Em meio à queda de popularidade do governo, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tem sido alvo de críticas que são levadas diretamente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva por colegas de Esplanada.

Como resposta, um grupo de ministros se uniu para contra-atacar e tentar fortalecer o titular da pasta responsável pelos rumos da economia do país. E integrantes do governo afirmam que Lula tem consciência de que Haddad é praticamente insubstituível na Fazenda.

As queixas vêm do chefe da Casa Civil, Rui Costa, e de aliados dele, que veem em medidas da Fazenda algumas das maiores crises vividas pelo governo. Procuradas, as pastas da Fazenda e da Casa Civil não comentaram.

O grupo de ministros que tem atuado para fortalecer Haddad dentro do governo é composto, em sua maioria, por representantes de partidos de centro. A ideia é dar impulso à bandeira da responsabilidade fiscal, defendida pelo titular da Fazenda.

Apoio do setor produtivo

Esse grupo decidiu se unir no fim do ano passado. Um dos que assumiu a missão foi o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, filiado ao partido de Gilberto Kassab, o PSD. O cacique político chegou a chamar Haddad de “fraco” em janeiro — Lula respondeu elogiando o ministro da Fazenda e dizendo que Kassab havia sido injusto.

Também faz parte desse grupo o titular da pasta de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, do Republicanos — legenda do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, apontado como possível adversário de Lula em 2026.

A lista conta ainda com os ministros dos Transportes, Renan Filho, do MDB; da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias; e Alexandre Padilha, que está saindo da pasta de Relações Institucionais para assumir a Saúde.

Padilha é filiado ao PT, e Messias tem vínculos com a legenda, apesar de não ser filiado. Parte da equipe pró-Haddad mantém contato, no dia a dia de suas pastas, com empresários e com o mercado financeiro.

Segundo um dos integrantes do grupo, os ministros têm procurado aproveitar os despachos com Lula para relatar o apoio que Haddad tem no setor produtivo. Pontuam que ações como o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e o Minha Casa, Minha Vida não terão sucesso se o ministro da Fazenda não estiver fortalecido para garantir a estabilidade econômica.

A ala crítica a Haddad, que conta ainda com o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, vincula a queda de popularidade do governo a duas iniciativas do Ministério da Fazenda: a “taxa das blusinhas”, que prevê a aplicação do Imposto de Importação de 20% nas compras de até US$ 50 feitas em plataformas on-line; e a crise a partir do monitoramento de transações financeiras, como o Pix, pela Receita Federal.

Esses cenários foram levados a Lula em uma reunião sem a presença de Haddad na semana passada. Naquela mesma semana, em entrevista ao site Metrópoles, Rui Costa foi questionado se as medidas da Fazenda impactaram a popularidade do governo. Ele respondeu:

— As pesquisas públicas que todos conhecem, que a imprensa divulgou, sinalizam a questão da taxa daqueles aplicativos das plataformas de venda (“a taxa das blusinhas”). A questão da fake news do Pix afetou fortemente. Criou um ambiente de desconfiança.

Na defensiva

No dia a dia, o ministro Fernando Haddad tem alertado o presidente sobre as possíveis consequências quando suas opiniões não são seguidas. Foi o que aconteceu na época do anúncio do pacote fiscal em novembro.

Além de defender um leque mais amplo de medidas, o ministro da Fazenda não queria que os cortes de despesas fossem anunciados junto com a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, como determinou Lula.

‘Grata surpresa’

Em janeiro, Haddad sofreu uma derrota em uma disputa com um novo integrante do governo. Poucos dias depois de assumir o comando da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira convenceu Lula a editar uma MP para revogar a norma da Receita Federal que havia instituído a fiscalização de transações via Pix. Haddad era contra o recuo.

O último ponto de críticas a Haddad no governo foi por causa da suspensão de operações do Plano Safra, na semana passada, já resolvida por medida provisória (MP). Integrantes do Palácio do Planalto avaliam que o episódio evidenciou mais uma falha de comunicação do Ministério da Fazenda.

Mas não é só no governo que Haddad tem aliados. Em entrevista ao GLOBO após assumir como presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB) classificou o ministro da Fazenda de “grata surpresa”:

— A agenda que ele defende é positiva, mas muitas vezes ele fica vencido na decisão política tomada pelos ministros que estão no Palácio e, claro, pelo presidente da República.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *