ajustando os limites por transação ou por dia, conforme sua necessidade e nível de segurança desejado. A novidade representa mais um passo na digitalização dos meios de pagamento no Brasil e reforça

o sucesso do Pix, que desde seu lançamento, em 2020, tornou-se o método de transferência mais utilizado no país. Com a expansão da tecnologia, espera-se um aumento na adesão do sistema e maior comodidade para consumidores e lojistas.

Segundo Hugo Garbe, professor de Ciências Econômicas da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), o grande diferencial do Pix por aproximação é a agilidade. “Hoje, para fazer um Pix, o usuário precisa abrir o aplicativo do banco, autenticar a transação e escanear um QR Code ou digitar a chave Pix do destinatário. Com a nova tecnologia, esse processo passa a ser instantâneo: basta aproximar o celular da maquininha e a transação será concluída automaticamente”, disse.

De acordo com Garbe, para os comerciantes, essa mudança representa uma redução no tempo de pagamento, “o que melhora o fluxo de atendimento, especialmente, em estabelecimentos com grande volume de clientes, como supermercados e restaurantes. Além disso, a diminuição do uso de dinheiro físico aumenta a segurança dos lojistas e reduz os custos operacionais com transporte e armazenamento de cédulas”, comenta.

“A chegada da aproximação no Pix traz impactos positivos tanto para os consumidores quanto para o mercado financeiro. Com transações mais simples e rápidas, há um incentivo ao consumo, o que pode aquecer o varejo e o setor de serviços”, explicou o professor de Ciências Econômicas.

Lula convida Gleisi para assumir ministério responsável pela articulação política do governo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) convidou nesta sexta-feira (28) a deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR) para assumir o cargo de ministra da Secretaria de Relações Institucionais (SRI) – pasta responsável pela articulação política do governo.

Atual presidente do PT, Gleisi vai substituir Alexandre Padilha, que assumirá o Ministério da Saúde. A posse de Gleisi está marcada para 10 de março.

Perfil

Presidente do PT desde 2017, Gleisi Hoffmann dirigiu o partido em um dos momentos mais delicados dos seus 45 anos de história, durante o avanço da Operação Lava Jato, o impeachment de Dilma Rousseff, a vitória de Jair Bolsonaro e os 580 dias de prisão de Lula.

Deputada federal (PR), Gleisi teve papel importante na campanha de 2022, porém o presidente optou por deixá-la no comando do PT. Nos últimos dois anos, a parlamentar foi ouvida com frequência por Lula antes de decisões importantes.

O presidente costurou a nomeação de Gleisi como ministra junto com a sucessão do PT, que neste ano escolhe um novo comando. Com Gleisi, Lula coloca no governo um nome com posições mais a esquerda e crítico da agenda do mercado financeiro.

A gestão no PT e a trajetória de Gleisi fazem com que ela seja um dos nomes mais respeitados pelos filiados do partido. Antes de presidir a legenda, ela foi senadora entre 2011 e 2018. A parlamentar se licenciou do mandato de 2011 a 2014 para exercer o cargo de ministra da Casa Civil no primeiro mandato de Dilma.

Gleisi iniciou a trajetória política no movimento estudantil no Paraná, formou-se em Direito, atuou como secretária estadual em Mato Grosso do Sul e foi secretária de Gestão Pública em Londrina. Também foi diretora financeira da Itaipu Binacional.

Análise: rejeição de Lula alavanca candidatura de Tarcísio

Engana-se quem vê o ex-presidente Jair Bolsonaro como a sombra que ofusca o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O maior concorrente do petista é o Lula do segundo mandato. Esse é o preço de uma campanha eleitoral para voltar ao poder sem um programa de metas de acordo com a nova realidade e calcado no resgate de sua gestão anterior. A “reconstrução” do slogan do governo, em tese, uma crítica ao desmonte das políticas sociais pelo governo Bolsonaro, tem como mensagem subliminar exatamente isso, a volta ao passado de 2010, o que é impossível 15 anos depois.

Lula está na situação do Príncipe que já não pode contar com a Fortuna, um contexto histórico favorável, e depende apenas de suas próprias virtudes para se manter no poder, como diria o velho e indispensável Nicolau Maquiavel. A conjuntura é completamente adversa, esgotou-se a possibilidade de navegar num ambiente econômico de expansão da globalização e de mudanças demográficas favoráveis (a ampliação do número de pessoas com renda própria nas famílias). Mas ainda há a soberba reinante na “jaula de cristal” do Palácio do Planalto: “Tem gente que só vem aqui para nos ensinar a governar”.

A avaliação do governo Lula, que está com rejeição de 41% e 24%, de aprovação (Datafolha), contrasta fortemente com a dos governadores dos estados pesquisados pela Genial/Quaest, entre 19 e 23 de fevereiro, que estão com 60% de aprovação, em média. Alguns deles são candidatos declarados às eleições presidenciais de 2026. Casos do governador de Minas, Romeu Zema (Novo); de Goiás, Ronaldo Caiado (União); e do Paraná, Ratinho Junior (PSD), todos em segundo mandato. Eduardo Leite (PSDB) perdeu o bonde e deve se candidatar ao Senado.

Caiado obteve os melhores números da pesquisa. Seu governo é aprovado por 86% dos entrevistados, enquanto apenas 9% desaprovam sua gestão. Mais antigo adversário de Lula nas eleições de 2026, pois também concorreu à Presidência em 1989, a candidatura de Caiado é irreversível. Com o agronegócio, do qual o governador goiano é um líder histórico, seu estado se tornou um eixo dinâmico da nossa economia do sertão. Caiado tem 74% de avaliações positivas, contra 17% de regulares e 4% de negativas.

No Paraná, Ratinho Júnior também tem ampla aceitação, com 81% de aprovação e apenas 14% de rejeição. Na avaliação qualitativa de desempenho, ele aparece com 65% de avaliações positivas, 24% de regulares e 6% de negativas. É candidato à Presidência pelo PSD, apesar das resistências do seu chefe político, Gilberto Kassab, que lhe promete a legenda, mas não o apoio unificado do partido.

Zema é outro adversário de Lula em 2026. No segundo colégio eleitoral do país, aparece com 62% de aprovação. A desaprovação está em 30%. Na avaliação qualitativa, ele apresenta um quadro semelhante, com 41% de avaliações positivas, 37% regulares e 14% negativas. Apesar de estar no segundo mandato, o governador mineiro manteve um perfil de candidato antissistema, com narrativas disruptivas em relação à política tradicional. Veste o figurino do mineiro do interior, que tem como maior sofisticação a simplicidade nata e carrega nos diminutivos.

Mas o fantasma que ronda o Palácio do Planalto é a candidatura de Tarcísio de Freitas, que tem 61% de aprovação. A desaprovação do governador paulista é de apenas 28%. Na avaliação qualitativa, Tarcísio tem 41% de avaliações positivas, 34% de regulares e 14% de negativas. Seu chefe da Casa Civil, Kassab, defende sua candidatura à reeleição ao Palácio dos Bandeirantes, mas as pressões da elite paulista, principalmente do agronegócio e do mercado financeiro, a chamada Faria Lima, é para que concorra à Presidência. A queda de popularidade de Lula alavanca essa candidatura. Se Lula não concorrer à reeleição, a pressão aí será irresistível.

Nesta quinta-feira, Lula e Tarcísio estiveram juntos no lançamento da obra do túnel submerso Santos-Guarujá e trocaram elogios recíprocos à convivência administrativa. Alguns fatores levam Tarcísio a priorizar a reeleição ao governo paulista: a possibilidade de vencer já no primeiro turno, um governo com recursos bilionários para investimentos no seu segundo mandato e o risco de cair do cavalo, como ocorreu com outros governadores paulistas: Orestes Quércia (MDB), José Serra e Geraldo Alckmin (PSDB). O caso de João Doria (PSDB) é um ponto fora da curva; remover sua candidatura foi um surto suicida dos tucanos paulistas.

Nada disso, porém, é o verdadeiro obstáculo à candidatura de Tarcísio. O que realmente a impede é a dificuldade de remover os demais concorrentes e unificar o centro político contra Lula. Nesse cenário de dispersão, o ex-presidente Jair Bolsonaro pode levar seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro, ao segundo turno. Por essa razão, as forças que apoiaram a reeleição do prefeito Ricardo Nunes (MDB) trabalham para reproduzir seu arco de alianças em níveis nacional e regional. Como? Com Nunes candidato ao Palácio dos Bandeirantes e a entrega da prefeitura ao vice, coronel da Polícia Militar paulista Mello Araujo, homem de Bolsonaro. Eduardo Bolsonaro seria candidato ao Senado e Tarcísio disputaria a Presidência com apoio de Bolsonaro.

Retomada da exigência de vistos e falta de comunicação do governo preocupa setor do Turismo, aponta FecomercioSP

Retomada da exigência de vistos e falta de comunicação do governo preocupa setor do Turismo, aponta FecomercioSP (Os negócios são afetados diretamente pela obrigatoriedade do visto, já que a facilidade de entrada é um fator determinante para a realização de eventos e feiras internacionais. (Foto: Maksym Yemelyanov))

A retomada da exigência de vistos para cidadãos portadores de passaportes dos Estados Unidos, Canadá e Austrália contrasta com a estratégia de fortalecimento do setor de Turismo brasileiro. A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), que é contra a medida, ressalta que essa política pode gerar impactos negativos para a competitividade do setor, principalmente em relação aos demais países sul-americanos. A Entidade tem se mobilizado pela revogação da decisão e pede uma orientação clara do governo para não prejudicar o ambiente de negócios do setor.

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De acordo com a análise da Federação, com base nos dados do Passport Index, a maioria dos países da região adota uma política de isenção de vistos para os três referidos países, permitindo estadias entre 90 e 180 dias. A única exceção é na relação entre Chile e Austrália [tabela 1].

Comparação de destinos e passaporte (Foto: Passport Index)

Os negócios são afetados diretamente pela obrigatoriedade do visto, já que a facilidade de entrada é um fator determinante para a realização de eventos e feiras internacionais. Com essa burocracia, a atratividade nacional será reduzida como destino para esses eventos — especialmente em comparação com países como a Colômbia, que oferecem incentivos adicionais.

Assim como exigir o visto da tripulação aérea, contrariando o decreto de 1995 que segue uma convenção internacional de aviação, que compromete a operação das companhias estrangeiras. Caso o visto seja obrigatório para a substituição dos tripulantes, corre-se o risco de cancelamentos de voos para o País.

O custo adicional para a obtenção do visto deve refletir na escolha dos visitantes também. O valor estimado será de aproximadamente US$ 80 por pessoa. No caso de uma família formada por quatro pessoas, o custo ultrapassaria US$ 300 — valor que poderia ser investido em diárias de hotéis ou resorts em destinos concorrentes que não exijam visto.

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Além disso, a FecomercioSP demonstra preocupação com a falta de clareza do governo federal quanto às diretrizes voltadas para os visitantes e os agentes do Turismo, o que compromete a plena eficiência dos serviços e pode ocasionar transtornos, principalmente para os visitantes estrangeiros que precisam do visto brasileiro.

Impactos pelo mundo

Com a posse do presidente Donald Trump nos Estados Unidos, o argumento de utilizar as mesmas medidas vem crescendo. No entanto, há um desequilíbrio na relação de fluxo de turistas. Segundo dados da Embratur, em 2023, ingressaram no Brasil 668,5 mil turistas norte-americanos, enquanto 1,63 milhão de brasileiros viajaram para os Estados Unidos, de acordo com o painel do governo norte-americano (NTTO) — fluxo quase 2,5 vezes maior no sentido inverso, apontando a desvantagem competitiva para o Turismo nacional, que deve ser avaliada da perspectiva econômica.

Cálculos da FecomercioSP com base nos dados da Embratur indicam que, no primeiro semestre de 2023, a entrada de turistas dos três países em questão totalizou 433,1 mil, um crescimento de 8% em relação ao ano anterior. No período de julho a novembro, dado mais recente disponível, o aumento foi de 9,4% [tabela 2].

Entrada de Turistas no país (Elaboração e Cálculos: FecomercioSP)

Exemplo recente do quanto a exigência de visto pode ser danosa ao Turismo vem do México. Segundo o portal Expansión, a introdução do visto para brasileiros no país, em 2022, resultou na perda de quase 60 mil turistas em apenas cinco meses. Como consequência da exigência, o Brasil deixou, pela primeira vez em uma década, o ranking dos dez maiores emissores de viajantes para o México.

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Além disso, a exigência da autorização pode afetar diretamente o setor em regiões fronteiriças. Os turistas que visitam as Cataratas do Iguaçu, por exemplo, poderão ser impedidos de cruzar a fronteira para o lado brasileiro se não tiverem o visto necessário, o que representa uma perda potencial de visitantes e de receita para o Comércio e os Serviços locais.

Diante desse cenário, a FecomercioSP reforça a necessidade de uma orientação clara por parte do governo federal sobre a reintrodução da exigência e recomenda a manutenção da isenção de vistos. Caso a medida não seja revista, a Entidade seguirá mobilizada para a aprovação do Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 140/23 no Congresso Nacional, que busca revogar a exigência. Garantir a competitividade do Turismo brasileiro, alinhar as melhores práticas internacionais e incentivar o crescimento econômico mediante a atração de turistas estrangeiros são prioridades fundamentais para o desenvolvimento do setor.

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Rio terá grande biblioteca na região portuária, anuncia Eduardo Paes

No ano em que o Rio será a Capital Mundial do livro, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, anuncia o lançamento de um concurso internacional para a construção de uma grande biblioteca pública na região portuária do Rio, que vai ser um pouco biblioteca pública e arquivo geral do município.

– A gente quer criar mais um ícone na região do centro, criar mais um símbolo importante para aquela região.

O prefeito diz que, no próximo ano, vai provocar as escolas de samba que façam enredos sobre a literatura internacional e nacional. Ainda sobre o carnaval, Paes vê com bons olhos que a Sapucaí tenha mais um dia de desfiles e diz que o ideal é que o carnaval seja sustentável do ponto de vista financeiro.

Confira a entrevista:

Miriam: O presidente do seu partido, Gilberto Kassab, critica o governo, disse que o ministro Fernando Haddad é fraco e não faz as coisas andarem e que o presidente Lula vai perder a eleição em 2026. O que o senhor acha da opinião do presidente do seu partido?

Paes: Eu estou naquela fase da vida, que eu estou focado aqui na prefeitura. Então eu tô fugindo de…

Está fugindo da pergunta também.

É, também. Mas (fugindo de) interpretar um pouco essas coisas da política nacional. Porque, enfim, eu acho que estamos muito longe da eleição ainda. Eu tenho acompanhado a queda de popularidade do Lula. Mas eu acho que tem um sentimento de pânico geral. Tem um ano e meio até a eleição, para começar o processo eleitoral. Acho que a população não está ligada ainda em eleição, não está nem conectada que vai ter eleição em 2026. Acho que isso é um pouco do debate da política mesmo.

Não conversei com Kassab sobre o tema, provavelmente ele já tinha tido acesso a alguma pesquisa antes do grande público, para saber que estava havendo uma queda de popularidade por esse ou por aquele motivo. Te confesso que a minha relação com o presidente Lula é de muita objetividade, de muita ajuda ao Rio de Janeiro.

Acho que o presidente Lula é um dos poucos políticos nacionais que tem clareza do papel que o Rio pode cumprir para o Brasil, essa face internacional que o Rio tem. Ele ajuda muito o Rio. A escolha do Rio como a sede do Brics é uma decisão política. Fiz o G20 no Rio de Janeiro, vou fazer o Brics no Rio de Janeiro. Agora eu estou pleiteando a história de capital honorária.

É simbólico, mas é importante para um lugar que foi retirado como capital do Brasil sem nenhum tipo de compensação. E depois há a fusão feita pela ditadura militar, de uma maneira abrupta, sem nenhum tipo de olhar. Não estou querendo que a capital venha de Brasília, mas é uma espécie de reconhecimento simbólico que se dá muito mais nesse gestual.

Não tem nenhum efeito concreto, exceto a imagem?

Concreto não, mas ele tem um valor simbólico e que claro que pode abrir para outras oportunidades. Hoje o Lula é o presidente, amanhã vai ter outro presidente….

Queria voltar num ponto, sua opinião sobre o ministro Haddad. Você vê o ministro sem capacidade de realização?

Posso falar aqui pela minha realidade na cidade do Rio de Janeiro. O desemprego diminuiu, a economia cresceu, a arrecadação da prefeitura aumentou e voltamos a ter acesso a crédito. A prefeitura tem a lei de responsabilidade fiscal, que estabelece 120% de capacidade de endividamento sobre as receitas correntes líquidas. Nós estamos em 40%, é baixíssimo o endividamento do município. E até pouco tempo atrás a gente não conseguia contrair dívida. Agora eu busco financiamento, reformei todos os BRTs, estou fazendo o corredor do Anel Viário ali na Zona Oeste e Campo Grande, ou seja, eu tenho que olhar sobre essa perspectiva do município.

E eu também, vou meter aqui numa seara que não sou especialista, Mas eu vejo muito a fala do mercado, que o dólar subiu muito porque o Lula não fez o ajuste fiscal que o mercado desejava. O ajuste fiscal não veio e o dólar está caindo. Da minha realidade aqui de prefeito, o que eu tenho tido no ministro Haddad, é um grande parceiro.

O índice de desemprego chegou em determinado momento a 15%, 16%, e que baixou agora enormemente, voltamos a uma posição adequada, que o Rio sempre ocupou nas regiões metropolitanas brasileiras, sob a minha perspectiva Estamos avançando, a pobreza diminuiu. Não tenho aqui a capacidade de fazer uma análise no longo prazo. Isso é um voo de galinha ou não é um voo de galinha.

Vamos pensar no carnaval. O carnaval esse ano vai ser três dias de desfile do Grupo Especial. Não é demais? Não vai cansar a cidade?

Eu vou ficar cansado, certamente. Eu acho que a cidade celebra. Primeiro, o carnaval ficou comprovado esse ano, inclusive no caso da Sapucaí, que ele é um ciclo de mais de um mês. Primeiro tem os blocos oficiais que já estão há um mês na rua. Aí tem o tal do carnaval que não é oficial, que todo mundo sabe que tem, que a gente tem que ficar atrás dos blocos que se recusam a informar onde vão desfilar.

Depois os ensaios técnicos esse ano na Sapucaí, que foram um enorme sucesso:120 mil pessoas acompanhando as escolas de graça. Isso é uma super oportunidade. E tem uma modelagem interessante que a Liesa está propondo, que é olhar essa história mesmo do Business Carnaval. É uma manifestação cultural incrível, com tudo aquilo que a gente sabe que as escolas de samba transmitem na Sapucaí, mas isso representa uma atividade econômica importante para a cidade.

Então, três dias é mais turista, é mais tempo do turista gastando, é mais oportunidade de vender ingresso. O meu sonho, e acho que a Liesa começa a caminhar nessa direção, é o seguinte: o ideal é possível que o carnaval seja sustentável, só do ponto de vista financeiro. se tenha mais a necessidade do subsídio público para o carnaval.

Na hora que ganha os direitos de TV, na hora que vende, eles organizaram essa coisa de cervejas nos camarotes. Tudo é mais dinheiro para as escolas, que precisam de melhores condições e vão passar a depender menos dos patronos.

Podemos transformar essa atividade cultural e social tão importante que são as escolas de samba em uma atividade sustentável economicamente. Eu acho que é isso que a Liesa está buscando nesse momento. Eu acho que é uma bela iniciativa. Eu estou preocupado com a minha saúde física (risos).

Como é que você vai acompanhar?

Vou nos dois dias do grupo de acesso e depois são três dias de Especial. Antes eram dois dois dias para descansar, terça e quarta, agora só tem a quarta-feira de cinzas. Mas a gente vai com fé.

Esse ano vai ter muito evento, o que é a Capital Mundial do livro? O que vai significar isso na prática para quem mora aqui?

Primeiro, tem um aspecto cultural importante, temos que ampliar cada vez mais a cultura da leitura. O Rio é uma cidade marcada em todas as suas esquinas por nomes incríveis da literatura brasileira. Você tem aqui a sede da Academia Brasileira de Letras.

Dia 23 de abril, dia de São Jorge, é o dia que o Rio oficialmente vira a capital mundial do livro. Vamos fazer um grande lançamento, a Academia Brasileira de Letras está nos ajudando nisso. Estamos montando uma programação que está quase concluída, e vai ter muita coisa acontecendo pela cidade. Queremos criar bibliotecas nos BRTs. Vai ter uma estante, e pode-se fazer a troca gratuitamente. Muita parceria com a Biblioteca Nacional, com o Arquivo Nacional e com a Academia Brasileira de Letras.

Queremos provocar as escolas de samba do ano que vem. A gente nunca obriga, mas induz. Vamos tratar da literatura mundial, claro, puxando para a literatura brasileira. Então, um pouco esse esforço de trazer essa cultura e, claro, fortalecer na base. Nós temos quase 700 mil crianças nas nossas escolas.?

Temos uma novidade que eu não contei ainda: vamos lançar um concurso internacional para a construção de uma grande biblioteca pública na região portuária do Rio, que vai ser um pouco biblioteca pública e arquivo geral do município. E essa biblioteca é mais um ícone, a gente quer fazer na região do centro, criar mais um ícone, mais um símbolo importante para aquela região.

Durante a campanha falou-se muito de guarda municipal armada, que era a proposta do seu adversário, Alexandre Ramagem. E agora você tem defendido uma força policial armada. Eu queria entender isso. É outra força? É a atual guarda armada? É uma outra força? Como é que você pretende viabilizar isso?

Primeiro, esse tema passou a ser o tema prioritário da população brasileira e, no caso do Rio de Janeiro, muito mais.

Aliás, hoje a pesquisa da Quaest já aponta o Rio de Janeiro como 71% achando que a segurança é o grande problema do país.

Você tem vantagens de ser prefeito tetra, o que me dá muito orgulho. Na minha primeira eleição, o grande tema era a saúde. Na minha segunda eleição, o grande tema era saúde de novo. Na minha terceira eleição, o grande tema era transporte.

Já na eleição do ano passado, o grande tema era segurança. E os municípios sempre tiveram um papel muito tímido no campo da segurança pública. Então você tem uma série de fatores, e o principal, certamente, é a decisão do Supremo Tribunal Federal, que foi consolidada recentemente, mas que ela já vinha sendo a vitória da possibilidade de municípios fazerem o patrulhamento ostensivo, preventivo, comunitário nas ruas da cidade.

E no caso do Rio, óbvio que vai ter que haver uma integração com as forças policiais do Estado, mas a falência da política de segurança pública do Estado faz com que esse tema seja mais premente ainda. Eu estou assumindo a presidência da Frente Nacional de Prefeitos por um motivo só. É claro que você tem que defender o municipalismo, o papel que as prefeituras têm a cumprir no Brasil, mas o tema da segurança é cada vez mais cobrado dos governos locais.

O modelo que a gente está tentando implementar aqui no Rio, eu vou dar um exemplo aqui. Ele não vai resolver o problema do Complexo de Israel, este tipo de combate, às organizações criminosas, milícias, narcotraficantes.

Vou dar um exemplo. Ontem viralizou na internet, um assalto, uma senhora de bicicleta no parque do Flamengo foi cercada com os bandidos tentando roubar a bicicleta dela. Esse é o típico caso que a Força Municipal pode ajudar.

Não vai enfrentar o problema da milícia, da ocupação territorial, das barreiras que fazem isso. Vai continuar sendo o papel da polícia militar, da polícia civil, que é a polícia investigativa, a polícia judiciária, que cumpre esse papel. Essa integração vai ser muito importante e imaginamos também poder liberar as forças policiais tradicionais, Polícia Militar, Polícia Civil, para o seu papel mais de combate ao crime organizado.

Mas você está falando da Guarda Municipal ou você está falando de uma outra força armada?

Na lei orgânica do município do Rio, está determinado que o município poderá criar guardas municipais a diferentes tempos. Nós temos uma guarda municipal que não foi treinada, não tem a cultura, seus concursos públicos não foram com a cultura dos armas. Não estou a fim de criar mais uma força que seja suscetível a virar milícia no Rio de Janeiro.

Por exemplo, criamos essa força municipal, permitirmos o ingresso de guardas municipais, vai ter um processo seletivo, ele chegando nessa força municipal, mantendo ele como servidor estatutário, ele vai ter um treinamento como se ele estivesse entrando nessa força municipal, como se fosse uma coisa nova pra ele. E ali ele vai ter condições diferentes.

São novos contratados para a mesma guarda.

Na verdade, a gente quer fazer uma espécie de concurso público com algumas premissas. Por exemplo, entendemos que tem muita gente que sai deste modelo de militarismo temporário, como CPOR, do exército, mas tem Marinha, aeronáutica. Tem um treinamento, em geral, passaram lá oito anos e que tem todas as condições, claro, com devido processo seletivo, de ser contratado pelo município.

Queremos criar um modelo de policiamento ostensivo, de policiamento comunitário, de policiamento preventivo, que parta da premissa de respeito aos direitos do cidadão, mas também que possa agir com a energia necessária para o combate a essa bandidagem que toma conta das ruas das cidades brasileiras.

Porque é sempre uma confusão. Ficamos sempre naquele negócio, ou é a sociologia excessiva, ou passar a mão na cabeça do delinquente, ou então eu tiro na cabecinha, como se o Estado fosse um assassino. O Estado não pode se comparar a um bandido, por isso o Estado tem o monopólio da força. O Estado pode até, se ameaçado, pode até vir a matar. Mas o papel principal do Estado é deter esse criminoso, prender e levar a julgamento.

O que a gente quer é uma guarda, que seja uma polícia, uma força municipal que seja firme e que possa proteger o cidadão. Agora, tem um desafio. Sabemos que os municípios têm aí atribuição na educação, na saúde, a pressão sobre os municípios é muito grande. Quando vem essa pressão da segurança pública, significa um custo. Vou dar um exemplo concreto. Até o meu mandato passado, eu não subsidiava passagem de ônibus no Rio de Janeiro. Eu criei o subsídio. Hoje, tem lá entubado no orçamento da prefeitura R$ 1,5 bi esse ano para pagar subsídio de ônibus. Na hora que você cria uma força municipal e começa a endereçar o problema da segurança pública, você está colocando mais um custo para os municípios.

Acontece com São Paulo, lá com o Ricardo (Nunes), acontece com João Campos do Recife, acontece com o Jota ali em Maceió. Precisamos discutir isso a nível nacional, porque os municípios cada vez mais estão sendo demandados para prestar serviços que seriam de outros níveis da federação pela proximidade dos prefeitos. E os recursos não são iguais para isso. Esse é o esforço que a gente vai fazer.

No Rio de Janeiro, já há algum tempo, a gente não tem clareza do que é uma política de segurança pública. Nós temos, hoje, nesse momento, três secretarias cuidando do tema. Uma decisão do Supremo, que eu já manifestei contrária, a ADPF…

Mas como proteger o alvo de sempre? O meu medo é criar mais uma força policial ou botar mais policiais na rua que vão atirar contra uma pessoa negra, como já acabou de acontecer agora na Penha com o Igor e o Tiago. O Igor é estudante, ele quer ser jornalista e está agora lutando pela vida num hospital. Sendo inocente, foi acusado. Como evitar a propagação desse problema que o Brasil tem, dessa tragédia que o Brasil tem, que é matar jovens negros.

Por isso, talvez esteja aí a explicação da gente não sair: “vamos armar toda a Guarda Municipal, pegar 7.500 homens que não foram treinados, nem fizeram concurso para andar armado, daqui a pouco vamos armar essa turma toda.”

Temos que entender que o Estado precisa agir, precisa ser duro, precisa ser firme no combate à violência, mas que isso tem que ser feito dentro da legalidade. Quando você olha para essa história da ADPF, eu conversei isso com vários ministros.

Você era a favor e ficou contra isso? A decisão do o ministro Edson Fachin

Não, sempre fui contra. Se você olhar a decisão do ministro Fachin, não diz nada demais ali. Manda cumprir a lei. Respeite a lei.

Agora, tem um problema na origem da narrativa. Porque, na minha opinião, não é papel do Supremo, e eu conversei isso com o ministro do Supremo, com todo o respeito, como é que o Supremo vai ficar controlando, dando um manual de procedimentos para polícia? Existem caminhos para esse controle da legalidade, não é papel do Supremo. E o pior dessa ADPF é que ela virou uma desculpa para não se fazer nada no Rio de Janeiro.

A incompetência da política de segurança pública do atual governo, ela é justificada pela ADPF, que é uma mentira. Eu vou dar um exemplo. As pessoas conhecem muito pouco o Rio de Janeiro. Dizem, a comunidade de Brás de Pina. Brás de Pina é um bairro, Parada de Lucas é um bairro. Cordovil é um bairro. Cidade Alta é um bairro. Todos com ruas e serviços públicos. Então não tem desculpa nenhuma, até porque a ADPF supostamente só incide sobre comunidade, para ter um sujeito lá que vira dono do chamado complexo de Israel. Sabe o que falta? Autoridade. Vergonha na cara. E quando falta autoridade, quando falta política clara, é que esses agentes da lei, que não são conduzidos da forma adequada, sem autoridade adequada, acabam cometendo esses absurdos.

Quando eu vejo você falando com esse ânimo todo sobre uma questão que é uma questão principalmente estadual, eu vejo aí um candidato a governador do Rio de Janeiro em 2026. É isso?

Olha só, eu não vou deixar de tratar dos temas da minha cidade Eu disse que eu não vou ser candidato a governador. Eu acho que é uma agonia do cidadão carioca E isso ficou muito claro na eleição de 2024. Covardemente, os meus adversários, que aliás estão governando o estado do Rio de Janeiro e implementando essa política de segurança há seis, sete anos, tentavam imputar a mim os problemas na segurança pública do Rio de Janeiro. Barreiras, barricadas, Complexo de Israel, esses absurdos que estão acontecendo no Rio de Janeiro.

E a gente fez esse debate de maneira muito franca, e óbvio, há a decisão do Supremo a possibilidade do prefeito passar a ter uma postura mais ativa nesse tema e ter os instrumentos para enfrentar.

Agora, de novo, a gente tem que dizer claramente para a população o que é que um prefeito vai poder fazer e o que é que um prefeito não vai poder fazer. Portanto, o Complexo de Israel é, para mim, o menor exemplo, porque ele ficou famoso. Tem tantas áreas da cidade piores.

Outro dia eu fui a Senador Camará, e na Estrada do Taquaral em cada extremidade tem uma cancela com pneus para queimar. Eu nunca vi coisa igual. E olha que eu ando pelas ruas do Rio de Janeiro desde que eu sou subprefeito, fui subprefeito do bairro Jacarepaguá, há exatos 33 anos. Nunca vi isso.Ando em Senador Camará há 30 anos. Nunca vi isso acontecendo. E não é uma comunidade.

A ADPF não incide ali. Portanto, o que eu tenho alertado os ministros do Supremo, é que é um tema errado. Deleguem isso para o controle da legalidade, a justiça do Rio de Janeiro, a polícia federal. Porque é impossível a partir de uma visão de Brasília, sem conhecer essa realidade, estabelecer esses procedimentos e respeitar a lei é a obrigação do Estado. Estamos sendo redundante e, de novo, dando narrativa para a incompetência de uma gestão política de segurança pública que não existe.

Há projetos imobiliários e arquitetônicos que estão incomodando muita gente, porque implicam em derrubada de árvores no Jardim de Alah e também no Alto Gávea. E eu quero que você me explique o seguinte, tem mesmo que derrubar árvores para fazer esse projeto arquitetônico, este projeto imobiliário? Ou não é para fazer projeto imobiliário da Gávea? Como é que você está vendo essas pressões que estão na cidade, estão nas placas, estão nas redes sociais?

