Preço da comida nas alturas: saiba como evitar desperdícios e reduzir os custos com alimentação

Com os preços dos alimentos subindo sem parar, abastecer a despensa pesa cada vez mais no bolso dos brasileiros. Em fevereiro, o custo médio de alimentação e bebidas subiu 0,70%, com destaque para ovos (15,39%) e café (10,77%), segundo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Com o poder de compra das pessoas em queda, o que tem gerado até memes na internet (veja abaixo), o EXTRA ouviu especialistas para trazer dicas que ajudam a evitar desperdícios e economizar.

Um das formas é a utilização de partes das comidas que seriam jogadas fora, segundo Fernanda Chaves, nutricionista da Firjan SESI:

— Muitas partes de alimentos que costumamos descartar são extremamente nutritivas e podem ser aproveitadas. A casca da abóbora, por exemplo, pode ser cozida com o legume ou ralada e misturada ao arroz.

O SESI também oferece receitas e dicas de aproveitamento integral de alimentos no site Alimente-se Bem. Além disso, a organização oferece oficinas culinárias sobre aproveitamento integral dos alimentos nas empresas e nas comunidades por meio do Cozinha Brasil em suas cozinhas experimentais itinerantes. Com mais de 230 mil atendimentos realizados, o programa já passou por 85 municípios do Rio de Janeiro.

Ainda segundo Fernanda, pode-se substituir alimentos mais caros por opções mais acessíveis. No caso da carne bovina, um corte nobre pode ser trocado por um mais barato. Mas é preciso saber preparar:

— Basta deixar marinando por cinco a dez minutos, pois a bromelina, enzima presente na fruta, ajuda a quebrar as fibras, deixando a carne mais macia.

Descontos em alimentos perto do vencimento

Algumas soluções atuam contra o desperdício. Uma delas é a Food to Save, empresa que conecta consumidores com estabelecimentos do setor alimentício, que oferecem itens próximos da data de validade ou têm alguma imperfeição. Esses alimentos são agrupados nas “sacolas-surpresa” e vendidos com até 70% de desconto. Assim, o consumidor compra produtos que seriam descartados por um preço menor, mas os itens somente são revelados quando chegam para o cliente.

— O sigilo é para o estabelecimento continuar oferecendo produtos no aplicativo pela possibilidade de o cliente deixar de comprar na loja pelo preço normal — diz Murilo Ambrogio, cofundador da Food To Save.

A Food To Save aponta que, no Estado do Rio, as sacolas de hortifruti têm sido as mais buscadas. A nutricionista Fernanda destaca a importância dos cuidados no armazenamento de legumes, verduras e frutas:

— Abacate, banana, batata e melão liberam etileno, um gás que acelera a deterioração de outros alimentos próximos. O consumidor precisa separá-los dos itens sensíveis, como brócolis, cenoura, abóbora, abobrinha, pepino e folhas verdes.

Inflação nas redes

Internautas têm repercutido a alta dos preços com memes na internet. Confira alguns:

Ação ensina moradores a usar cascas de legumes

No Estado do Rio, 62% do lixo doméstico produzido pelas famílias é composto por alimentos desperdiçados, segundo um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU). Na contramão disso, a iniciativa Favela Orgânica ensina moradores de comunidades da Babilônia e Chapéu Mangueira, na Zona Sul do Rio, a aproveitarem ao máximo os alimentos na hora de cozinhar.

— O miolo do chuchu, por exemplo, pode ser usado para fazer um estrogonofe, enquanto a casca pode ser transformada em um hambúrguer ou um vinagrete, substituindo ingredientes mais caros como o pimentão — diz Regina Tchelly.

As inscrições para o curso, que acontece ao longo de dez meses, são divulgadas no Instagram do projeto (@favela_organica) e também nas próprias comunidades. Neste ano, o início das inscrições está previsto para abril.

Ação do governo

Desde a última sexta-feira, o governo zerou os impostos de importação de uma série de alimentos, como parte de um pacote de medida para conter a alta dos preços. Na lista dos itens que podem ficar mais baratos estão óleo de girassol, azeite de oliva, sardinha, biscoitos, café, carnes e massas.

Para o economista André Braz, coordenador de Índices de Preços da FGV, essas medidas não vão ajudar por muito tempo na redução dos preços:

— Isso não resolve o problema de médio e longo prazo porque fenômenos climáticos, que afetam muito as safras dos produtos, estão ficando cada vez mais frequentes.

Um estudo do economista mostra que as famílias que ganham de 1 a 1,5 salário mínimo (de R$ 1.518 a R$ 2.277) gastam 21,8% da renda com alimentação. Em 2020, o índice era 19,3%. Com aumento do percentual da renda dedicada a alimentação, houve redução os valores gastos com habitação (-1%) e artigos de residência (-0,9%) nos últimos cinco anos.

Como economizar

Atenção ao Armazenamento

Organize a geladeira e a despensa da casa seguindo a metodologia do Primeiro que Vence, Primeiro que Sai (PVPS). Ponha os itens com validade mais curta para serem consumidos primeiro. Alimentos prontos duram de três a quatro dias na geladeira. Se a quantidade preparada for grande, congele parte para evitar perdas.

Alimentos com pequenas imperfeições

Alguns mercados e aplicativos de alimentos oferecem vegetais e frutas com desconto, como o Food To Save. Geralmente, esses itens têm pequenas imperfeições ou estão próximos da data de vencimento. Embora tenham baixo valor comercial, estão próprios para o consumo.

Alimentos da temporada

Adaptar a dieta à sazonalidade dos produtos reduz custos. Por exemplo, o repolho agora está custando cerca de R$ 3 o quilo e pode ser um excelente substituto para outras hortaliças mais caras.

Promoções

Os supermercados têm dias específicos de promoções, como o “Dia da carne” e o “Dia do hortifruti”, e é interessante que a família divida tarefas para aproveitar as oportunidades. Use aplicativos de mercados para cupons de desconto e chegue na feira no fim do dia para encontrar preços menores.

Compras planejadas

Pesquisar preços antes de ir às compras ajuda bastante. Outra dica é nunca fazer compras com fome e sempre levar uma lista para evitar gastos por impulso.

Efeitos do custo no Brasil: Problemas na logística vão afetar alívio na inflação com supersafra

Aguardada pelo governo como uma das formas de aliviar o preço dos alimentos, a supersafra de grãos, estimada em 325,7 milhões de toneladas, esbarra no gargalo logístico. Produtores disputam caminhões para escoar rapidamente os produtos e, como consequência, há uma disparada no preço do frete.

Em Mato Grosso, maior estado produtor de soja — com uma previsão de safra de 165 milhões de toneladas —, o preço do frete subiu 62% entre janeiro e fevereiro. De Água Boa (MT) até o Porto de Santos (SP), o custo subiu 69,3% no período, por exemplo, alta que se repetiu em outras localidades do estado. Os números são da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP).

Impacto no preço

Esse cenário ocorre em todo o país, segundo o monitoramento. O valor médio nacional do transporte de grãos aumentou 34,6% entre janeiro e fevereiro. Em relação ao mesmo período do ano passado, a alta foi de 19,3%. O índice considera grandes corredores de exportação de diversos estados produtores. O aumento no custo do transporte tende a se disseminar em todos os setores da economia e afetar o preço dos alimentos, no momento em que o governo busca saídas para conter a alta dos itens alimentícios, considerada um dos fatores que afetaram a popularidade do presidente.

Como a janela de plantio da safra ficou estreita devido ao clima, a colheita recorde acontece de forma concentrada. Isso represou o escoamento da produção, afirmou o coordenador do grupo de pesquisa da Esalq, Thiago Pera. Segundo ele, 2025 será ainda mais desafiador para o agronegócio devido, principalmente, a dois fatores: o crescimento da safra, que eleva a demanda por transporte; e o aumento do preço do diesel. Há um ano, o litro do diesel custava, em média, R$ 6, e hoje está em R$ 6,46.

— Estamos vivendo uma escalada no preço do frete, com reflexos no bolso do consumidor devido à correlação do custo com outros setores da economia, bens e serviços, além dos alimentos — disse Pera.

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Ele alertou que a situação deve se repetir em julho, quando está prevista a safra de milho. No ritmo apressado da lavoura neste ano, as máquinas que plantam milho vieram logo atrás das colheitadeiras de soja.

Outro fator que está impactando os custos é, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA), um deslocamento de caminhoneiros para estados do Centro-Oeste, em busca de maior remuneração. Dessa forma, faltam veículos para escoar a produção de outras fronteiras agrícolas, como Bahia, Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul, afirmou a consultora da CNA, Elisângela Pereira Lopes.

Ela destacou que na Bahia, por exemplo, há grande produção de algodão, além de o estado concentrar indústrias esmagadoras de grãos. De uma frota atual de 2,252 milhões de caminhões, a frota dedicada ao transporte de grãos é de 1,7 milhão, segundo dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).

— A questão não é apenas a frota em si. Os caminhoneiros se deslocam para atender à demanda mais vantajosa, e isso faz o frete aumentar — explicou Elisângela.

Há cerca de uma semana, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) enfrentou problemas para transportar uma carga de milho entre o Piauí e a Paraíba. Uma das empresas vencedoras do leilão não conseguiu caminhões disponíveis. Outras quatro tiveram de pedir mais tempo para executar o contrato e foram atendidas, segundo a Conab.

Falta de armazéns

Na lista de entraves logísticos para a safra, estão ainda a escassez de mão de obra e a falta de armazéns. No primeiro caso, o engenheiro de transporte Lauro Valdivia, assessor técnico da NTC&Logística — parceira da Confederação Nacional do Transporte (CNT) —, calcula que 93% das empresas associadas relataram dificuldades para contratar caminhoneiros e mão de obra. A pesquisa foi realizada em janeiro com 400 empresários de todo o país.

— Os problemas enfrentados pela safra são recorrentes, mas se agravaram neste momento de pico — disse Valdivia.

Segundo a CNA, a falta de armazéns impede o produtor de guardar os grãos à espera de uma melhor oportunidade de escoamento. Do volume total da safra a ser colhida este ano, 115,6 milhões de toneladas não têm armazenagem adequada, sendo 46 milhões de toneladas só em Mato Grosso.

Do total de armazéns disponíveis no país, apenas 16,8% pertencem a fazendas. Quem não dispõe esse tipo de espaço precisa alugar ou despachar o produto até o porto rapidamente, explicou a assessora técnica da CNA:

— Se tivéssemos que armazenar toda a produção de grãos de uma só vez, só teríamos 64% de capacidade. Mas, em alguns estados, como Mato Grosso, só seria possível armazenar metade dos grãos. Por isso, o custo de armazenagem aumenta nos momentos de pico da safra, que precisa ser escoada por caminhões.

Ovo em meia-lua: galinha de sítio surpreende com formato inusitado

Um ovo em formato de meia-lua foi colocado por um galinha de um sítio localizado na cidade de Fama, em Minas Gerais. Considerado curioso, o formato do ovo não é considerado normal, de acordo veterinário Enrico Ortolani.

Ele, que é consultor do Globo Rural, programa agro da TV Globo, explica que fatores como o calor, a superlotação dos galinheiros, as doenças e os estresse das aves podem atrapalhar a postura da galinha e causar anormalidade do ovo — como o formato meia-lua.

O aparecimento de um ovo em formato meia-lua chama a atenção para o fato de ser necessário sempre observar a qualidade do alimento antes do consumo humano. O Correio já publicou matéria com orientações para o consumidor identificar se o ovo de galinha está adequado ou não.