Primeiro, toda essa avaliação de quando se autoriza uma derrubada de árvore, toda vez que se faz construir algo novo, em geral, aquele espaço é ocupado por algum tipo de vegetação. Quando a vegetação não é uma vegetação nativa, ela já estranha aquele ambiente, como é o caso do Jardim de Alah, você autoriza e você tem sempre a medida compensatória.

Em média, para cada árvore que você retira, você tem que plantar oito, nove, sei lá, um número mais ou menos assim. Então o projeto do Jardim de Alah é um projeto para melhorar aquele espaço, ele cria a partir de uma sustentabilidade econômica, acho que por isso que a gente conseguiu fazer aquilo ali em PPP, você permite tirar árvores que não são naturais daquela região. Você vai plantar novas árvores e eu tenho certeza que a natureza vai melhorar muito no jardim de Alah.

Nesse caso da Gávea eu não conheço o detalhe, mas volta e meia, outro dia a gente teve um empreendimento na Tijuca, numa área que estava lá verde. É óbvio que se eu moro num lugar, tem um terreno particular que não foi construído ainda, eu não quero que construa nada na frente, mas tem um direito a construir ali e a legislação prevê que você possa fazer isso, desde que você oferte o que a gente chama de medida compensatória.

Você está tirando a árvore, você vai plantar em outros lugares, vai ter uma medida compensatória, às vezes pagamento de algum recurso, de dinheiro, para que possa compensar aquilo. É um pouco dos conflitos da vida urbana. Eu acho que o Jardim de Alah é um desafio muito antigo, muito antigo do Rio de Janeiro. Ele fica ali numa região fantástica da cidade, entre os dois bairros mais valorizados do Rio de Janeiro, com a Lagoa de um lado e a praia do Leblon de Ipanema do outro. A gente nunca conseguiu dar uma utilização àquilo. O projeto fez uma concorrência pública, uma chamada pública. O projeto é um projeto muito suave, de muita qualidade. Não é fazer um shopping ali, as pessoas tentam passar ideia. O shopping já tem ali, o shopping Leblon. Você vai fazer um espaço de utilização daquele equipamento com mais qualidade.

Você acabou de voltar de Davos, parece que é um momento em que as questões ambientais estão em retrocesso, dado o governo americano ou todo o comportamento até de empresas. Lá em Davos, você sentiu que a questão climática e ambiental continua forte?

Não. Eu acho que não. Apesar de eu ter participado de uma mesa com o governador Helder que tratava da questão da COP em Belém. Eu presido ainda uma comissão com o Jeffrey Sachs e com a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, em que a gente busca cada vez mais como é que você financia cidades, governos locais para tratar das questões das mudanças climáticas. Porque quem é que vai salvar os Estados Unidos nesse novo governo Trump? Serão de novo os prefeitos, como aconteceu no passado. Então você vai ter uma mudança na leitura, na política do governo central americano, mas os governos locais, uma quantidade enorme de prefeitos, eu já fui presidente do C40, continuam endereçando esses temas. Como é que a gente eletrifica a frota de transporte das cidades, como é que se aumenta áreas verdes nas cidades, como é que você destina de maneira mais adequada os resíduos sólidos.

Venho defendendo isso há muito tempo, se fica menos dependente dessas pressões dos governos nacionais e centrais, mas eu acho que você tem toda a razão, o tema está muito menos chamando muito menos atenção do que no passado.

(Com Ana Carolina Diniz)

O que muda no saque do FTGS e no novo consignado para CLT

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está prestes a adotar duas medidas com impacto direto no bolso dos trabalhadores, em um momento que tenta reverter sua queda de popularidade.

A primeira delas poderá injetar R$ 12 bilhões na economia ao destravar o acesso ao Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) de pessoas demitidas desde 2020 que haviam aderido ao saque-aniversário — modalidade que permite sacar anualmente parte do fundo, mas que bloqueia o acesso ao dinheiro no momento da demissão por dois anos.

A previsão é que uma medida provisória para liberar esses recursos seja publicada na sexta-feira (28/2), de acordo com o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho (PT).

A segunda medida será a ampliação do crédito consignado para trabalhadores com carteira assinada — um tipo de empréstimo a juros menores.

Segundo o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), a medida provisória com essa novidade sairá depois do Carnaval.

As duas iniciativas são vistas como forma de colocar mais dinheiro na mão dos trabalhadores e movimentar a economia, embora economistas apontem também riscos potenciais de aumento da inflação e endividamento das famílias.

Para o professor de finanças Rafael Schiozer, da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP), a ampliação do crédito consignado será especialmente positiva se levar à troca de dívidas mais caras por financiamentos mais barato, ajudando as famílias a reduzirem seu endividamento.

Por outro lado, afirma Schiozer, se a facilitação ao acesso ao consignado acabar seduzindo o trabalhador a se endividar mais para consumir no curto prazo, o impacto pode ser negativo ao comprometer sua renda mensal no futuro.

Ele também vê possível impacto na inflação com o aquecimento do consumo, o que pode dificultar o trabalho do Banco Central de conter a alta dos preços por meio do aumento da taxa de juros.

Ainda assim, Schiozer não considera que isso deveria barrar as mudanças.

“O governo não deveria deixar de avançar em reformas microeconômicas positivas [como opções de crédito mais baratas] porque estamos em um momento macroeconômico difícil”, afirma.

A economista Gabriela Chaves, fundadora da plataforma de educação financeira NoFront, considera “natural” que o trabalhador tenha acesso ao FGTS em momentos de perda de poder de compra, com a disparada de preços de alimentos.