A primeira delas é mergulhar o ovo em um recipiente de água. Se ele mergulhar, está fresco e pronto para ser aberto. Já caso o ovo flutue, não arrisque abri-lo. Ele estará velho ou estragado.

Se segunda dica é colocar uma laterna (de celular mesmo) perto da casca. Se o ovo estiver pobre, ele ficará escurecido. Não coma! Outro truque para identificar se o ovo está estragado é abri-lo e colocá-lo em um recipiente antes de consumi-lo. Neste caso, observe se o ovo está com cheiro de estragado.

A viralização de um ovo em formato meia-lua também chama a atenção para um crescente aumento nos preços dos ovos (normais) no país. No IPCA de fevereiro, em 1,31%, os valores do ovos contribuíram para alta de 0,7% na inflação de alimentos.

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Mulheres e as transformações

A ministra Simone Tebet disse que a ministra Gleisi Hoffmann tem a capacidade de “vestir e desvestir a camisa de acordo com o cargo que ocupa” e, por isso, acredita que ela “vai dar o suporte necessário para aprovar as medidas que a equipe econômica e o ministro Fernando Haddad têm”. Explicou que, na vida política, ela e Gleisi estiveram em lados opostos, “mas sempre tivemos gentileza no trato”. Em outro momento, Tebet disse que o ministro Fernando Haddad tem sido “um verdadeiro herói de enfrentar a resistência em seu próprio partido”.

Nessa entrevista que ela me concedeu na GloboNews, Tebet passou por vários assuntos, defendendo inclusive a redução da jornada de trabalho. Sobre inflação, ela disse que “há um conjunto de fatores que vão mostrar que nos próximos 30 dias muitos produtos vão começar a baixar de preço”.

Ontem foi um dia em que, para reportar às leitoras e aos leitores tudo o que vi, eu precisava de duas colunas. Então tenham paciência comigo nesse espaço, em que irei de uma coisa a outra, mas em tudo estará presente a mulher e a busca de mudanças. De manhã, entrevistei Simone Tebet, de tarde fui ver a posse da ministra Elizabeth Rocha.

Pela primeira vez em 217 anos, desde que foi criado o tribunal militar no Brasil, uma mulher assumiu a presidência por eleição. Na posse, havia sinais de mudanças em vários detalhes, como o do hino nacional, primeiro cantado por Aida Kellen soprano negra, depois pela indígena Djuena Tikuna, em idioma tikuna.

Naquele tribunal eu fui julgada, em 1977. Absolvida. Eu fui acusada de ter pichado muros, espalhado panfletos, feito reuniões “subversivas”, mas jamais fui acusada de ação armada. Fui absolvida também em 1974 na 1ª Auditoria da Aeronáutica. Nunca houve muito do que me acusar, apesar da violência da prisão. Foi inevitável para mim sentir emoção ao ver a posse de uma mulher no STM.

“Sou feminista e me orgulho de ser mulher. Nós mulheres temos o sonho da igualdade. Não tenho dúvidas de que o ideário se imbrica com o humanista quando buscam identificar um mundo sem constrangimentos. Os segmentos minoritários esbatem-se, desde sempre, em um ambiente permeado por hostilidades e intolerâncias, a impor o rompimento das travas opostas à igualação”. Misturei aqui alguns trechos do discurso, todo ele marcado pela denúncia do patriarcado e pela rejeição a todas as discriminações de gênero, de raça e de orientação sexual. Elizabeth pediu licença poética a Milton Nascimento e Lô Borges, para dizer “porque se chamavam mulheres, também se chamavam sonhos e sonhos não envelhecem”.

Estava eu ali sonhando com esse mundo de mudanças posto no discurso e na posse da ministra Elizabeth, sonho que nunca envelheceu em mim, quando recebo a informação de que o senador Jorge Seif (PL-SC) acabara de me atacar no plenário do Senado, mentindo e me acusando de ter praticado atos violentos na juventude. Logo depois o Fato ou Fake do G1 me procurou para dizer que voltara a circular fortemente a fake news de que eu assaltei um banco em 1968.

Queridos leitores e leitoras, eu jamais peguei em uma arma na minha vida. Em 1968, eu tinha 15 anos e morava em Caratinga. Aquele tribunal militar, onde eu estava, me emocionando com o hino nacional lindamente cantado em português e em tikuna, guarda os anais do que aconteceu comigo em 1972, aos 19 anos. Não fui acusada de um único ato violento. Fui presa, torturada, ameaçada de morte e denunciei a tortura durante o julgamento. Essa é a verdade. O senador mentiu sobre mim e alimentou mais um ataque da velha fake news.

Fui longe porque o dia me empurrou de um lado para o outro. Volto à entrevista de Simone Tebet, que vocês poderão conferir no Globoplay ou transcrita no meu blog. Ela defendeu a redução da jornada de trabalho.

—Nós não temos que ter medo de dialogar com a sociedade, com a academia, com o setor produtivo, nem com os sindicatos e com os trabalhadores a questão do fim da jornada de seis por um. A jornada de cinco por dois precisa ser colocada na mesa. Não é só porque é desumano hoje (a escala 6×1) é porque gera economia, vai gerar produtividade, vai gerar qualidade de trabalho. Outra coisa que precisa ser colocada é a igualdade salarial entre homens e mulheres, foi uma promessa do presidente Lula que tem que virar realidade. Se não for por amor às mulheres ou à questão da igualdade, que seja pelo bolso”.

Pois é, meus velhos sonhos estão vivos.

5 anos de covid: como a pior pandemia de nossa geração mudou o mundo, da saúde e ciência à economia e política

“Pandemia não é um termo que deve ser usado de modo leve ou descuidado. É uma palavra que, se mal utilizada, pode causar medo irracional ou uma aceitação injustificada de que a luta acabou. Ambos levam a sofrimento e mortes desnecessárias.”

Esse foi um dos trechos do discurso feito pelo biólogo etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus em 11 de março de 2020, dia em que a covid-19 foi oficialmente classificada como uma pandemia.

“Nós acabamos de soar um alarme alto e claro”, afirmou o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) naquela ocasião.

No início de 2020, pouco mais de dois meses após o surgimento de uma “pneumonia misteriosa” em Wuhan, na China, a doença causada pelo novo coronavírus havia provocado 118 mil casos e 4,2 mil mortes em 114 países.

No desenrolar de meses e anos seguintes, a covid se espalharia por todos os continentes, com 778 milhões de casos e pelo menos 7 milhões de mortes registrados — embora algumas estimativas indiquem que esse número de óbitos possa ter ultrapassado a casa dos 20 milhões.

No Brasil, 37,5 milhões foram infectados e 700 mil acabaram mortos, segundo as estatísticas oficiais.

Passados cinco anos desde o início da emergência global de saúde, o que mudou no mundo, da saúde à ciência, da economia à política?

A seguir, especialistas ouvidos pela BBC News Brasil discutem as cicatrizes que a covid-19 deixou no planeta — e se estamos mais preparados (ou não) para lidar com as próximas pandemias.

Os primeiros passos: achatar a curva e se proteger

Num cenário onde ainda não existiam vacinas e pouco se sabia sobre as formas de transmissão do Sars-CoV-2 (o coronavírus causador da covid-19), uma das primeiras medidas adotadas pelos países para conter a crise foi pedir — ou até mesmo determinar com a força da lei — que as pessoas ficassem em casa.

As escolas, o transporte público, as lojas e muitos escritórios foram fechados por tempo indeterminado.

Um dos bordões mais usados nesse período era “achatar a curva” — ou seja, conter o ritmo de transmissão do vírus, para que a onda de novas infecções não se transformasse num tsunami devastador.

Ou seja, se os casos de infecção não subissem tão rapidamente, os hospitais teriam capacidade de atender os casos mais graves conforme eles aparecessem.

Passados cinco anos desse período, o matemático Adam Kucharski defende que a estratégia de achatar a curva era necessária naquele momento, para evitar que os sistemas de saúde de fato entrassem em colapso.

“Quando um hospital fica lotado, as mortes aumentam por causa da falta de oxigênio e de outros recursos”, explica o especialista, que é professor de Epidemiologia de Doenças Infecciosas na Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, no Reino Unido.

“Mas talvez aquela ideia de que teríamos apenas um único pico de covid-19, que poderia ser adiado ou diluído, se mostrou enganosa em muitos países. Em lugares com uma grande população de idosos, essa doença era grave demais para uma única onda que não excederia a capacidade dos sistemas de saúde”, pondera ele.

Para Kucharski, muitos governos “não deixaram claro o que era viável e eficaz em termos de controlar” a disseminação do coronavírus.

“Durante uma pandemia, as decisões têm uma espécie de ‘dependência das primeiras escolhas’: se você segue por um caminho no início, como permitir uma quantidade elevada de infecções, pode ter opções reduzidas num futuro próximo. Muitos países descobriram que estavam no caminho errado tarde demais, antes de considerar quais alternativas estavam disponíveis”, analisa ele.

O matemático destaca que os planos sobre o que fazer deveriam estar concluídos antes de uma crise global de saúde estourar — nunca durante uma situação como essa.

Cartaz em inglês pede que as pessoas fiquem em casa para salvar vidas

Ainda nessa primeira fase da pandemia, vale destacar as recomendações sobre os demais cuidados preventivos — como lavar bem as mãos, limpar superfícies, melhorar a ventilação de lugares fechados, usar máscaras ao sair de casa e ficar em isolamento caso apareçam sintomas sugestivos da infecção (tosse, mal-estar, febre, dor no corpo…).

Essa lista de cuidados foi influenciada pelo debate sobre como o coronavírus é transmitido. De início, entidades como a própria OMS destacaram que o patógeno passava de uma pessoa para outra por meio de gotículas de saliva que são expelidas por boca ou nariz no ato de falar, tossir ou espirrar.

Com o passar do tempo, no entanto, descobriu-se que o vírus também pode infectar por meio do aerossol, um tipo de partícula que também sai por boca e nariz, mas é muito menor e capaz de permanecer em suspensão no ar por um tempo prolongado (em comparação com as gotículas de saliva, que são maiores e mais pesadas).

“Inicialmente, a OMS se concentrou nas partículas maiores como as principais fontes de exposição [ao coronavírus]. Alguns cientistas que trabalham nesta área consideram que a entidade não prestou atenção suficiente aos aerossois”, lembra o virologista Mark Sobsey, pesquisador e professor do Departamento de Ciências Ambientais e Engenharia da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos.

“Mas, à época, as evidências para os riscos de transmissão de patógenos por aerossol eram muito limitadas e não estavam bem documentadas com base em trabalhos científicos confiáveis e rigorosos”, complementa ele.

Foi necessário, então, entender essa dinâmica das partículas transportadas pelo ar — uma informação fundamental para criar políticas de prevenção da covid-19 mais efetivas.

Para Sobsey, a pandemia de covid-19 revelou “as deficiências em reconhecer, antecipar e responder aos patógenos” que podem provocar enormes crises.

“Desde então, a OMS e a comunidade global de saúde criaram sistemas novos e melhores para lidar com essas necessidades, que incluem a vigilância e a monitorização de patógenos, inclusive com o auxílio da inteligência artificial”, complementa ele.

A revolução dos imunizantes

Durante quase 60 anos, a vacina que protege contra a caxumba deteve o recorde de rapidez no desenvolvimento: os pesquisadores levaram cerca de quatro anos para criar, testar e obter a aprovação deste produto, que chegou ao mercado a partir de 1967.

Essa marca histórica foi obliterada durante a pandemia de covid-19.

Se considerarmos que os primeiros casos da doença começaram a ser registrados no final de dezembro de 2019 e uma dose de vacina aprovada pelas agências regulatórias foi aplicada na inglesa Margaret Keenan no dia 8 de dezembro de 2020, essa corrida na busca por soluções efetivas contra o coronavírus foi concluída em menos de doze meses.

Entre o final de 2020 e o início de 2021, diversas plataformas vacinais mostraram resultados animadores em termos de segurança e eficácia.

Foi o caso dos imunizantes de mRNA, desenvolvidos por Pfizer/BioNTech e Moderna, de vetor viral, criados por AstraZeneca/Oxford e Janssen, e as de vírus inativado, como a CoronaVac, da Sinovac/Butantan.

Esses produtos ganharam uma aprovação emergencial das agências regulatórias (como o FDA nos EUA e a Anvisa no Brasil) e passaram a ser usados em larga escala, nas maiores e mais rápidas campanhas de vacinação em massa já registradas.

“Nesse período, aprendemos que as novas plataformas vacinais são muito importantes para enfrentar surtos, epidemias e pandemias. O desenvolvimento tradicional de vacinas, que usualmente leva dez anos ou mais, pode ser desafiado, com resultados de qualidade”, comemora a médica Sue Ann Costa Clemens, professora titular de Saúde Global do Departamento de Pediatria da Universidade de Oxford, no Reino Unido.

“Também aprendemos que desenvolver essas inovações em pouco tempo depende de uma integração de diferentes setores, que vão desde a concepção da molécula, a manufatura e os sistemas de saúde”, complementa ela, que ainda ocupa o cargo de chefe do Instituto de Saúde Global da Universidade de Siena, na Itália.

É claro que a disponibilização das vacinas contra a covid-19 num prazo tão curto dependeu de diversos fatores.

Como outros coronavírus — caso de Sars e Mers — já haviam causado surtos localizados em anos anteriores, os cientistas possuíam alguma experiência e um conhecimento acumulado sobre a estrutura e o funcionamento dessa família de patógenos.

Mesmo plataformas inéditas, como o mRNA, que até então não havia sido usado para criar uma vacina, era alvo de pesquisas há décadas — num trabalho que, inclusive, rendeu o Prêmio Nobel de Medicina de 2023 para a bioquímica húngara Katalin Karikó e o imunologista americano Drew Weissman.

A criação de vacinas contra a covid-19 bateu todos os recordes anteriores de desenvolvimento de imunizantes

Cinco anos depois, porém, os desafios relacionados à vacinação da covid-19 se modificaram.

“Precisamos entender as necessidades de uma situação de pandemia, de emergência, e o contexto do dia a dia, dentro dos sistemas nacionais de imunização”, diferencia Clemens.

“Durante uma pandemia, buscamos produtos com alta eficácia e agilidade no desenvolvimento e no escalonamento da produção. Já para a rotina, necessitamos de vacinas seguras, com maior durabilidade, um acondicionamento viável e baixo impacto orçamentário.”

“As vacinas de mRNA, por exemplo, têm excelente eficácia e representam um avanço inenarrável para a ciência, a medicina e a saúde global. No entanto, elas ainda apresentam um custo elevado e requerem doses de reforço com maior frequência, a cada 6 meses, o que traz um impacto orçamentário grande”, pondera a médica, que também é consultora-sênior para o desenvolvimento de vacinas da Fundação Bill & Melinda Gates.

Em outras palavras, na avaliação de Clemens, é preciso superar essas barreiras para que as inovações e tecnologias, vitais para acabar com a mais recente pandemia, se encaixem melhor na rotina dos programas de imunização de cada país.

Mas os desafios não param por aí. “Há necessidade de melhorar a vigilância global de novos patógenos, atualizar a regulamentação das agências sanitárias e fazer a manutenção das redes de laboratório e pesquisa clínica”, lista Clemens.

Ao lado de outros especialistas, a médica propõe a criação de uma “biblioteca” de protótipos de vacinas.

A ideia é que essas “receitas” para produzir imunizantes contra os patógenos que geram preocupação e têm potencial de causar surtos, epidemias e pandemias no futuro estejam amplamente disponíveis aos cientistas do mundo inteiro. Assim, fica mais fácil desenvolver, testar e fabricar doses com rapidez, para conter o problema antes que ele se agrave.

“E não podemos nos esquecer da hesitação vacinal, que requer informações adequadas e o combate às notícias falsas, e das dificuldades de acesso às doses, pois até hoje existem países com menos de 5% da população vacinada contra a covid-19.”

Um mundo (ainda) mais desigual

As vacinas contra a covid, aliás, foram um exemplo de como a luta contra a pandemia em escala global foi desequilibrada.

Quando os imunizantes foram aprovados, os países ricos logo garantiram a maior fatia das primeiras doses produzidas. As nações mais pobres tiveram que aguardar meses até que pudessem receber alguns lotes desses produtos.

Um artigo assinado por pesquisadores da Universidade de Utah, nos EUA, dá a dimensão da disparidade: em julho de 2021, 80% da população mundial tinha acesso a 5% das doses de vacina disponíveis, enquanto os outros 20% abocanharam 95% dos imunizantes.

Nesses 20%, estão representadas as nações mais ricas, mesmo aquelas que integravam a Covax, uma iniciativa da OMS que tentou garantir uma distribuição mais homogênea das doses pelo planeta.

“A pandemia nos lembrou que, na verdade, certas cidadanias e certos passaportes têm mais direito à vida do que outros, apesar do que consta na Declaração dos Direitos Humanos e outros documentos do tipo”, lamenta o economista Francisco Ferreira, diretor do Instituto de Desigualdades Internacionais da Escola de Economia de Londres.

O especialista, aliás, entende que a pandemia trouxe diversos outros exemplos de disparidades.

“A covid-19 revelou, ou chamou mais atenção, para algumas formas de desigualdade que já existiam, exacerbou algumas outras e criou novos problemas”, avalia ele.

Um exemplo da primeira categoria são as questões habitacionais. Pessoas que já viviam em favelas ou moradias precárias sempre sofreram com a falta de acesso a serviços como água potável e saneamento básico — algo que se tornou ainda mais aparente durante a emergência sanitária.

“Nesses casos, a capacidade de fazer isolamento passou a representar uma questão de vida ou morte”, destaca Ferreira.

“Já entre as desigualdades que foram exacerbadas, estão aquelas entre trabalhadores formais e informais. Quando a economia fechou, o primeiro grupo tinha maior facilidade em manter os empregos ou pelo menos ter acesso a benefícios públicos, como o seguro-desemprego. Já os trabalhadores informais, principalmente aqueles cujo ofício envolvia contato direto com o público, simplesmente perderam o ganha-pão, ao menos até a criação de benefícios emergenciais.”

Já entre as novas formas de desigualdade criadas a partir da pandemia, o economista lembra da possibilidade de trabalho remoto, que geralmente ficou restrita a quem possuía um maior nível de educação.

Algumas desigualdades foram aprofundadas e exacerbadas durante a pandemia

O epidemiologista Michael Marmot, diretor do Instituto de Equidade em Saúde da Universidade College London, na Inglaterra, concorda que a covid-19 revelou, exacerbou e aprofundou as desigualdades — tanto na comparação entre países como entre cidades, Estados ou regiões de uma mesma nação.

“Antes da pandemia, os dados já demonstraram que, quanto maior o nível de privação econômica de um lugar, maior a taxa de mortalidade por todas as causas ali. A covid-19 acentuou isso ainda mais”, explica ele.

“Indivíduos que moravam em casas lotadas, ocupavam posições da linha de frente, não podiam trabalhar de casa, entre outros fatores, estavam potencialmente mais expostos ao coronavírus”, complementa o pesquisador.

Marmot também entende que a emergência sanitária escancarou os problemas nos sistemas de saúde — a falta de insumos, leitos hospitalares, remédios, máscaras e outros equipamentos aprofundou ainda mais a crise em alguns lugares.

Talvez um dos maiores exemplos disso seja a cidade de Manaus, que no início de 2021 sofreu com a crise da falta de oxigênio e ganhou as manchetes do mundo pela quantidade de mortes registradas.

“Os sistemas de saúde precisam ter uma taxa de ociosidade e uma certa folga no uso de recursos. Se 100% dos leitos hospitalares estão ocupados o tempo todo, certamente isso representa um problema”, analisa ele.

Ferreira e Marmot veem a necessidade de criar mecanismos para fortalecer organizações globais de saúde, como a OMS, para uma resposta mais coordenada (e igualitária) na próxima emergência global — embora ambos tenham uma visão pessimista sobre o futuro.

“Precisamos garantir o acesso universal às vacinas, que devem ser encaradas como um bem comum”, sugere o epidemiologista.

“Mas definitivamente não estamos hoje mais preparados para enfrentar a próxima pandemia”, complementa ele.

“E o ressurgimento de governos altamente nacionalistas e tribalistas, como o de Donald Trump, nos Estados Unidos, só piora essa situação”, constata Ferreira.

Perda de confiança, desilusão e radicalização

Num artigo intitulado As Cicatrizes Políticas de Epidemias, publicado em junho de 2020, os autores discutiam qual seria o legado do coronavírus — e projetaram que jovens adultos (dos 18 aos 25 anos), uma faixa etária de formação da visão de mundo e das preferências políticas, seriam negativamente impactados, especialmente em quesitos como a confiança que eles depositam nas instituições e nos líderes de seus países.

Segundo eles, esse problema seria mais grave nos locais cujos governos se mostraram “fracos”, com “menos capacidade de agir para conter a pandemia”.

Passados cinco anos, os responsáveis pela análise consideram que as projeções se concretizaram — e tendem a se consolidar nas próximas décadas.

O economista Cevat Giray Aksoy, pesquisador sênior do Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento, aponta que a pandemia foi um “teste de estresse” para governos e escancarou “fraquezas estruturais profundas”.

O Banco Mundial, por exemplo, calcula que o PIB global teve uma contração de 3,4% em 2020, com uma redução de 4,7% nas economias avançadas e 2,2% nos mercados emergentes.

“Esse choque sem precedentes lançou 97 milhões de pessoas na extrema pobreza, no que foi o primeiro crescimento deste indicador em duas décadas”, diz Aksoy, que também é professor associado do Departamento de Política Econômica do King’s College, em Londres.

E a recuperação econômica depois dessa primeira retração não foi sólida, considera ele. O Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta que o crescimento global vai se estabilizar em 3,2% em 2024 e 2025.

“No entanto, a previsão de longo prazo é menos otimista, com a expectativa de que essa taxa decaia para 3,1% nos próximos cinco anos, a mais baixa projeção das últimas décadas. Isso reflete desafios estruturais permanentes, como a queda da produtividade e os declínios demográficos”, destaca o economista.

Aksoy pontua que as consequências econômicas da pandemia — aumento de inflação, desemprego, desigualdade… — ampliaram a falta de confiança.

“Tudo isso reforçou a percepção de que os governos ou são incapazes ou não possuem a vontade para atender as necessidades imediatas dos cidadãos”, diz ele.

Nos Estados Unidos, por exemplo, um levantamento do Centro de Pesquisa Pew de 2024 mostrou que apenas 22% dos americanos tinham confiança de que o governo faz o certo “sempre” ou “na maioria das vezes”.

Já o Barômetro de Confiança da Edelman de 2025 revelou que, numa escala global, 60% das pessoas demonstram alguma preocupação com a economia.

“E uma parcela significativa dos indivíduos que participaram desse levantamento acredita que ações hostis, inclusive com violência, podem ser necessárias para gerar mudanças”, destaca Aksoy.

“Isso mostra uma preocupante virada de chave para a desilusão e, em alguns casos, para a radicalização.”