Segundo pesquisa da Confederação Nacional do Comércio realizada em dezembro, quase 77% das famílias brasileiras têm alguma dívida.

“Existe uma tendência de aumento do endividamento que me preocupa. O crédito é uma solução de curto prazo para um problema bastante complexo”, alerta.

“Enquanto as pessoas não tiverem aumento do poder de compra, elas vão precisar recorrer ao crédito para questões básicas como o supermercado e alimentação. O governo precisa pensar em políticas de aumento do poder de compra.”

Segundo especialistas em inflação de alimentos, as soluções para conter a alta dos preços são de médio e longo prazo, como melhorar a infraestrutura de escoamento e armazenagem da produção agrícola do país e dar mais capacitação a produtores menores.

Pesquisas como Datafolha e Quaest mostram forte queda de popularidade de Lula em 2025

Liberação ‘extraordinária’ do FGTS

O governo Lula diz que a liberação do FGTS vai beneficiar 12,1 milhões de trabalhadores que foram demitidos a partir de 2020 e não tiveram acesso ao fundo porque aderiram à modalidade de saque aniversário.

Essa possibilidade de saque parcial na data de nascimento do trabalhador foi criada no governo de Jair Bolsonaro (PL) — ela permite tanto o saque anual como antecipar valores futuros em operações de crédito cujas parcelas são, depois, descontadas do FGTS.

Por outro lado, o uso dessa modalidade trava o acesso ao FGTS em caso de demissão por dois anos. O trabalhador, nesse caso, só recebe a multa rescisória paga pela empresa, quando há desligamento sem justa causa.

A novidade, porém, só valerá para quem tiver sido demitido até a publicação da medida provisória com as novas regras, prevista para sexta-feira (28/2).

Segundo disse o ministro Luiz Marinho ao jornal O Globo, trata-se de uma medida extraordinária.

A decisão de não tornar a mudança permanente reflete a oposição do setor de construção, já que o FGTS é usado para financiamento imobiliário — ou seja, com mais saques, há menos recurso para financiar a construção de novos empreendimentos.

Entidades como a Associação Brasileira das Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) criticam a possibilidade de saque aniversário e gostariam que ela fosse extinta, mas isso é visto como uma medida impopular.

Já as centrais sindicais criticam o bloqueio ao FGTS na demissão, justamente quando o trabalhador está com mais dificuldades financeiras.

A liberação extraordinária entrará em vigor assim que for publicada a MP pelo governo, mas a previsão é que os recursos travados sejam liberados a partir de março, em até duas parcelas, a depender do volume retido.

Depois, essa MP precisa ser aprovada pelo Congresso em até 120 dias para ter validade definitiva. Mas, durante a tramitação, os parlamentares podem realizar modificações, aprovando regras diferentes da proposta original do governo.

Para Schiozer, não faz sentido travar o saque do trabalhador no momento da demissão, em caso de uso no saque aniversário.

Ele nota que há certa controvérsia sobre a validade do FGTS, já que é uma espécie de poupança forçada do empregado formal.

Por outro lado, ressalta o especialista, estudos internacionais sobre mecanismos similares ao FGTS indicam que há impactos positivos nos momentos de maior vulnerabilidade do trabalhador.

“Não acho contraditório ter as duas opções: que o trabalhador possa sacar parte dessa poupança forçada anualmente e que tenha acesso à [maior parte dessa] poupança quando realmente tem necessidade, que é a razão de ser do FGTS”, avalia Schiozer.

O que deve mudar no consignado para CLT

Haddad diz que ampliação do consigando para trabalhadores CLT será uma ‘revolução’

Outra mudança envolve o crédito consignado, que oferece taxas de juros menores porque representa menos risco para os bancos, já que as parcelas são descontadas direto do salário do devedor.

Atualmente, a modalidade é usada amplamente por servidores públicos e aposentados do INSS.

Já no caso dos trabalhadores formais (CLT), o funcionamento hoje é mais burocrático e acaba dependendo de convênios entre empresas e bancos para facilitá-lo.

A ideia do governo é criar novas regras e mecanismos que permitam que todo trabalhador com carteira assinada tenha acesso mais ágil e fácil a esse crédito.

Em evento em São Paulo na terça-feira (25/2), Haddad disse que a ampliação do consignado será uma “revolução”.

“Temos de folha, de aposentado e servidor público, R$ 100 bilhões. Ele alavanca R$ 600 bilhões de consignado, entre INSS e regime próprio”, destacou Haddad, em conferência organizada pelo banco BTG Pactual, segundo o jornal Estado de S. Paulo.

“No caso do privado celetista, a folha é mais ou menos R$ 100 bilhões, e ele alavanca R$ 40 bilhões. Por quê? Porque não está disponível o mecanismo de garantia, muito burocrático.”

Segundo levantamento do Banco Central junto a 46 instituições financeiras, a taxa de juros cobrada no consignado de trabalhadores privados variou de 21,34% ao ano a 128,35% ao ano em janeiro.

Já a taxa do crédito pessoal não consignado cobrada em 80 bancos variou de 13,98% ao ano a 948,97%, no mesmo período.

Não está claro se a nova modalidade a ser anunciada para o governo terá um limite de juros.

O crédito consignado para aposentados do INSS hoje tem taxa máxima de 1,80% ao mês (24% ao ano), limite fixado pelo Conselho Nacional de Previdência Social.