“E essas atitudes, quando ganham força em um período tão importante da vida de um indivíduo, entre os 18 a 25 anos, tendem a persistir e influenciar o comportamento político por muitos anos”, prevê ele.

O economista Orkun Saka, outro autor do artigo publicado em 2020, vê com preocupação a mudança das preferências políticas, principalmente entre os mais jovens, que se mostram cada vez mais abertos às ideias de partidos da direita radical.

“Isso não é particularmente surpreendente diante de nossos achados”, constata o especialista, que é professor associado da City University of London, também no Reino Unido.

Economistas apontam Brasil como exemplo de ‘respostas inconsistentes’ e ‘brigas políticas’ durante a pandemia

Mas será que essa reação da população variou conforme as ações que cada governo tomou durante a pandemia?

Aksoy diz que sim — e cita dois países como exemplo.

“No Brasil, respostas inconsistentes e brigas políticas durante a crise sanitária erodiram a confiança nas instituições entre os eleitores. Esse declínio criou um terreno fértil para a instabilidade política e a desilusão”, cita ele.

“Em contraste, a Nova Zelândia teve uma resposta à pandemia caracterizada por ações decisivas, rápidas e transparentes, permeadas por uma comunicação empática. Esses esforços não apenas controlaram a circulação do coronavírus, como também aumentaram a confiança da população, especialmente das camadas mais jovens”, compara ele.

Para o pesquisador, as políticas públicas dos dois países demonstram como “a confiança do público nas instituições durante crises não é influenciada apenas pela gravidade dos eventos, mas também pela forma como os governos respondem”.

“Lideranças efetivas e transparentes podem mitigar problemas políticos e econômicos de longo prazo, enquanto políticas inconsistentes ou mal geridas exacerbam a desilusão e a polarização”, observa ele.

Saka reforça que intervenções políticas mais efetivas e rápidas — na forma de regras de distanciamento social, uso de máscaras, entre outros — resultaram num menor número de casos e mortes por covid-19.

“E isso, por sua vez, mostrou à população desses lugares que eles tinham um governo no qual podiam confiar”, diz ele.

“Na contramão, reações lentas e atrapalhadas, como as tomadas no Reino Unido, criaram decepção e desconfiança, especialmente em novas gerações que possivelmente testemunharam pela primeira vez o governo ser testado”, opina o economista.

Mas o que esperar para os próximos anos? Essas marcas da covid-19 continuarão visíveis em toda a sociedade? Ou elas vão cicatrizar depois de algum tempo?

Para Aksoy, isso vai depender das escolhas que os governos farão a partir de agora.

“Investimentos no crescimento econômico igualitário, em sistemas modernos de educação e no acesso aos cuidados de saúde, em paralelo a respostas transparentes às preocupações das pessoas, podem reconstruir a confiança e gerar resiliência.”

“Mas, sem reformas significativas, nós corremos o risco de entrar numa era prolongada de instabilidade política, divergência econômica e enfraquecimento da cooperação global, com profundas implicações na governança e na coesão social”, responde ele.

Saka pontua que a pandemia recente, assim como alguns outros eventos parecidos registrados ao longo da história, indicam que formou-se uma “geração covid-19”, com indivíduos que vão “apresentar crenças e comportamentos políticos diferentes pelos próximos 20 anos”.

“Diante disso, posso predizer que esses fatores só vão acelerar o ritmo da atual mudança política em direção a partidos populistas e extremistas nos próximos 10 ou 15 anos”, acredita o economista.

Perguntas sem respostas e esquecimentos coletivos

Em meio a toda essa convulsão social, o “aniversário” de cinco anos da pandemia também chama a atenção para a falta de soluções diante de alguns dos mistérios fundamentais relacionados à covid-19.

O primeiro deles: de onde surgiu o coronavírus?

Um corpo de evidências científicas aponta para um spillover, ou seja, o patógeno possivelmente “pulou” de um animal para seres humanos, fato que parece ter ocorrido num mercado de frutos do mar em Wuhan, na China.

Mas há um grupo de especialistas que defende com unhas e dentes que o vírus vazou de um laboratório de pesquisas, embora não existam muitos fatos documentados que corroborem essa teoria.

Outra pergunta: por que alguns pacientes desenvolvem a covid longa?

“Ainda não sabemos. Há pesquisadores que investigam a presença de alguns biomarcadores no organismo dessas pessoas”, responde a médica Trish Greenhalgh, do Departamento de Ciências da Saúde em Atenção Primária da Universidade de Oxford, no Reino Unido.

“Em resumo, pessoas que tiveram um quadro mais severo, não tinham se vacinado quando pegaram covid-19 pela primeira vez, possuem outras doenças de base ou não puderam repousar durante a infecção têm mais probabilidade de desenvolver a covid longa”, lista a pesquisadora.

Manaus foi um dos epicentros da pandemia e passou por uma grave crise de falta de oxigênio no início de 2021

Numa esfera mais existencial, quase filosófica, há uma questão que sempre aparece na mente de quem acompanhou de perto a emergência sanitária global: será que estamos nos esquecendo de tudo o que vivemos durante a pandemia de covid-19?

O neurocientista Kevin LaBar, da Universidade Duke, nos Estados Unidos, avalia que esse é um processo natural que acontece na nossa cabeça.

“Com o passar do tempo, as memórias tendem a desvanecer, mesmo aquelas relacionadas a eventos importantes”, constata ele.

“Isso acontece porque o cérebro tem uma capacidade limitada, então precisamos dedicar a energia disponível para codificar memórias dos novos eventos que acontecem em nossas vidas. Daí as lembranças de eventos passados, mesmo que relevantes, são comprimidas e arquivadas com menos vivacidade e detalhes.”

No caso específico da covid-19, LaBar entende que, embora o início da crise tenha sido similar para praticamente todo mundo (com os primeiros casos, o lockdown, um temor generalizado…), o desenrolar dos eventos se diferenciou de acordo com a vivência de cada um.

“A maioria das pessoas vai se lembrar de como a vida se modificou diante das primeiras restrições, mas, ao longo do tempo, a rotina se estabeleceu segundo a natureza do trabalho ou diante de episódios específicos, como uma infecção ou a morte de um ente querido”, raciocina o neurocientista.

“E isso cria dificuldades para cultivar uma espécie de ‘memória coletiva’ da pandemia de covid-19”, conclui ele.

5 anos da pandemia de covid-19: quatro legados positivos do ‘maior experimento psicológico da história’

“O maior experimento psicológico da história.”

Estávamos em 2020, e foi assim que a então professora de psicologia da saúde da Universidade Vrije de Bruxelas, Elke Van Hoof, descreveu o confinamento resultante da pandemia de covid-19.

Em entrevista à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, a especialista em estresse e trauma se referia a uma medida sem precedentes que, naquele momento, se espalhava pelo mundo, mantendo 2,6 bilhões de pessoas sob alguma forma de isolamento em nível global.

Cinco anos se passaram desde aquela quarta-feira, 11 de março, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a covid-19 uma pandemia.

Desde então, segundo dados da OMS, o vírus Sars-CoV-2, causador da doença, provocou mais de 777 milhões de infecções e matou mais de 7 milhões de pessoas, embora os especialistas da organização estimem que as mortes associadas à pandemia cheguem a 15 milhões.

Os inúmeros e profundos impactos negativos desta pandemia ainda estão sendo sentidos no mundo todo.

No entanto, alguns analistas destacam que esse momento tão sombrio também resultou em lições positivas. A BBC destaca quatro delas.

1. O valor da ciência e os avanços revolucionários das vacinas

Demorou apenas nove meses para os cientistas encontrarem uma vacina eficaz para combater o Sars-Cov-2. E eles fizeram isso por meio de um método que revolucionou o desenvolvimento de imunizantes em todo o mundo.

Embora o uso de RNA mensageiro sintético já viesse sendo estudado como um mecanismo eficaz para o desenvolvimento de vacinas há anos, foi a pandemia de covid-19 que realmente acelerou seu desenvolvimento.

Tanto a Pfizer, em parceria com a BioNtech, quanto a Moderna utilizaram esse mecanismo para criar suas vacinas em tempo recorde, permitindo que milhões de pessoas recebessem doses ao redor do mundo.

Em 8 de dezembro de 2020, Margaret Keenan, uma mulher de 90 anos do Reino Unido, se tornou a primeira pessoa a receber uma dose aprovada da vacina fabricada pela Pfizer/BioNTech.

Os cientistas Katalin Karikó e Drew Weissman, criadores desta fórmula, receberam o Prêmio Nobel de Medicina em 2023.

A corrida para encontrar uma vacina que imunizasse a população e evitasse mais mortes é um dos maiores legados positivos da pandemia, de acordo com a porta-voz da OMS, Margaret Harris.

“Testemunhamos avanços tecnológicos em uma velocidade incrível”, diz a especialista em saúde pública à BBC News Mundo.

“A tecnologia do RNA mensageiro já era conhecida, mas agora estamos vendo como está sendo usada para desenvolver outros avanços, incluindo vacinas contra o câncer.”

Ela vai além: “Entendemos que a ciência é fundamental.”

Os cientistas Katalin Karikó e Drew Weissman receberam o Prêmio Nobel de Medicina em 2023 por suas contribuições para o desenvolvimento de vacinas durante a pandemia

Devi Sridhar, professora da Universidade de Edimburgo, na Escócia, e autora do livro Preventable: How a Pandemic Changed the World & How to Stop the Next One (“Evitável: Como uma pandemia mudou o mundo e como impedir a próxima”, em tradução livre), destaca que as lições da pandemia tiveram um impacto na melhor detecção e identificação de novos surtos.

“Nossa capacidade científica melhorou, nossas plataformas estão cada vez mais avançadas. Se a pergunta que tínhamos no início da pandemia era se haveria vacina, a pergunta agora é: com que rapidez poderemos produzir uma”, afirma.

A colaboração conjunta dos países para o desenvolvimento destas vacinas e o direcionamento de recursos para este processo permitiu, segundo Sridhar, uma das coisas mais positivas resultantes da covid-19.

Além disso, há ensinamentos que nos permitem estar mais bem preparados para a próxima pandemia, diz ela. Por exemplo, os países que “parecem ter se saído melhor foram aqueles com populações mais saudáveis antes da pandemia”.

O método de RNA mensageiro sintético revolucionou a produção de imunizantes após a pandemia

Em março de 2020, o microbiologista Ignacio López-Goñi, da Universidade de Navarra, na Espanha, foi um dos primeiros cientistas a ousar apontar que poderia haver aspectos positivos relacionados à pandemia emergente.

“A pandemia de gripe de 1918 causou mais de 25 milhões de mortes em menos de 25 semanas. Será que algo semelhante poderia voltar a acontecer hoje em dia? Como podemos ver, muito provavelmente não”, disse ele na época.

Cinco anos depois, o acadêmico continua vendo o copo meio cheio, especialmente do ponto de vista científico.

“Fizemos muitos avanços. O vírus causador da covid-19 é o mais publicado de todos os tempos, o mais estudado de todos os patógenos infecciosos, mais do que o causador da malária, da Aids ou qualquer outro”, afirma.

2. Um ‘novo despertar’ na educação

O impacto catastrófico que o fechamento de escolas teve devido à pandemia em todo o mundo e, em particular, na América Latina, está bem documentado.

De acordo com Mercedes Mateo, chefe da Divisão de Educação do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), uma das marcas mais profundas deixadas pela pandemia é o aumento das taxas de evasão escolar e o atraso na aprendizagem, principalmente no ensino fundamental e médio.

No entanto, ela ressalta que esta experiência também proporcionou oportunidades excepcionais para o mundo educacional.

“Houve realmente um impacto muito positivo que levou o debate sobre educação para o século 21, que serviu para repensar os sistemas educacionais”, disse ela à BBC.

Um avanço evidente é que durante e após a pandemia, ficou para trás o paradigma do ensino presencial e da sala de aula exclusivamente como um espaço físico e estático.

“Durante a pandemia, ficou claro que o setor da educação era um dos setores menos digitalizados”, afirma Mateo.

Ela diz, inclusive, que havia uma certa demonização e resistência à digitalização de processos e práticas, mas que a covid-19 abriu o caminho para uma educação mais híbrida e flexível.

O fechamento de escolas impôs desafios enormes, mas também serviu para repensar os sistemas educacionais

“O fato de as salas de aula terem sido fechadas fez com que a educação passasse a ter maior prioridade na agenda política após a pandemia. Consolidou-se a ideia de manter o serviço educacional diante de qualquer circunstância”, observa Mateo.

Por outro lado, Sridhar não tem certeza de que, diante de uma nova pandemia, os governos tomem uma decisão diferente em relação ao fechamento de escolas.

“Há o conhecimento teórico dos danos causados ??pelo fechamento das escolas, mas há também o prático: como fazer com que os pais enviem os filhos para a escola sabendo que eles podem ficar doentes”, afirma.

Mateo destaca, por sua vez, que há agora uma maior consciência sobre o papel da escola nas nossas sociedades.

Na sua opinião, ficou demonstrado que a escola é muito mais do que um lugar onde as crianças e os jovens vão para aprender: é um espaço de apoio emocional, social e psicológico e, em muitos casos, também oferece serviços essenciais, como alimentação.

3. Recuperação e mudança de paradigma no trabalho

A aniquilação de empregos foi uma das graves consequências da covid-19, e a região da América Latina e do Caribe foi uma das mais atingidas.

A pandemia também aumentou as disparidades na participação de jovens e mulheres no mercado de trabalho — um dos maiores desafios restantes.

Mas, no geral, os especialistas observam que, embora ainda haja muito avanço a ser feito, os impactos da pandemia no mercado de trabalho tiveram uma recuperação relativamente rápida, considerando os níveis de crescimento econômico nos últimos cinco anos.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) afirma que as taxas de emprego e desemprego na região conseguiram voltar aos níveis pré-pandemia em 2023, ou seja, apenas oito trimestres após o início do período de recuperação, quando os lockdowns e as restrições de circulação permitiram aos trabalhadores retornar aos seus empregos ou, no caso daqueles que o haviam perdido, se reintegrar ao mercado de trabalho.

E, embora inicialmente a recuperação tenha respondido fortemente à retomada de empregos informais, essa proporção vem diminuindo nos últimos anos.

O trabalho remoto veio para ficar em muitos setores

Para Gerson Martínez, especialista em economia do trabalho do Escritório Regional da OIT para a América Latina e o Caribe, há várias lições positivas da pandemia no âmbito do trabalho.

Uma delas é que as políticas de proteção ao emprego e à renda que foram implementadas permitiram amortecer o golpe, e influenciaram positivamente a recuperação acelerada observada principalmente em 2021 na região, seguindo a tendência observada na média global.

“Essa é uma boa notícia porque nos diz que essas medidas, e esta é uma importante lição aprendida para a nossa região, permitiram que a recuperação fosse quase total”, disse ele à BBC News Mundo.

Além disso, para a OIT, o mercado tem conseguido manter uma certa estabilidade na região. “Esperamos que essa resiliência se mantenha, pois acreditamos que isso se deve justamente ao fato de que se reconheceu a necessidade de instituições trabalhistas fortes, e essa também é uma lição deixada pela pandemia.”

Mesmo assim, em 2025, a OIT alertou em seu último relatório que essa recuperação vem perdendo força, se olharmos para o cenário global, diante de ameaças como “tensões geopolíticas, o aumento dos custos das mudanças climáticas e problemas de dívida não resolvidos”.

Na América Latina, o mercado de trabalho se recuperou rapidamente durante os primeiros meses após o fim dos lockdowns

Mas talvez a mudança mais evidente introduzida pela pandemia tenha sido o trabalho remoto e o trabalho híbrido em setores que antes só tinham contratos presenciais.

Embora as evidências até agora tenham indicado que o impacto positivo do trabalho remoto na produtividade depende fundamentalmente da natureza desse trabalho (e de outros fatores relacionados às condições dos funcionários), e empresas no mundo todo estejam atualmente tentando voltar ao trabalho presencial, a experiência da pandemia trouxe mudanças.

Muitos países avançaram em legislações sobre o trabalho remoto para, por exemplo, incluir maior flexibilidade em alguns setores.

Uma mudança significativa no mercado de trabalho também resultou dos aplicativos de entrega, como Uber Eats e Rappi, entre outros, que abriram novos postos de trabalho, mas continuam sendo um desafio em termos de precarização e proteção trabalhista.

A revolução tecnológica da pandemia também representa, de acordo com Martínez, uma “oportunidade de ouro” para continuar a usá-la a favor da produtividade do mercado. Por exemplo, com a inteligência artificial, que, segundo ele, em vez de ameaçar os empregos, pode otimizar os processos e a eficiência de diferentes setores.

4. A importância de cuidar da saúde mental

A pandemia foi um golpe para a saúde mental da humanidade. Não apenas entre aqueles que perderam entes queridos ou para as equipes médicas que viram centenas de pessoas morrerem diariamente por causa do vírus.

O confinamento, a incerteza, a solidão, o medo e a angústia que se espalharam pelo mundo tornaram a pandemia um cenário traumático por si só.

Agências como a OMS e a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) elaboraram relatórios detalhados sobre o aumento de transtornos de depressão e de ansiedade e da prevalência de comportamentos e pensamentos suicidas com a pandemia.

Para a psicóloga e escritora Laura Rojas-Marcos, especialista em ansiedade, estresse e depressão, “a pandemia teve um impacto não apenas no nosso dia a dia, mas também na nossa memória emocional e na maneira como nos relacionamos. Foi um momento decisivo, não apenas de sofrimento, mas também de aprendizado”.

“Hoje há mais consciência sobre a importância de cuidar da saúde mental, que não é algo separado do corpo, mas algo que caminha completamente junto”, diz ela.

“Algumas pessoas, eu diria que muitas, aproveitaram a oportunidade para fazer uma reflexão sobre a vida, e aprenderam a valorizar outras pessoas, seu ambiente e até mesmo sua própria existência.”

Usar máscaras ao ar livre: uma ‘normalidade’ que já não é tão normal

Um estudo encomendado pelo Serviço Mundial da BBC à GlobeScan constatou, em 2022, que 36% das pessoas entrevistadas em 30 países ao redor do mundo disseram que se sentiam melhor do que antes da pandemia.

“Muitos afirmaram que passar mais tempo com a família e ter uma conexão melhor com a comunidade e a natureza teve um efeito positivo, e que eles tinham mais clareza sobre suas prioridades gerais na vida”, informou a BBC em outubro daquele ano.

Outro aspecto positivo em termos de saúde mental, como destacaram organizações como a Opas, “foi que estimulou a adoção de abordagens inovadoras, como o atendimento remoto à saúde mental”.

Isso provocou uma mudança radical na forma como os psicólogos oferecem terapias de vários tipos atualmente.

Essa flexibilidade, de fato, permitiu que Rojas-Marco ajudasse pessoas que, de outra forma, não teriam acesso à terapia.

Ele se conectou, por exemplo, com soldados ucranianos que precisavam de apoio em meio à guerra com a Rússia, e com pacientes em áreas remotas, onde a oferta de espaços como estes é mínima.

Voluntários do Plano de Solidariedade do Panamá transportando sacolas com alimentos para famílias de baixa renda

De acordo com a experiência de Rojas-Marcos e o intercâmbio que ela mantém com colegas de todo o mundo, são percebidos níveis mais altos de tolerância à frustração e capacidade de adaptabilidade.

A pandemia também nos ensinou sobre resiliência e compaixão humana, duas questões que, de acordo com a especialista, estão no cerne da nossa natureza.

Os gestos de solidariedade foram um afago em meio a uma tragédia rotulada como “o maior experimento psicológico da história”.

Para Margaret Harris, porta-voz da OMS, nós “vimos o melhor da humanidade” na pandemia.

As estratégias dos ‘ninjas’ da pechincha contra inflação: ‘Abro app de supermercado cinco vezes ao dia’

Como a maioria dos brasileiros, Roney Ferrer Lima Carneiro gasta uma parte do dia entretido na tela do celular.

Logo depois de acordar, no ônibus a caminho do trabalho, no intervalo do expediente, quando chega em casa no fim da tarde.

Mas se engana quem pensa que ele está checando e-mails, batendo papo ou rolando o feed do Instagram ou do Facebook.

“Às vezes eu tô deitado e minha esposa fala: ‘Roney, sai desse celular!’ Ela acha que eu tô conversando no WhatsApp, eu tô pesquisando preço nos aplicativos.”

O cearense é um poupador convicto, e o telefone é uma das ferramentas que ele usa em uma cruzada diária para economizar. É visitante assíduo dos aplicativos de 6 supermercados em Fortaleza e recebe panfletos de 7 pelo WhatsApp, onde também é membro ativo de um grupo com 406 pessoas que compartilha dicas de descontos, o “Oferta do Dia”.

Roney também é curador de promoções. Marca o que considera as melhores oportunidades nos folhetos digitais e encaminha para os grupos de familiares e amigos, hábito que lhe rendeu a alcunha de “rei dos encartes” no Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TRE), onde trabalha desde 2009.

“Quando o pessoal compra o que eu apontei que está valendo a pena eu sinto uma satisfação muito grande”, ele conta, em entrevista à BBC News Brasil.

E nem precisa ser alguém conhecido. Outro dia estava no corredor de produtos de higiene pessoal no supermercado e reparou que um homem segurava um xampu de R$ 32 que ele tinha visto em oferta em outra rede. Não pensou duas vezes: “Eu disse: ‘Amigo, deixa eu te falar, sabe quanto é que tá isso daí lá no atacarejo agora? R$ 17,99’. A pessoa largou e foi comprar na saída.”

O talento para barganha fez com que, em 2022, ele passasse a economizar também profissionalmente: virou chefe da seção de análise e pesquisa de preços do TRE do Ceará, área responsável pelas cotações de preços que vão balizar as licitações para compras de produtos pelo tribunal.

Com o aumento dos preços de alimentos e de itens básicos do dia-a-dia doméstico no último ano, ele tem recebido cada vez mais pedidos de “encomendas” – no momento, tem a missão de garimpar desodorante e mostarda com bom custo-benefício – e de dicas para driblar os preços altos.

Recentemente, encontrou um pacote de 250g de café por R$ 9,99. Um achado.

O azeite extra-virgem que geralmente compra por R$ 50 apareceu por R$ 38. Levou quatro para ele e dois para colegas do trabalho.

“Fiz uma economia de R$ 12 por frasco. Se eu uso um por mês, em quatro meses aquilo me poupou quase R$ 100 – já paga metade do futebol do meu filho.”

Essa mentalidade, em sua visão, é o que lhe permite sustentar o padrão de vida da família – ele, a esposa e os dois filhos – e repor o que a inflação come do salário, que, segundo ele, tem reajustes esporádicos que não acompanham a escalada de preços.

51% dos brasileiros usam smartphone durante as compras para comparar preços, contra 36% na média de 25 países, segundo pesquisa da PwC

‘Brasileiro anda pelo supermercado com celular na mão’

O aumento do custo de vida tem provocado uma série de mudanças nos hábitos dos brasileiros, que em alguns casos têm substituído marcas que estão acostumados a consumir por outras mais baratas ou trocado o almoço fora no trabalho pela marmita.

Um levantamento feito pela empresa de vales refeição e alimentação Valecard com sua base de clientes mostrou que os gastos em supermercado cresceram 55% entre os portadores dos tíquetes e 113% em mercearias. Na contramão, as despesas dos cartões com restaurantes caíram 29% e em lanchonetes, 18%, diz Virgílio Mundim Costa, gerente de marketing.

Assim, cada vez mais gente está atenta aos preços em busca de economia – em todas as classes sociais.

“A classe A e B perdeu a vergonha de comprar pelo melhor preço”, comenta Luciana Medeiros, sócia e líder do setor de varejo na consultoria e auditoria PwC.

Isso explica porque as redes de atacarejo estão abrindo lojas em áreas mais centrais de muitas capitais e passando a oferecer serviços e produtos de maior valor agregado, como vinhos, ela exemplifica.

Entre as classes C, D e E, um processo recente de educação financeira trouxe mais controle sobre o orçamento e sofisticação na pesquisa de preços. 81% dos consumidores desse grupo fazem suas compras em lojas físicas, mas muitos deles comparam os preços on-line antes de sair de casa e mesmo dentro do supermercado, diz Medeiros.

A paulistana Isabel Rosana Bueno faz uma ronda diária nos aplicativos dos supermercados que estão na sua rota de deslocamento para o trabalho, onde dá meio expediente entre 6h e 10h fazendo limpeza de escritórios, no caminho para a ONG onde atua como voluntária três vezes por semana e no trajeto para a igreja.

Como Roney, é uma espécie de evangelizadora da economia: “Quando vejo uma coisa com um preço bom eu mando pra todos os grupos, o da igreja, o da ONG, da família, coloco no status do WhatsApp.”

Na loja, anda com a calculadora do celular aberta para garantir na ponta do lápis que as promoções para pagar menos levando mais de uma unidade estão valendo a pena.

Também faz questão de mostrar na tela do aparelho o encarte de promoções para o gerente quando um concorrente está oferecendo preço melhor – e aproveita pra cobrar o desconto quando a rede segue a política do “cobrimos qualquer oferta”.

“O consumidor brasileiro de todas as classes sociais vai para a loja com o celular na mão”, ressalta Medeiros.

Em uma pesquisa global da PwC realizada em 2023, 51% dos entrevistados no Brasil disseram usar o smartphone enquanto andavam pelos corredores para comparar produtos, contra 36% na média dos 25 países incluídos no levantamento.

“O brasileiro muitas vezes está na loja e compra online, compra no físico e manda entregar em casa, compra no online e vai trocar no físico”, ilustra Medeiros.

Caçadores de ofertas monitoram apps de supermercados e participam de grupos de WhatsApp para compartilhar dicas de descontos

‘É como se eu estivesse jogando videogame e o vilão fosse o preço alto’

Genésio Vasconcelos é um deles. Anda pelo supermercado com o celular na mão e três ou quatro aplicativos abertos – de um market place, uma farmácia, de outro supermercado e um de cashback, por exemplo.

Encontrou algo mais barato da lista de compras no digital, ele vai colocando no carrinho.

“Às vezes eu saio do supermercado feito no atacadista, e mais três ou quatro pedidos feitos em outros locais, que ou eu vou passar para recolher ou que vão entregar na minha casa”, diz o cearense, que é educador financeiro e autor de um dos capítulos do livro Adeus, Dívidas.

Outro hábito que faz parte da rotina de economia dele é maximizar as ofertas comprando o maior número de itens possível do mesmo produto entre os não perecíveis – higiene pessoal e material de limpeza.

Fazer estoques na despensa, aliás, está na lista de estratégias de praticamente todos os “ninjas” das pechinchas que conversaram com a reportagem.

Isso também evita as compras de última hora – e a preços mais altos – desses produtos nas visitas às redes menores que muitos deles fazem nos dias específicos de promoções para comprar itens de consumo mais imediato, como frutas, legumes e verduras.

Nesse sentido, Vasconcelos diz que o segredo é resistir à tentação das compras por impulso, inclusive as promoções, ser organizado e se programar.

“Eu já comprei sabonete pra um ano inteiro quando peguei uma mega promoção.”

Qual a sensação de economizar? “Para mim é como se eu estivesse jogando videogame”, ele compara.

“Eu tô ali, um adolescente de 12 anos encarando uma fase de videogame, e aí eu consigo vencer o vilão. O vilão é o preço alto. Ele veio pra cima de mim, eu fui pra outro canto e consegui escapar”, ele completa, dando risada.

Fazer estoques na despensa está na lista de estratégias de praticamente todos os ‘ninjas’ das pechinchas que conversaram com a reportagem

‘Abro app de supermercado assim que acordo’

Agleison Costa Castro é outro adepto convicto da prática do estoque de descontos. Chegou a comprar 80 quilos de arroz recentemente. Ficou com 15 quilos em casa, onde mora com os pais e outros familiares, e vendeu o restante entre vizinhos e parentes.

Ele é administrador do “Desconto? É pra já”, um grupo fechado no WhatsApp que reúne 104 pessoas que compartilham mega descontos em aplicativos de entrega de supermercado, como iFood e Rappi.

Castro trabalha como consultor técnico em uma oficina de serviços automotivos em Fortaleza e é uma daquelas pessoas que guardam o preço de absolutamente tudo na memória.

Na conversa com a reportagem, ele foi do sabão em pó e da margarina ao filé mignon e o peito de frango, disparando os preços médios no varejo da capital cearense em contraste com o que pagou pelos aplicativos, com descontos de até 80%.

Ele sempre foi poupador, mas com o smartphone caçar as ofertas virou uma mania. “É um hobby, é um vício”, ele diz à BBC News Brasil.

Castro checa o celular em busca de promoções pelo menos cinco vezes por dia: quando acorda, depois às 9h – quando costumam aparecer os “bugs dos preços” nos apps de entrega, como dizem os participantes do grupo -, na hora do almoço e à noite, depois de chegar do trabalho.

“Eu deito pra relaxar e fico olhando se tem mais alguma coisa em oferta.”

Unidos pelo desconto

O grupo que Castro administra surgiu em 2021, durante a pandemia, época em que muitos brasileiros passaram a usar cada vez mais a internet e as redes sociais como ferramenta para buscar ofertas.

Hoje, ele é um entre milhares, que compartilham dicas de descontos de alimentos e itens domésticos a roupas, perfumes e eletrodomésticos.

A pedido da reportagem da BBC News Brasil, a plataforma de escuta social Palver, que monitora mais de 75 mil grupos públicos no WhatsApp, além de outras redes sociais, mapeou pelo menos 1.375 grupos abertos de desconto no WhatsApp e outros 231 no Telegram, identificados por meio palavras-chave derivadas de “descontos”, “economizar” e “ofertas”.

Segundo Lucas Cividanes, da área de inteligência e análise da Palver, os principais grupos compartilham diariamente mais de 30 mensagens com descontos. Entre as comunidades mais ativas estão nomes como “Achadinhos da Shopee”, “Achei Barato” e “Promos Arrase”.

Dentro da amostra, o volume atinge um nível de cerca de 400 mensagens a cada 100 mil no WhatsApp e de 100 a cada 100 mil no Telegram, “taxa próxima à de personalidades políticas de peso como o Presidente Lula e o ex-presidente Bolsonaro”, diz ele.

Geograficamente, as áreas com maior incidência de trocas de mensagens são a Região Metropolitana de Fortaleza e o norte do Estado do Espírito Santo.

Vale a pena tanto esforço?

Mas será que a dedicação para poupar dá resultado?

Vasconcelos diz que depende. Para o consultor financeiro, quando a economia é de centavos, geralmente não compensa o tempo perdido para garantir o desconto.

“A gente tem que olhar nossa vida econômica de forma macro, senão você fica ali economizando centavos, mas gasta tempo – e tempo é dinheiro.”

“Senão você vira escravo do centavo”, ele acrescenta. “Tal qual o escravo da dívida tem o escravo da economia.”

A paulistana Edilene Vieira tem uma filosofia parecida.

Poupadora convicta, ela visita o Ceasa para comprar frutas e legumes a cada 15 dias na hora da xepa, monitora os aplicativos de 5 supermercados em busca de ofertas – compartilha as melhores com os amigos e familiares – e faz estoque de boas promoções

“Não estou sofrendo tanto com o café porque eu tinha ainda um monte no estoque”, conta.

Para ela, economizar é uma forma de dar valor ao que se ganha com o trabalho, mas também uma ferramenta pra realizar sonhos de consumo.

Graças a esse hábito – que cultiva há décadas e que passou à filha, outra poupadora contumaz – ela recentemente se “deu ao luxo” de alugar por dois anos e meio uma casa no litoral de São Paulo.

Aposentada do setor em que atuou por 35 anos, hoje tem um trabalho de meio período – que faz metade da semana da cidade e metade, da praia.

Economia cresceu 3,4% em 2024, mas desaceleração deste ano preocupa

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Industria, Comércio e Serviços (Mdic), Geraldo Alckmin (PSB), e a ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, comemoraram, nesta sexta-feira (7), nas redes sociais, o crescimento de 3,4% no Produto Interno Bruto (PIB) de 2024. Enquanto isso, entidades patronais enviaram nota demonstrando preocupação com a desaceleração da atividade econômica que já está contratada para 2025 e, provavelmente, para 2026.

“PIB crescendo é mais emprego e renda na mão dos brasileiros e das brasileiras. 2025 é o ano da colheita”, escreveu Lula em seu perfil do X, antigo Twitter. Na mesma rede, Alckmin festejou: “É o Pibão do presidente Lula! O Pibão da Nova Indústria Brasil!”, escreveu o ex-tucano, destacando a política voltada para a indústria nacional conduzida por ele frente ao Mdic e o avanço de 7,3% no investimento produtivo e garantiu que o país caminha para o crescimento sustentável.

A ministra do Planejamento, por sua vez, também festejou o resultado divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nas redes sociais, e destacou para o dado da renda per capita, que cresceu um pouco menos do que o PIB nacional, que somou R$ 11,7 trilhões. “Boa notícia! O PIB per capita do Brasil em 2024 foi de R$ 55.247,45. Cresceu 3% em termos reais. Isso equivale a R$ 4.604 por mês por habitante. Significa aumento da renda média do brasileiro. Agora é seguir avançando, combatendo a inflação para baratear o preço dos alimentos”, escreveu Tebet, no X.

Enquanto isso, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, foi mais contido, cumpriu agenda da semana longe de Brasília e só se pronunciou sobre o PIB à noite. Em entrevista ao podcast Flow, único compromisso oficial ontem, ele afirmou que a pasta projeta crescimento de 2,5% neste ano, acima da última previsão oficial, de 2,3%.

Desaceleração

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) demonstrou preocupação com o processo de desaceleração do PIB no último trimestre do ano, que registrou variação de 0,2%, mas elogiou as medidas do governo para o setor produtivo. Para a instituição, esse resultado indica “um cenário de alerta para 2025” e ainda defendeu que o governo adote medidas para o equilíbrio econômico e que contribuam para a racionalidade dos gastos públicos. “Precisamos buscar o equilíbrio fiscal, com atenção às despesas, uma vez que a carga tributária já está no limite, principalmente para o setor industrial que é o mais sobrecarregado do país em relação a tributos”, disse o presidente da CNI, Ricardo Alban, na nota.

A Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) engrossou o coro e defendeu a adoção de uma reforma fiscal robusta para uma alocação mais eficiente dos recursos públicos. “Este é o primeiro passo para a construção de um Estado eficiente, com infraestrutura de qualidade e um ambiente de negócios favorável. Caso contrário, voltaremos à combinação perversa de crescimento mediano, alta inflação e juros elevados”, afirmou o economista-chefe da Firjan, Jonathas Goulart, no comunicado.

O presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Isaac Sidney, também demonstrou preocupação com o processo de desaceleração da atividade. Ele lembrou que, apesar das previsões modestas no começo do ano passado por analistas e agentes econômicos, o resultado do PIB de 2024 foi robusto, “confirmando o bom desempenho da atividade econômica”, os dados mais recentes da economia, incluindo os do PIB 4º trimestre de 2024, “já mostram sinais mais claros de acomodação da atividade econômica”.

“É importante não perdermos de vista que temos de persistir no recuo dos impulsos fiscais por conta da necessidade imperiosa de fortalecermos o equilíbrio das contas públicas, condição para o Brasil alcançar patamares de juros estruturalmente menores”, defendeu Sidney.

Crescimento

A atividade econômica brasileira desacelerou no último trimestre de 2024, o que resultou em crescimento de 0,2% — menos da metade do esperado pelo mercado. Com esse resultado, o Produto Interno Bruto (PIB) do país encerrou o ano com crescimento de 3,4% na comparação com 2023. Em valores nominais, o PIB, que é a soma de tudo o que o país produz em bens e serviços, chegou a R$ 11,7 trilhões.

O dado também ficou levemente abaixo das estimativas do mercado e do governo, que chegou a cogitar alta de até 3,7%, mas indica o melhor desempenho das contas nacionais desde 2021, conforme os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados nesta sexta-feira (7). De acordo com os dados do IBGE, os principais motores para o desempenho do PIB no ano passado vieram, do lado da oferta, dos serviços e da indústria, que cresceram 3,7% e 3,3%, respectivamente, em relação a 2023.

Enquanto isso, a agropecuária, que deu uma forte contribuição no PIB de 2023, encolheu -3,2%. A arrecadação de impostos cresceu 5,5% e ajudou a ampliar o valor adicionado de riquezas do país ampliando a participação no PIB de 14,5%, em 2023, para 16%, em 2024.

Consumo

Pela ótica da demanda, o consumo das famílias e os investimentos, medidos pela Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) foram os principais destaques, com expansão de 4,8% e de 7,3%, respectivamente, na mesma base de comparação. Analistas lembram que a taxa de investimento, de 17% do PIB, cresceu em relação aos 16,4% do PIB registrados em 2023. Contudo, esse patamar ainda está abaixo dos índices acima de 20% do PIB computados entre 2009 e 2013.

De acordo com analistas, o aumento da renda das famílias, devido à melhora no mercado de trabalho, e estímulos fiscais, como o Bolsa Família parrudo e o aumento real no salário mínimo, são algumas das razões para que o consumo das famílias apresentasse o maior crescimento desde 2011. Mas, a escalada dos juros e a persistência da inflação fizeram esse indicador recuar 1% no 4º trimestre, acentuando o processo de desaceleração que deverá se estender para 2025, ano em que o PIB poderá crescer menos de 2%, conforme algumas estimativas.

“A economia está desacelerando e não podemos descartar queda de PIB no segundo semestre deste ano”, alertou a economista Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria. Ela esperava alta de 0,4% do PIB de outubro a dezembro. “Esse PIB mais fraco mostra que a desaceleração é maior do que o esperado por conta da queda da demanda. Isso indica que o consumo das famílias e os investimentos tendem a ser mais fracos ao longo deste ano, como reflexo da política monetária e do mercado mais tenso devido à percepção de risco maior no cenário externo”, explicou.

“Esse cenário apenas está chancelando o movimento de aumento da Selic que vem sendo conduzido pelo Banco Central”, acrescentou. O BC vem elevando a taxa básica de juros, a Selic, que hoje está em 13,25% ao ano e pode encerrar 2025 em 15%, segundo estimativas do mercado. A economista Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), lembrou que, apesar do crescimento considerado forte do PIB em 2024, acima do crescimento potencial, isso vem contribuindo para a desancoragem das expectativas de inflação, que não param de ser revisadas para cima e seguem acima do teto da meta, de 4,5%.

Matos também reconheceu que o aumento de 4,8% do consumo das famílias em 2024 superou as estimativas e agora, haverá um cabo de guerra entre a política monetária e a política fiscal, se o governo resolver manter estímulos para evitar a desaceleração que está em curso. “O custo para conseguir reduzir a inflação tende a ser maior e vai ser um problema ao longo deste ano e do próximo, que tem as eleições presidenciais”, alertou. Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, é categórico ao avaliar o desempenho do PIB de 2024 e avalia que a desaceleração de 2025 está convergindo para uma alta do PIB entre 1,5% e 2%.

10 bacias hidrográficas brasileiras e a importância delas

Uma bacia hidrográfica é definida como um conjunto composto por um rio principal, seus afluentes e subafluentes, que drenam as águas de um determinado território. O Brasil possui um dos maiores complexos hidrográficos do mundo, destacando assim seu gigantesco potencial hídrico. No solo nacional, há rios com grandes extensões, larguras e profundidades. Além disso, o país conta com 8% de toda água-doce da superfície da Terra e a maior bacia fluvial mundial: a bacia Amazônica.

Rios de planalto e planície

Embora pouco explorados, os rios de planaltos (rios localizados em regiões com relevo acidentados e altitudes variadas) são os que apresentam rupturas de declive, vales encaixados, entre outras características que propiciam geração de energia elétrica.

Como esses rios de solo são muito acidentados e irregulares, eles dificultam a navegabilidade e chamam a atenção de todo o planeta para o aproveitamento hídrico. Os principais rios são o Paraná e o São Francisco. Já os rios de planícies (que apresentam um curso mais regular) são mais utilizados para navegação fluvial e pesca. Os principais rios são o Amazonas e o Paraguai.

Bacias hidrográficas do Brasil

É a maior bacia do mundo, abrange países vizinhos (Bolívia, Peru, Colômbia, Venezuela, Guiana, Guiana Francesa e Suriname) e tem o Rio Amazonas como o principal. Abrange uma área de 7.050.000 km², nascendo no Peru e entrando no Brasil com o Rio Solimões.

Essa bacia é um agrupamento de diversos rios que se destacam pela importância econômica. São eles: Araguari, Oiapoque, Pedreira, Gurijuba, Cassiporé, Vila Nova, Matapi, Maracapú, entre outros.

É um agrupamento de diversos rios, como Acaraú, Jaguaribe, Piranhas, Potengi, Capibaribe, Una, Pajeú, Turiaçu, Pindaré, Grajaú, Itapecuru, Mearim e Parnaíba. Eles apresentam um papel importante no transporte de produtos agrícolas.

A bacia do Rio Tocantins é a maior bacia hidrográfica inteiramente brasileira (Imagem: Rosalba Matta-Machado | Shutterstock)

É a maior bacia hidrográfica inteiramente brasileira. Ela engloba o Rio Tocantins (Goiás) e o Rio Araguaia (Mato Grosso). Além disso, a bacia abriga a usina de Tucuruí (Pará), destinada à extração de ferro e alumínio.

Essa bacia tem grande importância política, econômica e social para a região Nordeste. Seu principal rio é o São Francisco, navegável por grande extensão e responsável por abastecer a região metropolitana de Belo Horizonte.

É um agrupamento de diversos rios, como Pardo, Jequitinhonha, Paraíba do Sul, Vaza-Barris, Itapicuru, Paraguaçu, entre outros.

É um agrupamento de rios, como Jacuí, Itajaí, Ribeira do Iguape, entre outros. Eles possuem importância regional por meio do transporte, abastecimento e da geração de energia.

A bacia do Rio Uruguai tem um grande potencial hidrelétrico (Imagem: F.S.W | Shutterstock)

Nessa bacia, o principal rio, o Uruguai, divide os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, além de fazer fronteira entre o Brasil e a Argentina, bem como entre a Argentina e o Uruguai. A bacia do Uruguai apresenta tanto um grande potencial hidrelétrico quanto uma das maiores relações energia/km² do mundo.

Industrializada e urbanizada, essa bacia sustenta quase um terço da população brasileira, além da maior hidrelétrica do mundo: a usina de Itaipu (Paraná). Ela abrange as metrópoles populacionais de São Paulo, Campinas e Curitiba. O Rio Paraná é o mais importante, com seus afluentes e formadores: rio Grande, Paranaíba, Tietê, Paranapanema, Iguaçu, entre outros.

Sua navegabilidade tem importância para integrar países do Mercosul. Isso ocorre devido ao fácil transporte de cargas entre as águas do Brasil, Paraguai e da Argentina.

Por Tao Consult

Trump congela de novo parte das tarifas contra México e Canadá: o que está em jogo na guerra comercial

O presidente americano, Donald Trump, anunciou nesta quinta-feira (6/3) que os EUA suspenderão temporariamente a maioria das tarifas que haviam imposto ao México e ao Canadá dois dias antes.

Com a decisão, ficam sem efeito no momento a maioria das novas taxas de 25% aplicadas sobre produtos mexicanos e canadenses.

O congelamento, que expira em 2 de abril, foi anunciado pelo presidente americano em sua plataforma Truth Social após uma conversa dele com a mandatária mexicana, Claudia Sheinbaum.

“Após conversar com a presidente Claudia Sheinbaum do México, concordei que o México não será obrigado a pagar tarifas sobre qualquer item abarcado pelo tratado USMCA”, escreveu Trump na rede social Truth. Depois, a Casa Branca adicionou que o Canadá também seria beneficiado pelo acordo.

O tratado USMCA – acrônimo com as iniciais em inglês de Estados Unidos, México e Canadá – é uma atualização do Nafta (acordo de livre comércio da América do Norte), que vigorou entre 1994 e 2018.

Nesta quarta-feira (5/3), Trump já havia recuado parcialmente e oferecido isenção, por um mês, para empresas automotivas que importem ou exportem do Canadá e do México. O recuo é uma resposta ao pedido feito diretamente ao presidente por três montadoras: General Motors, Stelantis e Ford.

Apesar dos recuos e ajustes, Trump segue fazendo da defesa das novas tarifas sobre produtos importados uma das bandeiras de seu governo. O tópico foi tema de seu discurso ao Congresso americano na noite de terça-feira (04/03).

Na fala, Trump citou nominalmente o Brasil como possível alvo de novas tarifas ao dizer que o país “sempre usou tarifas contra os EUA”.

Os primeiros alvos brasileiros serão o etanol, taxado em 18% a partir do dia 2 de abril, e o aço e o alumínio, com tarifas de 25% a partir de 12 de março. Nesta quinta-feira, ele repetiu que não haverá exceção para tributos contra aço e alumínio.

É o que Trump chama de tarifas recíprocas, ou seja, os EUA cobrarão a mesma taxa das que são alvo em todos os produtos a partir do mês que vem.

Além de Canadá e México, o governo Trump já subiu para 20% as tarifas contra a China – o governos chinês e canadense responderam subindo seus impostos sobre importações sobre muitos produtos dos EUA.

Trump tem dito ter como alvo o Canadá e o México porque ambos os países estão permitindo a entrada de um grande número de imigrantes ilegais nos EUA.

Também afirmou que as duas nações e a China permitem que grandes quantidades de fentanil produzido ilegalmente sejam enviadas para os EUA.

Economistas alertam que essas tarifas podem prejudicar empresas e consumidores nos EUA e no resto do mundo.

Durante o discurso no Congresso, Trump admitiu que tarifas sobre bens de Canadá, México e China podem provocar “perturbações” e que os produtores agrícolas americanos podem sentir “um período de indigestão”.

Mas nada sugere que ele esteja repensando a política de guerra comercial que vem abalando os mercados financeiros nos últimos dias. Na verdade, a maior teste da política começará em abril, quando ele prometeu impor mais tarifas recíprocas sobre todos os parceiros comerciais dos EUA.

O que são tarifas?

Tarifas são impostos sobre bens importados.

A taxa representa uma proporção do preço de um determinado item e é cobrada da empresa que o importa, em vez do exportador.

Então, se uma empresa está importando carros por, por exemplo, a R$ 50 mil cada e há uma tarifa de 25%, ela pagará uma taxa de R$ 12.500 em cada carro.

Se os importadores dos EUA repassassem o custo das tarifas aumentando os preços de varejo, os consumidores dos EUA arcariam com o fardo econômico.

Por que Trump é a favor de tarifas?

Donald Trump disse muitas vezes que as tarifas protegem e criam empregos nos EUA. Ele as vê como uma forma de fazer a economia dos EUA crescer e aumentar as receitas fiscais.

“Sob meu plano, os trabalhadores americanos não ficarão mais preocupados em perder seus empregos para nações estrangeiras”, disse ele. “Em vez disso, as nações estrangeiras ficarão preocupadas em perder seus empregos para a América.”

Trump também disse que as tarifas sobre o aço são importantes para a segurança nacional dos EUA porque incentivam os produtores de aço nacionais a aumentar sua capacidade de produção. Ele quer que os EUA sejam capazes de produzir o suficiente para produzir armas em tempos de guerra sem depender de importações.

Ele chamou as tarifas de “a sustentação da nossa base industrial de Defesa”.

Trump também defende as tarifas como uma forma de suprimir as vendas de produtos importados e promover as vendas de produtos nacionais. Esse foi seu motivo para impor tarifas no passado à UE, por exemplo.

“Eles não pegam nossos carros, não pegam nossos produtos agrícolas, não pegam quase nada e nós pegamos tudo deles”, disse Trump. “Milhões de carros, quantidades tremendas de alimentos e produtos agrícolas.”

Ele sugeriu que outras tarifas poderiam se concentrar em produtos farmacêuticos e chips de computador, dizendo: “É hora de nossas grandes indústrias voltarem para a América… esta é a primeira de muitas”, acrescentou.

Quais tarifas Trump impôs em seu primeiro mandato como presidente?

Donald Trump impôs tarifas sobre aço importado para proteger produtores dos EUA

Em 2018, Trump impôs tarifas de até 50% sobre máquinas de lavar e painéis solares importados. O governo dos EUA disse que os fabricantes americanos em ambos os setores estavam enfrentando concorrência desleal do exterior.

No mesmo ano, ele também colocou tarifas de 25% sobre aço importado e 10% sobre alumínio importado, incluindo para o México e Canadá, que eram parceiros dos EUA no Acordo de Livre Comércio da América do Norte, ou Nafta.

Mais tarde, ele retirou as tarifas quando as nações assinaram o Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA), que substituiu o Nafta em 2020 — um acordo comercial mais favorável aos EUA.

As tarifas sobre a União Europeia prejudicaram particularmente a Alemanha e a Holanda, porque os dois países exportam muito aço para os EUA. A UE como um grupo retaliou com tarifas sobre exportações dos EUA, como jeans, uísque bourbon e motocicletas.

Trump também colocou tarifas sobre mais de US$ 360 bilhões em produtos chineses, variando de carne a instrumentos musicais. A China retaliou impondo tarifas sobre mais de US$ 110 bilhões em produtos dos EUA.

Sob o presidente Joe Biden, as tarifas sobre a China foram mantidas em sua maioria e novas foram impostas a produtos como veículos elétricos.

Qual foi o impacto das tarifas do primeiro mandato de Trump em outros países?

As tarifas de Trump diminuíram a quantidade que os EUA importavam de alguns países, mas aumentaram a quantidade que importam de outros.

Antes de 2018, os produtos chineses representavam 22% do total das importações dos EUA. Em 2024, eles representavam apenas 13,5%, de acordo com o Departamento do Censo dos Estados Unidos.

O México ultrapassou a China para se tornar o exportador número um para os EUA até 2023. Agora, exporta US$ 476 bilhões em produtos para os EUA, em comparação com US$ 427 bilhões em produtos exportados da China.

Isso ocorre em parte porque muitas empresas — especialmente fabricantes de automóveis — mudaram a produção para o México para aproveitar seu acordo de livre comércio com os EUA e os baixos custos de produção lá.

Agora, o governo Trump afirmou, após recuar por um mês nas tarifas para o setor, que as montadoras foram alertadas de que, se não querem pagar tarifas, devem mudar sua produção inteiramente para os EUA quanto antes.

O México se tornou um centro mundial de produção de automóveis, graças ao seu acordo de livre comércio com os EUA

Os países do leste da Ásia também viram um aumento nas exportações para os EUA, graças às tarifas altas de Trump sobre a China.

Isso ocorreu em parte porque seus produtos se tornaram mais baratos do que os produtos chineses para os consumidores dos EUA e em parte porque muitas empresas chinesas se mudaram para esses países para evitar as tarifas dos EUA.

De acordo com dados do Representante Comercial dos EUA, os países pertencentes ao bloco comercial da ASEAN — como Indonésia, Filipinas, Tailândia e Vietnã — exportaram US$ 158 bilhões em produtos para os EUA em 2016, mas exportaram quase US$ 336 bilhões em produtos para os EUA em 2022.

Os países do leste da Ásia também viram um aumento nas exportações para os EUA

“O país mais atingido pelas tarifas de 2018 foi a China”, diz Nicolo Tamberi, economista da Universidade de Sussex, no Reino Unido.

“Acho que o Vietnã foi provavelmente um dos maiores vencedores dessa rodada de tarifas”, disse ele.

Para os EUA, as tarifas impulsionaram a produção de aço e alumínio, de acordo com o Peterson Institute for International Economics, mas também aumentaram os preços dos metais. Segundo os dados do centro de pesquisas, isso resultou na perda de milhares de empregos em outras indústrias de manufatura.

O Peterson Institute afirma ainda que as medidas tarifárias de Trump aumentaram os preços em todos os setores, deixando os consumidores dos EUA em pior situação.

Quais tarifas os EUA impuseram e quais tarifas podem impor?

Trump disse que quer tarifas sobre o México e o Canadá para fazê-los conter o fluxo de migrantes ilegais para os EUA, e a droga fentanil

O plano dos EUA é impor tarifas de 25% sobre produtos do Canadá e do México. As importações do setor de energia do Canadá, como petróleo, receberam uma tarifa de 10%.

Todas essas tarifas deveriam entrar em vigor inicialmente em 4 de fevereiro, mas foram adiadas duas vezes. Agora, os produtos que fazem parte do acordo de livre comércio entre os países devem ficar isentos até o começo de abril.

Antes, o governo Trump já havia adiado por mais um mês as tarifas específicas para o setor automotivo do México e Canadá.

Os EUA impuseram uma tarifa de 10% sobre as importações chinesas, além de uma tarifa de 10% já em vigor desde o início de fevereiro.

Trump disse que imporia as tarifas em resposta ao que ele alega ser o fluxo inaceitável de ingredientes para fazer a droga ilegal fentanil e imigrantes ilegais para os EUA.

O Canadá retaliou declarando tarifas de 25% sobre US$ 150 bilhões em produtos dos EUA. O México diz que anunciará suas contramedidas mais tarde e escolheu negociar com Trump.

A China declarou tarifas de 10% a 15% sobre as importações de alimentos dos EUA, como trigo, milho, carne bovina e soja.

Anteriormente, Trump impôs impostos sobre importações de carvão, petróleo, gás, máquinas agrícolas e carros de grande porte dos EUA, e proibiu exportações para os EUA de muitos elementos de terras raras necessários para a fabricação de equipamentos eletrônicos e militares.

Em 12 de março, os EUA devem começar a impor uma tarifa de 25% sobre importações de aço e alumínio de qualquer lugar do mundo.

Isso afetará os principais países produtores de aço, como Brasil, Canadá, China, Alemanha, México, Holanda, Coreia do Sul e Vietnã, e grandes produtores de alumínio, como Emirados Árabes Unidos e Bahrein.

Trump negou sugestões de que as tarifas aumentarão o preço do aço nos EUA. “No final das contas, será mais barato”, disse ele.

Ele disse que os EUA imporão tarifas sobre produtos agrícolas estrangeiros e importações de carros estrangeiros em 2 de abril “na vizinhança de 25%”,

Como as tarifas recentes podem prejudicar o Canadá e o México?

Tarifas sobre as exportações para os EUA podem aumentar o desemprego no México

De acordo com o professor Stephen Millard, do think tank britânico National Institute of Economic and Social Research, o Canadá e o México sofreriam muito com tarifas gerais.

Ambos os países são altamente dependentes dos EUA. O México envia 83% de todos os seus produtos para os EUA e o Canadá envia 76% de todas as suas exportações.

“O Canadá vende grandes quantidades de petróleo e maquinário para os EUA”, disse Millard, “e uma tarifa de 25% poderia encolher seu PIB em 7,5% ao longo de cinco anos.”

“As tarifas poderiam cortar o PIB do México em 12,5% ao longo de um período de cinco anos. Isso seria um grande golpe.”

Lila Abed do Instituto do México no think tank americano Wilson Centre diz que as tarifas dos EUA seriam “devastadoras” para os trabalhadores mexicanos.

“Aproximadamente cinco milhões de empregos nos EUA dependem do comércio EUA-México… e um estudo recente sugere que cerca de 14,6 milhões de empregos no México dependem do comércio com seus parceiros norte-americanos”, disse ela.

Os índices das bolsas de valores nos EUA e no resto do mundo caíram com a notícia de que as novas tarifas foram introduzidas, refletindo os temores dos investidores de que elas prejudicariam o comércio global e a economia global.

Andrew Wilson, da Câmara de Comércio Internacional, disse: “O que estamos vendo é o maior aumento efetivo nas tarifas dos EUA desde a década de 1940 — com graves riscos econômicos associados a isso.”

Ella Hoxha da empresa financeira Newton Investment Management, sediada no Reino Unido, alertou sobre “aumentos nos preços, pois as empresas repassam alguns desses preços ao consumidor.”

Como o Brasil pode ser afetado?

Aço brasileiro deve ser um dos mais afetados por medidas anunciadas por Trump

O Brasil será um dos países mais atingidos pelas tarifas sobre as importações de aço e alumínio anunciadas por Trump — que começam a valer em 12 de março.

Os EUA são, de longe, o maior mercado para produtos siderúrgicos do Brasil. O Brasil exporta para os EUA 12 vezes mais do que para a Europa e 6 vezes mais do que para a América Latina.

Já em relação ao alumínio, outro produto alvo de tarifas anunciadas por Trump, o Brasil é o 14º maior fornecedor para os EUA, segundo dados do departamento de Comércio dos EUA.

O próprio Brasil também pratica protecionismo no setor do aço. Em outubro, após mais de um ano de análise, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) elevou para 25% o imposto de importação para 11 tipos de produtos de ferro e de aço. Antes disso, esses produtos pagavam de 10,8% a 14% para entrarem no país.

O pedido foi feito pelo Sindicato Nacional da Indústria de Trefilação e Laminação de Metais Ferrosos (Sicetel) que acusava “concorrência desleal dos produtos importados”.